Carlos
Ribeiro é um dos nomes mais importantes da atual literatura baiana. Romancista
e contista, também se destaca como jornalista, crítico e ensaísta. Seu último
livro, Lunaris, publicado no ano passado, veio confirmar uma brilhante
carreira de escritor. Trata-se de um romance pequeno (ou de uma novela, se
preferirem, ou talvez um conto longo, não me envolvo na briga das classificações),
com riqueza de trama, agudas reflexões e densidade de estilo. Recorda-me,
particularmente, O chamado da noite, romance que ele lançou em 1997 e
muito me impressionou. Enfim, Lunaris é leitura obrigatória para todos
os que têm interesse em literatura de alta qualidade.
Ruy
Espinheira Filho
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LUNARIS-
FICÇÃO BAIANA EM NOVA PERSPECTIVA
Lunaris é um romance
instigante que leva o leitor a uma viagem insólita entre os mundos
da realidade e da imaginação do protagonista Alberto, que alterna
consciência e devaneio, numa demanda dos sentidos existenciais de sua
vida. Por outro lado, marca um momento importante da nova ficção baiana, pois
aponta um caminho para a saída do grande impasse em que o nosso
romance urbano se meteu, desde o clarão da obra ficcional de
Jorge Amado. O livro de Carlos Ribeiro aponta um caminho para sair da
pasmaceira, ou mesmo, do mutismo ficcional da era pós-amadiana. Para onde
foi o romance baiano? Sumiu? Com Carlos Ribeiro, pode-se reformular a pergunta:
Para onde vai o romance baiano? O escritor retoma o espaço baiano -
particularmente Salvador - com um percurso narrativo inteiramente
descolado daquela velha imagem romanesca da Bahia. O seu
narrador-protagonista vivencia a geografia de Salvador, em estado de delírio,
trazendo para dentro de seu universo interior um mundo de ruas, situações,
fatos e elocubrações inquietantes, às vezes misteriosas e enigmáticas, num
fluxo psicológico em que os sentidos dos fatos e das vivências flutuam a
depender da percepção de cada leitor. Assim, Lunaris aponta um horizonte novo para os novos
ficcionistas, insinuando a possibilidade de uma nova perspectiva para o
reflorescimento do romance baiano.
Aleilton Fonseca
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Ficcão
artística literária
Stanislaw
Lem está na epígrafe, esta coisinha que vem antes. E vem antes porque nenhuma
coisa miudinha é à toa. A epígrafe, com trechinho de Solaris, já vem trazer a
fechadura ou abertura de frestas, aquela ficção artística científica dialoga
com esta outra: Lunaris. O romance anterior, este último, de Carlos Ribeiro
recebe o título de Lunaris. Um tipo de mundo onde tudo é possível, como na
literatura. A literatura - a arte, entendamos, a arte - é a solução que
encontra a personagem principal do romance para deixar de ser concreto, objetivo,
metódico, previsível. O que era científico em Stanislaw Lem, é literário - a poesia da palavra como imagem, entendamos assim - em Carlos Ribeiro. Assim, a literatura se coloca no lugar da ciência, imprimindo um novo rumo à
sua personagem principal, que no final não embarca na demência do mundo irreal
de Solaris, mas aceita a possibilidade de navegar no rio de letra e
dúvida que corre em Lunaris. Um rio do talvez, das incertezas e das
possibilidades. Lunaris, é assim, o lugar da fantasia da palavra, o seu estado
encantatório. Há outras várias facetas em Lunaris, mas essa, a da casa da
palavra, foi a que me chamou. E eu entrei em Lunaris. Um grande escritor português,
o Abel Neves, tem um texto teatral composto de
pequenos fragmentos, cujo titulo é Além as estrelas são a nossa casa.
São pequenas situações dramáticas aonde os meteoros e planetas e suas incríveis
variantes vão invadindo a cena humana e vice-versa. Lembro do Abel, pois em
Lunaris, Carlos também faz uma morada para além as estrelas: a morada
de
uma prosa que ora é suave, ora minguante sorriso de melancia, ora
caudalosa, ora vertiginosa, cruzando a fronteira do medo e do desespero.
Este último romance de Carlos Ribeiro pode ser o seu melhor livro, e eu já
espero o próximo.
Adelice
Souza
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Meu
amigo Carlos,
De repente pois e depois de alguns dias estou aqui
escrevendo umas palavras das muitas que neste tempo visitaram meu sentimento
depois de ler seu livro. Seu livro que de maneira tão gentil chegou a mim.
Fazer uma crítica?........não cabe. Nunca cabe fazer uma crítica a uma obra.
Aqueles que o fazem, ou profissionalmente ou por outro motivo se posicionam no
lugar de "referencia da leitura". Pretendem impedir a liberdade daqueles que
com liberdade podem ler e ver. Dão conselhos, apontam "inconveniências" enfim,
são inevitavelmente arrogantes, pretensiosos ou ingênuos. Então, meu amigo, não
estou nesse lugar nem quero estar. Na nossa vida, no nosso quotidiano, muitas
vezes imperceptivelmente, nos tornamos críticos e nessa hora corremos o risco
de não sermos justos. Enfim , é apenas um intróito querendo chegar ao lugar de
meu sentimento.......
Li o livro com atenção. Não foi difícil ler com
atenção, foi fácil. E o fato de conhecer o autor penso que me deu um ponto de
vista na minha leitura. Talvez um ponto de vista privilegiado. Certamente minha
leitura seria diferente se o autor me fosse um desconhecido. E eu me pergunto
se na essência a diferença seria grande. É uma pergunta que não saberia
responder mas, que importa? É apenas um detalhe. O que vi no andamento da minha
leitura é alguém que escreveu aquelas coisas todas a partir de um lugar
privilegiado, de um lugar em que pretende ver a alma humana e o significado da
vida e passar essa experiência pro leitor. A seriedade do intelectual numa
escritura, a ética nas entrelinhas mostrando pra um rumo definido pela
conquista de uma consciência. Gostei de ler e a cada pausa dessa leitura a
minha melhor alegria foi de saber que existem pessoas que buscam no seu
pensamento e na sua vida um modo delicado de promover a alegria e muitas vezes
também a dor pela descoberta da intimidade do ser humano.
Fiquei encantado em descobrir Lunaris, esse lugar
que o personagem na sua "ingenuidade" "pensa" ser único e tão
secreto. No mundo existem milhares de "Lunaris", tantos talvez quantos homens
existem na vida. Certamente não foi apenas um aspecto da história e sim, uma
revelação. Lembro pois neste instante de tantas "viagens" a esse lugar
particular, talvez de todos os seres humanos, esse lugar tão singular em que a
única companhia real é a nossa solidão, cheia de tanta felicidade quando
apreendemos a ser só.
Que mais eu posso falar de minha leitura? Que o
senhor pode se considerar um privilegiado porque promoveu a reflexão naqueles
que leram seu livro? Cada um com sua possibilidade. Cada um sendo invadido no
seu momento com palavras, idéias e claro, com aquele ardil do escritor trazendo
assuntos de uma seriedade da alma humana, nas entrelinhas de uma história que
prende o leitor até o fim.
Um grande abraço e muito grato,
Alberto Herrera
19/11/2007
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Amigo
Carlos:
Finalmente,
encontrei o tempo que julgava necessário para ler Lunaris. Quem disse que o
carnaval não traz coisas boas? Aos carnavalescos os blocos, aos que amam ler,
os livros. Comprei alguns para a travessia desses dias de repouso, efeito
colateral e bem vindo da festa. Sempre fui um leitor constante e de muitos
livros. Às vezes, leio dois ou três ao mesmo tempo.
Talvez
não seja correto dizer ao mesmo tempo, e sim, ao tempo deles. Se a leitura de
um é realizada mais intensamente, em detrimento às dos outros, é porque, o
universo desvendado naquela particular obra, por alguma razão magnética, nos
atrai com mais força.
Algumas
pessoas acreditam na existência de mundos paralelos. Eu, não acredito, tenho
certeza. São os livros. Para mim, cada um é um universo e, a chave da sua
construção e entendimento é o símbolo mais poderoso com que podemos contar no
nosso específico mundo: a palavra.
Nesse
sentido, Lunaris é um mundo dentro de um universo e sua idéia, universal. Cada
ser humano, seja disso menos ou mais consciente, tem o seu Lunaris. É aquele
especial lugar no nosso espírito onde as idéias, os devaneios, as lembranças,
os planos e os sonhos nos permitem suportar e compor nossa realidade. E para
o
qual nos retiramos quando estamos tristes ou alegres ou simplesmente desejamos
examinar a vida.
Um
sociólogo mexicano, Ortega y Gasset, disse: Eu sou eu e as minhas
circunstâncias. Quem, dentre nós, em algum momento, não desejou, para o seu viver,
outras circunstâncias? Para mim, Lunaris pode ser isso. Um universo paralelo
onde podemos viver e contracenar com outros personagens construídos pelo nosso
imaginário e pelos arquétipos presentes na vida. E onde podemos brincar com a
fantasia. Mas sempre conscientes que aquele é um lugar para momentos especiais.
Um porto. Um lugar de refúgio. Mas não destinado à fuga.
Como
disse antes, sou um leitor ávido. Esperei ter tempo suficiente para ler
Lunaris, pois não desejava saboreá-lo como um gourmand e sim como um gourmet.
A razão disso? Como dito, já li milhares de livros. Nunca antes um onde detenho
a amizade e mesmo alguma intimidade com o autor. Esse fato trouxe-me alguma
inquietação. E se eu não gostar, pensava eu. E se o livro não me atrair? Como
dizer isso a Carlos? Como já dei a transparecer, tenho uma teoria de que os
livros e as pessoas são magnetos. Às vezes se atraem. Às vezes se repelem.
Quantas vezes entrei numa livraria e sem conhecer o autor ou o conteúdo, fui
atraído por um livro de modo instintivo e o adquiri. Poucas vezes me
decepcionei.
Posso
então dizer-lhe que Lunaris tem capacidade de atração. E é um prazer ler uma
obra quando conhecemos algo da vida do autor e podemos discernir, aqui e ali,
alguns traços de sua biografia e de suas inquietações. E também, nas
entrelinhas, a contenção, o medo de, sendo muito óbvio, revelar mais de si, que
o pretendido. Apesar de Alberto afirmar ter "alguma habilidade na arte de
mascarar informações, colocar pistas falsas".
E
por falar em entrelinhas, elas devem estar presente nas obras que pretendam
possuir qualidade literária. O autor, como diz Alberto deve estar ciente "de
que guarda um segredo na manga". Eu também me dou ao luxo de imaginar que tenho
a minha carta na manga. A de, em algum nível, saber ler nas entrelinhas. E de
vez em quando, utilizá-la.
Um
abraço do amigo
Mario
Galrão
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Caro
profº Carlos Ribeiro,
hoje
terminei de fazer a leitura de Lunaris. Levei três dias lendo e achei o
romance fantástico. A história é envolvente e fascinante que nos prende
até as últimas palavras do último "capítulo".
Fiquei
muito pensativo com o desfecho da narrativa, pois considero que no finalzinho
o
personagem dá um salto na história e vem parar numa situação comovente, num
labirinto sem fim e que nos deixa angustiado. Não sei se esse foi um dos seus
objetivos, mas lhe confesso que foi assim que me senti.
Percebi
as críticas feitas, talvez nas entrelinhes, à sociedade. "Compreendi"
o psicológico e a luta incessante de Alberto, mas juro que não pretendo ser um
dia Alberto... (risos). Apesar de muitas vezes, no decorrer da leitura, e
talvez esse o meu medo, me comparei a ele e achei em nós pontos em comum,
principalmente em relação às idéias que transcende o eu. Um susto!
Então...
têm poucos minutos que terminei de ler e juro ter ficado um pouco perplexo.
Realmente a história me envolveu e me deixou pensativo.
Qual
o intuito afinal de Alberto? Quem é Alberto? Também um habitante de Lunaris?
Onde fica Lunaris? O que seria essa tsunami? Quem seria Beatriz? E os
leões? ...???
Pretendo
emprestar Lunaris para parentes e amigos, pois o achei ótimo e vejo a
necessidade de repassá-lo na busca das diversas interpretações que nos são
concedidas ao "finalizar" (se é que posso dizer que teve um fim). Talvez essa
dúvida, que para mim têm várias interpretações, fique tão nítida quanto se
Capitu traiu ou não Bentinho... (risos)
Abraço,
do
aluno e amigo
Elton
Vitor Coutinho
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Lunaris
foi um presente incrível! Lê-lo foi um prazer maior que o que normalmente extraio
de leituras outras. Confundia-me às vezes por não saber se Alberto era um
personagem ou alguém que conheço muito bem.
(...)
O livro do senhor veio às minhas mãos justo num momento em que eu
levava a cabo a morte de alguns de mim, ou melhor, quando a morte era eminente
depois da decisão, não muito consciente - a consciência veio com as horas de burracheira
e com os exemplos e palavras que dos mestres do Serenita eu recebia - de que
deveria ser um. E Lunaris foi como um amigo me instruindo, um mestre me guiando.
Não quero classificar Lunaris de literatura de auto-ajuda - nem tenho
autoridade para classificá-lo de forma alguma -, mas no meu caso, não posso
negar que o livro me ajudou muitíssimo. Se não fosse pelo fato de o Senhor não
me conhecer no momento que escreveu o livro, eu, com a licença da pretensão,
diria que foi escrito para mim.
Não vou narrar todas as coincidências que me levaram a admitir que a leitura de
Lunaris foi uma experiência quase que transcendental, mas vou contar sim que o
tema do livro e os dilemas de Alberto são os que carrego comigo desde há muito -
o que deve ter sentido muitos dos leitores do livro. Vou contar também que
antes de terminar o livro, na noite que antecedeu a leitura das últimas
páginas, sonhei com uma onda grande que vinha do mar e engolia umas pessoas
numa praia onde eu assistia a tudo num misto de choque e paz, ao amanhecer, e
ao final do livro, "reencontro" uma onda que fazia desaparecer e
aparecer gente, no livro. Outra coincidência: dias antes de começar a ler
Lunaris, escrevi um texto em que a lua era o símbolo da resistência, que ainda
sentia em mim, contra ter que "matar" quem esteve comigo tanto tempo,
contra ter que ser um, ter de ser melhor. Tudo isso, essas
"evoluções", são processos doloridos e solitários, por isso, a
companhia de literaturas como Lunaris é algo muito bem vindo. Ao menos foi para
mim, e, acredito, foi e será para um montão de gente.
Eu li o livro no domingo e na segunda, depois de ganhá-lo, no
sábado, de suas mãos, e se não escrevi antes para lhe dizer o que lhe digo
agora, foi por estar muito ocupado na morte de um de mim, o que foi concluído
ontem à noite. Obrigado. Ah, adorei o final, a nova mulher que surge sem deixar
claro se era outra ou se era os olhos de Alberto que, agora, enxergavam melhor
a beleza da mesma mulher que sempre esteve ao seu lado. Muito Legal! Parabéns.
Carlos
Vianna Júnior