A VOZ ESQUECIDA DOS SERTÕES

Carlos Ribeiro

A Guerra de Canudos é um tema exaurido? No que diz respeito a ela, tudo já foi realmente dito, registrado, lido e analisado? Com estas indagações Aleilton Fonseca dá início ao seu mais recente livro, O pêndulo de Euclides, publicado pela Bertrand Brasil.
A afirmação de que nada mais de novo poderia ser dito sobre a guerra movida pelo governo republicano contra a então pacata gente de Belo Monte, em fins do século XIX, fora proferida, no início do romance, por um conferencista, durante um seminário, na Universidade Federal da Bahia, na ocasião da passagem dos 100 anos do livro Os sertões, de Euclides da Cunha. Afirmação que o narrador, alter ego do escritor, contestaria, não fosse aquela a conferência final do seminário, sem direito a debates.
O questionamento, interdito pelas regras da universidade, passaria a ser, a partir daquele momento, o leitmotiv do romance de Aleilton. Desdobrar-se-ia, em sucessivas e surpreendentes descobertas, nos oito capítulos que compõem o livro, por sua vez desdobrados em 50 subcapítulos, obedecendo à estrutura de uma jornada ou, ainda, de uma odisséia ao fim da qual o herói sem nome encontrará uma revelação. E é justamente neste ponto que se imbrincam duas perspectivas: a de um relato centrado na redescoberta e na re-significação de um evento histórico, no caso, a guerra e seus numerosos personagens históricos (Antonio Conselheiro, Euclides da Cunha, Moreira César, o juiz Arlindo Leone, o governador Luís Viana, o major Febrônio de Brito etc.) e o registro subjetivo do autor-narrador-personagem, que se descobre, pouco a pouco, e passo a passo, ele também elemento desse “baú de histórias”. Como ele mesmo afirma, logo no primeiro capítulo: “Como afluente de um Vaza-Barris vermelho, decerto em meu corpo também corre algum sangue conselheirista”. Desde antes, quando, ainda adolescente, lera pela primeira vez o livro de Euclides da Cunha, pressentia que Canudos fazia parte de sua vida.
Mas, a que ponto? Eis aí uma das questões principais que norteiam a jornada do personagem, professor, pesquisador, escritor, para quem aquela viagem de reconhecimento dos sertões, ao palco da tragédia de Canudos, 106 anos após o acontecimento relatado por Euclides da Cunha, era, na verdade, uma antiga obsessão. “Eu carregava as velhas questões. E era a hora de resolvê-las”.
Assim, após o encerramento da conferência na Universidade, encontra-se, o personagem, com dois outros pesquisadores do mesmo tema: o francês Dominique, de 59 anos, e Alex, poeta e ensaísta, de 40, este último um apaixonado pela guerra sertaneja e para quem o livro de Euclides havia mudado a mentalidade do país no início do século XIX. E seguem juntos para o teatro da guerra.
Tudo isto está no primeiro capítulo, intitulado “Viagem a Canudos”. Capítulo no qual o autor dá ao relato um tom de reportagem ou de documentário, descrevendo as paisagens, a cidade e as refeições sertanejas; introduzindo os personagens da região: Estevo de Madá, vendedor de cocos; dona Elza, proprietária da pensão; seu Domingos, o guia na visita ao Parque de Canudos, e seu Ozébio, elemento decisivo da trama, aquele que faz a ligação do passado com o presente. Mais do que isto: é através dos seus depoimentos e do seu testemunho que o narrador confirma sua tese de que há, sim, ainda muito a se dizer sobre aqueles acontecimentos espantosos. “Entenda bem”, diz Ozébio à página 44,

“(...) o senhor me ouve, eu lhe digo, o senhor escreve, faz um livro. O senhor fica ainda mais o senhor. Daí fica importante, pega alta fama, até ganha um bom dinheiro. Possa ser. Não invejo. Até faço gosto. De hora em hora, suas melhoras. Mas, e se o senhor escreve suas idéias em cima de minhas falas? E eu, minhas prosas, meus versos, minhas palavras, tudo isso quase se apaga no seu livro. Ficam sendo só suas palavras, escritas e desenhadas em papel grã-fino, em folhas de livro caro. Se eu comprasse um livro desses, como ia fazer a feira? Então o senhor escreve, e o que conta no livro vem em seu nome. E o senhor, pessoa de bem, até me agradece no escrito. Eu vou ler, com minha pouca leitura, sem entender direito: o que o livro diz não é como eu tinha falado”.

E acrescenta:

“Então, o senhor pesquisa nossas coisas e conta tudo com outras palavras, não as da gente, mas as do seu jeito dificultoso? E nosso povo continua como antes, sem direito de falar sua fala, nem rabiscar seu próprio livro. Eu vou lhe falar, pois conheço que se sente avisado. Eu vi, tirei a mira, daí matutei: tenho certa confiança nos olhos do senhor...”

Mais do que a descoberta de novas informações e fatos, o que Ozébio propõe – e este me parece ser o ponto crucial do livro – é um redimensionamento do conflito, uma reinscrição, na perspectiva de uma outra voz: a voz esquecida do próprio sertão. A conversa com Ozébio representa, na verdade, uma segunda viagem, uma viagem dentro da viagem, através do território da memória. E é justamente neste ponto que a ficção se impõe com maior vigor sobre o registro documental e sobre as lembranças de viagem do próprio autor, perfeitamente perceptíveis ao longo do primeiro capítulo do livro.
É emblemático nesse sentido o capítulo 4, intitulado “Entrevista”, quando, tomado pelo cansaço e pelas inúmeras impressões que lhe absorvem o espírito, a partir da conversa com Ozébio e das leituras dos artigos intitulados “A nossa Vendeia”, de Euclides da Cunha, o narrador sonha um encontro, na Estação Ferroviária da Calçada, com o próprio Euclides, quando este embarcava para os sertões, onde cobriria os momentos finais da guerra. Do encontro fica apenas “um sentimento de desapontamento e comiseração” e a percepção do movimento pendular existente no íntimo do escritor. Aquele ao qual se refere o título da obra.
O pêndulo de Euclides é um romance de muitas faces, algumas bastante inspiradas, como a do Auto do Belo Monte, no capítulo 7, onde se realiza o julgamento dos principais envolvidos na tragédia de Canudos: a República e o Conselheiro. E no qual se insere o discurso feito por Rui Barbosa, quando afirmava, o eminente jurista, que “o movimento conselheirista não oferecia à República nem a mais pálida ameaça”, e que a campanha feita pela República, “desastrada e ilegal”, havia dizimado “toda uma população de brasileiros simples e trabalhadores”.


“Os mortos pululam por entre os vivos. Inclinam-se daquelas galerias, apinham-se em torno deste plenário, encostam-se às nossas cadeiras. Não se vêem, mas se ouvem e se sentem, como que se apalpam. Vêm das caatingas do Norte, dos campos devastados da guerra, das ruínas lavradas pelo fogo, dos destroços do petróleo e da dinamite. São desarmados, mulheres e crianças. Eles mostram no colo o sulco da gravata sinistra. Mutilados, eviscerados, carbonizados, eles estão dizendo: Falai por nós, Voz da Bahia, voz da justiça, voz da verdade. Falai por nós, legisladores brasileiros, que falais por vossas almas, por vossos filhos”.

Dentre os 12 livros publicados por Aleilton Fonseca, abrangendo diversos gêneros (o ensaio, o romance, o conto e a poesia), este O pêndulo de Euclides vem sendo a obra de maior repercussão desse escritor, natural de Firmino Alves, pequena cidade do interior baiano, Doutor em Literatura, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana e membro da Academia de Letras da Bahia. À sua qualidade literária acrescenta-se a importância também do ponto de vista didático: obra altamente recomendável para ser adotada em escolas e para o vestibular. Um livro que não somente renova o olhar sobre a obra magna de Euclides da Cunha, como também instiga o leitor a revisitá-la. O que é muito bom, pois, como diz Luís Antonio Cajazeira Ramos, na orelha, “Este livro vem preencher uma lacuna. A Guerra de Canudos continua. A luta do sertão ainda sangra. O sertanejo ainda é um forte. Nada está encerrado e pacificado. A escritura da guerra não está completa. Não sem antes ouvirmos o que tem a dizer Aleilton Fonseca. Não sem antes pararmos para escutar a voz que vem dos sertões”.