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visão. Seu título -De Volta à Caixa
de Abelhas - remete a um poema de Sylvia Plath, constituindo-se
num inventário de sensações e lembranças,
que é universal na sua mais íntima particularidade:
relicário que passa a ser também nosso, dos
seus leitores.
Apesar
de relutante em “(...) mostrar a todos / essas asas
/ ocultas sob as roupas”, a autora, com um bom empurrão
do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, a quem ela
dedica o volume, concedeu finalmente em compartilhar conosco
seus enigmas em forma de versos, que passam agora a ser
uma referência importante na poesia da sua geração.
Como diz Aleilton Fonseca, nas orelhas do livro, ao abrir
a caixa, a autora “(...) deixou que os mistérios
pessoais fluíssem, com sua mistura de mel e veneno,
libertando a poeta de uma simbólica condição
de Pandora”.
O livro, que tem prefácio de Gerana Damulakis e é
editado pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da
Bahia, através do selo As Letras da Bahia, será
lançado amanhã, das 18 às 22 horas,
na Academia de Letras da Bahia. Veja, a seguir, uma breve
entrevista com a autora.
P
- Kátia, como surgiu o impulso de voltar à
caixa de abelhas?
R - Eu sou fã da poesia de Sylvia Plath e, quando
li o poema A Chegada da Caixa de Abelhas, na tradução
de Ana Cristina Cesar, me identifiquei imediatamente com
o tema. Tempos depois, quando meu pai adoeceu, foi como
se todo o meu passado me viesse à memória,
começasse a aflorar. Isso fez com que eu começasse
a me sentir pronta para escrever alguns poemas e resgatar
outros que haviam sido escritos há muito tempo. Na
verdade, eu já havia desistido da poesia, mas senti
que ela não tinha desistido de mim. Então,
passei a relacionar as minhas lembranças, das quais
eu não podia escapar: as abelhas africanas do poema
de Plath.
P - O livro é uma espécie de inventário?
R - É um inventário. Um inventário
de sensações e, de certa forma, também
um resgate, porque eu fui criada na Cidade Baixa, no bairro
dos Mares, e o meu universo da infância e parte da
adolescência foi todo centrado naquela atmosfera de
periferia, que se assemelha muito à vivência
no interior. Por um lado, somos discriminados, por outro,
nos fechamos e valorizamos muito as nossas características,
que nos peculiarizam.
P - Essa atmosfera dos seus poemas é diferente das
dos seus contos. Por quê?
R - Os contos e a ficção são mais centrados
no universo interior dos personagens. Nesse sentido, não
me preocupo muito em situar em locais específicos
da cidade ou do País. Eu considero isto uma falha.
Acho que me falta uma melhor ambientação,
uma contextualização das histórias.
Estou aprendendo sempre, estudando sempre, tentando melhorar
sempre. Meus personagens surgem sempre de dentro pra fora,
até nesse sentido. Muito mais do que mostrar o que
esses personagens são fisicamente, eu tento dar pistas
que induzam o leitor a imaginar como pode ser uma pessoa
que tenha aqueles gostos musicais, literários, aqueles
sentimentos também. Eu me sinto engatinhando no que
me interessa mais, que é a ficção.
P - O que é a literatura para você?
R - Acho que a literatura é uma forma de administrar
a esquizofrenia que todo mundo tem. E ninguém escolhe
escrever. Isto se impõe na sua vida e você
não tem como escapar. No meu caso, eu não
quero escapar.
P - Você concorda que sua poesia é mais luminosa
que sua ficção? A que você atribui isto?
R - Concordo, sim. Eu sempre tive uma atração
maior por uma ficção mais sombria. Sou fã
de romances policiais, a exemplo de James Elroy e dos mais
antigos, desde Edgar Allan Poe, passando por Agatha Christie,
Dashiell Hammet. Na verdade, é uma atração
pelo que se passa atrás das aparências. No
social, todo mundo é bonzinho, limpo e perfumado,
mas ninguém passa imune pela vida. Todo mundo leva
sua nódoa no brim. E têm outros escritores
também que eu sempre gostei muito e que, embora não
tivesse uma literatura exatamente sombria, estavam sempre
interessados em pegar o ser humano desprevenido. No momento
em que ele se despe das máscaras sociais, como Caio
Fernando Abreu, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles.
P - Quais são suas principais referências
na poesia?
R - Em primeiro lugar, Manuel Bandeira. Quando eu era criança,
achava, romanticamente, que eu morreria de uma doença
misteriosa que já tinha e não sabia. Isto
me levou a identificar-me muito com Manuel Bandeira. Mas
sempre li todos os poetas brasileiros e tive relação
mais estreita com os poemas de Cecília Meireles.
Havia também os poetas mais antigos, que eu gostava
muito, como Alphonsus de Guimarães e Olavo Billac,
e os mais modernos e irreverentes: Paulo Leminski, Ana Cristina
Cesar. Só nunca gostei muito dos concretistas. Nunca
consegui gostar, embora tenha comprado livros e tentado.
P - A música parece exercer uma influência
muito forte nos seus escritos...
R - Sim. As coisas que eu mais gosto não são
datadas. É Janis Joplin, mais que tudo. Gosto de
Everything But The Girl. Em termos especificamente musicais,
do samba partido alto a Blind Mellon. Tudo que seja de raiz:
música cubana e poesia.
P - Por que demorou tanto para publicar seus poemas?
R - Primeiro, porque, na Bahia, faltam editoras que se interessem
e que dêem oportunidade aos novos escritores. E segundo,
no caso específico da poesia, faltava coragem mesmo
de colocar o material na rua. Acho que é mesmo como
pegar o filho e levar para a escola, no primeiro dia de
aula, com medo de que ele seja magoado, de que seja agredido.
Na ficção, diferentemente da poesia, você
está menos exposto. Na poesia, você está
inteiramente exposto, seu coração, a nu.
P - Como jornalista que atua há vários anos
na área cultural, que avaliação você
faz da literatura que é feita hoje, na Bahia?
R - Alguns escritores têm tido a coragem de tentar
penetrar na panelinha do eixo Rio-São Paulo, e, felizmente,
alguns têm conseguido se impor pelo talento. Eu citaria
Aleilton Fonseca, Luís Antonio Cajazeira Ramos, que
foi o “pai” do meu livro, Suênio Campos
de Lucena, Állex Leilla e Mayrant Gallo, entre outros.
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