RELICÁRIO DE DELICADEZAS

POEMAS Kátia Borges lança seu primeiro livro, tornando-se referência importante na poesia da sua geração
Jornal A Tarde - 19/06/02

Carlos Ribeiro

Rejane Carneiro

KÁTIA BORGES
 

O livro de estréia da jornalista, poeta e contista Kátia Borges é um relicário de delicadezas. Esta parece ser uma imagem exata: uma dessas caixinhas onde se coloca um pequeno tesouro íntimo, familiar: “Cartas antigas, fotos antigas, calendários”; pérolas, pulseiras, colares de ouro e diamantes vestidos de palavras, de versos, de imagens que se apresentam, com sua mescla de sombra e luz, à nossa


visão. Seu título -De Volta à Caixa de Abelhas - remete a um poema de Sylvia Plath, constituindo-se num inventário de sensações e lembranças, que é universal na sua mais íntima particularidade: relicário que passa a ser também nosso, dos seus leitores.

Apesar de relutante em “(...) mostrar a todos / essas asas / ocultas sob as roupas”, a autora, com um bom empurrão do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, a quem ela dedica o volume, concedeu finalmente em compartilhar conosco seus enigmas em forma de versos, que passam agora a ser uma referência importante na poesia da sua geração. Como diz Aleilton Fonseca, nas orelhas do livro, ao abrir a caixa, a autora “(...) deixou que os mistérios pessoais fluíssem, com sua mistura de mel e veneno, libertando a poeta de uma simbólica condição de Pandora”.

O livro, que tem prefácio de Gerana Damulakis e é editado pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, através do selo As Letras da Bahia, será lançado amanhã, das 18 às 22 horas, na Academia de Letras da Bahia. Veja, a seguir, uma breve entrevista com a autora.

P - Kátia, como surgiu o impulso de voltar à caixa de abelhas?
R - Eu sou fã da poesia de Sylvia Plath e, quando li o poema A Chegada da Caixa de Abelhas, na tradução de Ana Cristina Cesar, me identifiquei imediatamente com o tema. Tempos depois, quando meu pai adoeceu, foi como se todo o meu passado me viesse à memória, começasse a aflorar. Isso fez com que eu começasse a me sentir pronta para escrever alguns poemas e resgatar outros que haviam sido escritos há muito tempo. Na verdade, eu já havia desistido da poesia, mas senti que ela não tinha desistido de mim. Então, passei a relacionar as minhas lembranças, das quais eu não podia escapar: as abelhas africanas do poema de Plath.

P - O livro é uma espécie de inventário?
R - É um inventário. Um inventário de sensações e, de certa forma, também um resgate, porque eu fui criada na Cidade Baixa, no bairro dos Mares, e o meu universo da infância e parte da adolescência foi todo centrado naquela atmosfera de periferia, que se assemelha muito à vivência no interior. Por um lado, somos discriminados, por outro, nos fechamos e valorizamos muito as nossas características, que nos peculiarizam.

P - Essa atmosfera dos seus poemas é diferente das dos seus contos. Por quê?

R - Os contos e a ficção são mais centrados no universo interior dos personagens. Nesse sentido, não me preocupo muito em situar em locais específicos da cidade ou do País. Eu considero isto uma falha. Acho que me falta uma melhor ambientação, uma contextualização das histórias. Estou aprendendo sempre, estudando sempre, tentando melhorar sempre. Meus personagens surgem sempre de dentro pra fora, até nesse sentido. Muito mais do que mostrar o que esses personagens são fisicamente, eu tento dar pistas que induzam o leitor a imaginar como pode ser uma pessoa que tenha aqueles gostos musicais, literários, aqueles sentimentos também. Eu me sinto engatinhando no que me interessa mais, que é a ficção.

P - O que é a literatura para você?
R - Acho que a literatura é uma forma de administrar a esquizofrenia que todo mundo tem. E ninguém escolhe escrever. Isto se impõe na sua vida e você não tem como escapar. No meu caso, eu não quero escapar.

P - Você concorda que sua poesia é mais luminosa que sua ficção? A que você atribui isto?

R - Concordo, sim. Eu sempre tive uma atração maior por uma ficção mais sombria. Sou fã de romances policiais, a exemplo de James Elroy e dos mais antigos, desde Edgar Allan Poe, passando por Agatha Christie, Dashiell Hammet. Na verdade, é uma atração pelo que se passa atrás das aparências. No social, todo mundo é bonzinho, limpo e perfumado, mas ninguém passa imune pela vida. Todo mundo leva sua nódoa no brim. E têm outros escritores também que eu sempre gostei muito e que, embora não tivesse uma literatura exatamente sombria, estavam sempre interessados em pegar o ser humano desprevenido. No momento em que ele se despe das máscaras sociais, como Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles.

P - Quais são suas principais referências na poesia?
R - Em primeiro lugar, Manuel Bandeira. Quando eu era criança, achava, romanticamente, que eu morreria de uma doença misteriosa que já tinha e não sabia. Isto me levou a identificar-me muito com Manuel Bandeira. Mas sempre li todos os poetas brasileiros e tive relação mais estreita com os poemas de Cecília Meireles. Havia também os poetas mais antigos, que eu gostava muito, como Alphonsus de Guimarães e Olavo Billac, e os mais modernos e irreverentes: Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar. Só nunca gostei muito dos concretistas. Nunca consegui gostar, embora tenha comprado livros e tentado.

P - A música parece exercer uma influência muito forte nos seus escritos...

R - Sim. As coisas que eu mais gosto não são datadas. É Janis Joplin, mais que tudo. Gosto de Everything But The Girl. Em termos especificamente musicais, do samba partido alto a Blind Mellon. Tudo que seja de raiz: música cubana e poesia.

P - Por que demorou tanto para publicar seus poemas?

R - Primeiro, porque, na Bahia, faltam editoras que se interessem e que dêem oportunidade aos novos escritores. E segundo, no caso específico da poesia, faltava coragem mesmo de colocar o material na rua. Acho que é mesmo como pegar o filho e levar para a escola, no primeiro dia de aula, com medo de que ele seja magoado, de que seja agredido. Na ficção, diferentemente da poesia, você está menos exposto. Na poesia, você está inteiramente exposto, seu coração, a nu.

P - Como jornalista que atua há vários anos na área cultural, que avaliação você faz da literatura que é feita hoje, na Bahia?

R - Alguns escritores têm tido a coragem de tentar penetrar na panelinha do eixo Rio-São Paulo, e, felizmente, alguns têm conseguido se impor pelo talento. Eu citaria Aleilton Fonseca, Luís Antonio Cajazeira Ramos, que foi o “pai” do meu livro, Suênio Campos de Lucena, Állex Leilla e Mayrant Gallo, entre outros.