INTENSA HUMANIDADE

CONTOS - Marcado por intenso lirismo, livro de Aleilton Fonseca traz narrativas densas, com ênfase nas memórias da infância.
Jornal A Tarde - 18/12/01

Carlos Ribeiro


A palavra exata associada a uma vivência profunda; a observação arguta e sutil da vida, expressa através de um olhar marcado por um profundo lirismo, que compõe, passo a passo, e com extremo cuidado, uma construção artística plena de significados. Isto é o que se pode dizer, logo de partida, dos 12 contos do escritor baiano Aleilton Fonseca, reunidos no livro Desterro dos Mortos (Relume Dumará, 121 páginas).

A obra inclui cinco histórias anteriormente publicadas em Jaú dos Bois e Outros Contos - um dos vencedores do Prêmio Cultural de Literatura 1996, da Fundação Cultural da Bahia: livro de apenas 52 páginas, mas que obteve considerável reconhecimento por parte da crítica, com referências entusiasmadas à elegância da linguagem simples, justa e densa de significados (Luís Antônio Cajazeira Ramos), à leveza e à criatividade dos textos “combinadas com a habilidade de quem sabe equilibrar as palavras” (Kátia Borges), à junção da “profusão de sentimentos vivos do seu universo ficcional num espaço definido e preciso: o espaço da escrita...” (Cid Seixas), à “simplicidade de alto nível, como se quer a simplicidade literária” (Gláucia Lemos), ao “domínio da técnica formal a serviço de uma sensibilidade aguçada” (Luís Ruffato) e à sutil análise psicológica que lhe dá um caráter universal (Dominique Stoenesco).

Nesse livro, Aleilton confirma sua posição entre os melhores escritores brasileiros de sua geração, fato perfeitamente constatável por quem se dispuser a ler contos como O Sorriso da Estrela - incluído na antologia 25 Contistas Baianos, organizada por Cyro de Mattos no ano passado -, O Avô e o Rio, O Pescador e O Sabor das Nuvens, entre outros. Peças primorosas que garantem, como assinala a professora Rita Aparecida Coêlho Santos, no posfácio, a permanência do narrador - o mesmo do qual se vaticinou a morte, mas que está mais do que nunca vivo e atuante.

Segundo Rita Aparecida, Aleilton Fonseca aproxima-se do narrador clássico, conforme caracterização que dele fez Walter Benjamim em famoso ensaio sobre Nicolai Leskov. “Em geral, seus contos são relatos de vivências poderosamente nossas e ao mesmo tempo universais, porque falam dos mistérios da vida e da morte, e é isso que eleva a nossa alma e nos faz pensar na necessidade de intercambiar experiências e ouvir conselhos”, diz ela.

As contradições - muitas vezes ilusórias - entre tradição e modernidade, regional e urbano ou local e universal desaparecem, aqui, na alquimia que une experiência e linguagem. Experiência profunda, linguagem depurada - eis a base sobre a qual se constrói o edifício ficcional do autor. Os tijolos são os velhos e inextingüíveis temas: a solidão, a loucura, o amadurecimento, a amizade, o ciclo de nascimento, amadurecimento e morte, o amor.

O menino que só compreende a irmã “doida” - que lhe ofertava uma estrela - depois da sua morte; o menino que acompanha a luta do avô com o rio, que avança mais e mais sobre suas terras; o homem que retorna, após muitos anos, à fábrica inexistente, agora apenas um terreno tomado pelo mato, na qual sempre fora proibido de entrar; a avó que, docemente, espera a volta do marido morto, após tantos anos... histórias tocadas pelo mais intenso lirismo e que, como num conto de Tchekov, livre de qualquer sentimentalismo fácil, nos restituem o direito de chorar e rir, esquecidos de que estamos diante de uma ficção.

Vale destacar o conto que abre o volume - Nhô Guimarães -, engenhosa narrativa que reconstitui a imagem do escritor Guimarães Rosa, através da fala (em estilo roseano) de uma mulher, que rememora as visitas do escritor a ela e ao seu marido, no sertão de Minas Gerais. História transformada, posteriormente, num romance, ainda inédito.

O livro de Aleilton Fonseca -poeta, ficcionista, ensaísta, professor universitário e editor da revista iararana - pode ser recomendado como uma excelente opção para presentear os amigos nessas festas natalinas. Presente inesquecível, com certeza.

EDITORA: RELUME DUMARÁ
PÁGINAS: 121
TELEFONE: (21) 2564-6869