UMA SALVADOR SEM FAROFA E SEM DENDÊ
Antônio Torres
(Conferência proferida na Fundação Casa de
Jorge Amado, em 15 de maio de 2003, na abertura do curso A
cidade de Salvador na literatura).
Situação geográfica privilegiada. Topografia
acidentada. Uma história que começa nos anos 500
e segue pelas ruas - nas ruas que ainda mantêm as marcas
da sua origem. 365 igrejas, uma para cada dia do ano. O passado
europeu. Sincretismo religioso. O presente africano. Sacra e profana.
Festeira o ano inteiro. Popular e erudita. Usos e costumes peculiares.
Sete cores em sua cor. E todos os seus caminhos dão no
mar.
Foi com imagens assim, tipo exportação, que Salvador
se tornou uma das cidades mais sedutoras do planeta.
Sim, não há como negar que ela tem sido uma fonte
inesgotável de inspiração para poetas, prosadores,
pintores, escultores, dramaturgos, cineastas, compositores. Teve
um até que fez uma das músicas mais tocadas e cantadas
do país, sem nunca ter posto os pés aqui, ao que
dizem. Trata-se do mineiro Ari Barroso, o autor de Na Baixa do
Sapateiro. Quem não se lembra?
Na literatura, a sua imagem está indissoluvelmente ligada
aos cenários e à galeria de tipos humanos criados
por Jorge Amado, que tanto encantaram o mundo, como sabemos todos.
Jorge Amado! Aquele que fez do regional, nacional. E do particular,
universal. Quem não sabe?
Mas, na contemporaneidade, quais são os seus pintores?
E como os novos ficcionistas baianos estão pintando e bordando
esta cidade?
Ora, é possível que, quando a maioria deles nasceu,
Salvador já não era mais a doce província
do tempo dos seus pais, aqueles que andavam de bonde sem maiores
atropelos. Quando se deram por gente, perceberam que eram pedestres
cheios de temor em meio a "uma realidade de violência
ameaçada pelo caos," para usar uma expressão
do nosso Hélio Pólvora sobre o Brasil das últimas
décadas. Sua explosão demográfica instaura
a instabilidade no percurso de seus habitantes, provoca o redesenhamento
da urbe, amplifica o desnivelamento social, cria novas tensões,
tudo a se refletir nas cores com que os pintores irão esboçar
os seus quadros. Há algo de novo na paisagem. Se a moldura
da cidade continua reconhecível, o que está dentro
dela terá que ser visto com outros olhos.
Vocês poderão contra-argumentar que este palestrante
não mora aqui e portanto não sabe o que está
dizendo.
Antes de continuarmos, é bom deixar claro que o exposto
acima é o resultado de impressões de leitura das
reileituras da cidade através do olhar de seus escritores,
na atualidade. E também que não pretendemos estabelecer
um confronto entre o que se escreveu no passado, tendo Salvador
como cenário, e os textos dos contemporâneos. Não
se trata de comparação ou juízo de valor.
A literatura que antecede à que iremos destacar tornou-se
patrimônio da cidade e do país. A que prossegue,
ainda está em processo. Se terá progresso, só
o futuro poderá responder.
O presente, porém, indica que as novas pulsações
da cidade estão sendo captadas, por exemplo, pela prosa
de um autor como Ildásio Tavares. Por uma questão
de ajuste ao seu argumento, porém, este palestrante tecerá
algumas considerações em torno de um ficcionista
mais novo do que Ildásio Tavares e ele próprio,
o Aramis Ribeiro Costa, e dos novíssimos Carlos Ribeiro
e Jean Wyllys.
Comecemos por Aramis Ribeiro Costa, que descreve à perfeição
o que Salvador representa no imaginário do próprio
estado da Bahia, ou seja, qual é a sua imagem para consumo
interno, em A história de Joselita, a segunda novela do
seu livro O fogo dos infernos, publicado em 2002 pela Editora
Iluminuras, de São Paulo. É um caso exemplar.
Vejamos:
"Joselita só não era igual às outras
meninas da roça porque tinha um sonho: morar na Bahia.
A Bahia, para ela, era a cidade grande das compridas avenidas,
dos largos e das ladeiras, dos bondes, dos ônibus, dos lotações
e dos automóveis, dos elegantes magazines, do Elevador
Lacerda, dos cinemas e da Rua Chile. Era a cidade das festas de
largo, do Carnaval dos carros alegóricos, dos homens ricos
e bonitos que podiam gostar dela. Era a capital. Salvador. Mas
que, para Joselita e os da roça, a perdida rocinha entranhada
nos matos, perto de Saubara, era a Bahia."
Esta história, que começa com o sonho de Cinderela
de uma pobrezinha tabaroa, termina de forma cruel.
Foram as imagens sedutoras da festeira, consumista, divertida,
rica, civilizada Salvador que fizeram a interiorana Joselita sonhar
em mudar de vida, desde o dia em que uma boa senhora mostrou uns
postais da cidade para a menina franzina vendedora de legumes
e verduras. Por um golpe da sorte, aquela santa senhora iria receber
uma carta de uma sobrinha que morava na capital, pedindo-lhe uma
babá. Pronto, estava selado o destino de Joselita, que
iria embarcar na sua "viagem inventada no feliz," como
o menino do conto de João Guimarães Rosa, As margens
da alegria. Afinal, ela estava realizando o maior dos seus desejos:
trocar a solidão da roça pela animação
da cidade grande. O que ela ainda não sabia: que estava
trocando um mundo de feições reconhecíveis
por um outro, no qual seria apenas mais um rosto na multidão.
Na capital, Joselita verá o seu sonho se transformar em
pesadelo. Pior: chafurdará nas profundas de um inferno
que a levará à loucura. Não lhes contarei
o final. É trágico mesmo. E de altíssima
voltagem literária.
Já nas primeiras linhas desta novela de Aramis Ribeiro
Costa o leitor aqui se reviu, lá na roça onde nasceu.
Na verdade, primeiro ouviu ao longe a voz do seu pai, que sempre
acordava cantando, no caminho entre o seu quarto e a cozinha,
onde começava o seu dia fazendo um café, antes de
ir tirar o leite das vacas, no curral bem ao lado da casa. Uma
das músicas que ele gostava de cantar começava assim:
"Bahia,
quem pintou tua aquarela,
eu vi farofa amarela,
vatapá e cangerê..."
A novela do Aramis fez também com que este leitor se lembrasse
das tantas vezes em que o seu pai lhe contava e recontava a história
de uma epopéica viagem à Bahia, para pagar uma promessa
ao Senhor do Bonfim: sete léguas a cavalo do povoado do
Junco até a sede do município, a cidade de Inhambupe;
a longa espera por um transporte motorizado de Inhambupe para
Alagoinhas; o trem de Alagoinhas para Salvador, onde quis apenas
achar a igreja do Bonfim, entrar nela tirando o chapéu,
se ajoelhar, rezar e ir embora. Com a vagareza dos transportes
e o tempo perdido nas baldeações, levou sete dias
para vir e voltar. Contando o seguinte:
- De sete em sete léguas cheguei lá. E vi que a
cidade tem sete léguas de ruas. É tão grande
que é como ir daqui a Inhambupe. Lá, é como
na guerra, onde filho chora e pai não vê.
O filho dele iria vê-la pela primeira vez aos 15 anos, trazido
por um tio. Vieram num trem tão bonito que todos chamavam
de Marta Rocha. Saltaram na estação da Calçada,
pegaram um ônibus para a praça Cayru, subiram para
a Cidade Alta pelo Elevador Lacerda, depois entraram num lotação
e saltaram no Farol da Barra, cara a cara com o mar. Imagine o
deslumbramento. Era uma tarde de sereias ao sol. O rapazola interiorano
já não sabia o que mais o estonteava: se a imensidão
das águas com suas ondas de espumas flutuantes, a luminosidade
às vezes azulada, às vezes esverdeada, de franzir
os olhos, ou a esplêndida visão de uma beldade em
trajes sumários. Era como se acabasse de adentrar o paraíso.
E lá estava Eva, quase como viera ao mundo. Um pouquinho
mais recatada, talvez por temor de um novo castigo de Deus. Ainda
assim, aos olhos de um capiau, aquela Eva de maiô era de
provocar desmaios.
E a partir de então, como a Joselita da história
de Aramis Ribeiro Costa, ele passaria a sonhar em viver na capital.
Onde só aos dezenove anos viria a morar. Instalou-se num
cubículo da rua João de Deus, a dois ou três
passos do Terreiro de Jesus. O prédio tinha uma plaquinha
na porta: "Família." Em frente dele, havia um
cabaré com uma vitrola que toda noite tocava a música
da Dolores Sierra, a que havia nascido na roça e sonhava
em viver na cidade e agora morava em Barcelona, na beira do cais.
Ele também, o rapazola interiorano recém-chegado
à capital, foi parar na beira do cais. Mas como repórter
de setor do Jornal da Bahia. Quis a sorte que o seu destino fosse
diferente do das Joselitas e Dolores Sierras. E chega de reminiscências.
Bahia: olha só como o contista Carlos Ribeiro está
pintando a tua aquarela:
"Dez horas da noite. Marcos espera o ônibus no ponto
próximo ao Clube do Bahia, na Boca do Rio. Horário
ruim aquele para Marcos esperar o ônibus. Você sabe,
Salvador não é mais aquela cidadezinha provinciana
dos anos 60/70. Somente no último final de semana, nada
mais, nada menos que 12 coletivos foram assaltados. Em um deles,
o cobrador foi morto com um tiro na cara. Em outro, um tiroteio
entre os assaltantes e um policial civil resultou em 7 pessoas
feridas, incluindo um bebê e uma anciã que saltou
do veículo em movimento, quebrando as duas pernas e sofrendo
rachaduras na bacia. Outra mulher, mais gorda, ficou entalada
na janela e só pôde ser libertada cinco horas mais
tarde, graças à ajuda de um maçarico.
Só rindo, pensa Marcos. O diabo é que, em muitas
dessas tragédias cotidianas, há quase sempre uma
nota humorística que torna a coisa toda inverossímil:
anciãos que encontram forças para saltar de um ônibus
em movimento, maridos que fogem às pressas deixando mulheres
e filhos para trás, gente correndo para um lado, gente
gritando para o outro, uns se espremendo em janelas, outros se
esbarrando em cercas, outros ainda metendo os pés em poças
de lama. Só rindo."
Isto é só o começo de um conto intitulado
O assalto, esquete noturno de uma Salvador em bad trip, no sentido
literal da expressão. Está no livro O visitante
noturno, publicado em 2000 pela Empresa Gráfica da Bahia.
Já pelo título podemos prever que essa não
será uma história de fritar bolinhos. Aqui são
os passageiros dos ônibus urbanos, em trânsito ou
parados nos pontos, que são fritados. Como um cego no meio
do tiroteio, um deles, chamado Marcos, chega a ter vontade de
rir, diante da violência banalizada, que o deixa à
beira da imbecilização.
Vencedor, em 1988, do concurso de contos da Academia de Letras
da Bahia, Carlos Ribeiro é um dos mais talentosos representantes
da geração 90, marcadamente de contistas. A maior
concentração de nomes dessa geração
parece estar em São Paulo. Entre o baiano que escreveu
O assalto e o paulista Marçal Aquino, autor do livro Faroestes
e do roteiro do filme O invasor, há algo em comum: a visão
das suas cidades sem utopias. O personagem de Carlos Ribeiro pensa
nos políticos como "um monte de bosta, que não
faz nada de concreto para melhorar a vida do povo." E pensa
em si mesmo "como um pária." E assim marcha a
cidade na literatura: dominada pela demagogia e a corrupção,
ela vai, cada vez mais, entregando os seus cidadãos à
própria sorte. E nisso Salvador não está
sozinha, dirão os personagens do Rio, de Recife, de Belo
Horizonte etc.
São Salvador da Bahia: se não gostou do duro retrato
que Carlos Ribeiro fez de você, aguarde o próximo
capítulo. E vá desviando os seus olhos dengosos
que aí vem o aflito Jean Wyllys.
Não esperneie, não, nega. O escritor escreve o que
vê, o que sente, o que percebe, sabe disso, não sabe?
Entonces, encoste a sua cabecinha no meu ombro que eu vou lhe
contar um causo que me contou esse menino de Alagoinhas de nome
meio francês e meio inglês ou holandês, sei
lá. Jean Wyllys, veja vosmecê. Très chic!
O título do conto dele é: Caça e caçador.
É do seu livro Aflitos, um dos vencedores do Prêmio
Copene de Cultura e Arte - Literatura, de 2001, e publicado pela
Editora Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge
Amado.
Vamos lá:
"As luzes de vapor de sódio e os prédios cinzas
da Avenida Sete deslizavam sobre o pára-brisa do carro.
Da janela, Miguel observava cada esquina ou poste. Poucas pessoas
transitavam e havia alguns miseráveis nas calçadas.
Já era a terceira vez que ele passava pelo local, depois
de ter contornado o edifício Sulacap e subido pela Carlos
Gomes, à procura de alguma companhia. Na altura do Palácio
da Aclimação, só havia os travestis - aquelas
criaturas vivas, que costumam colorir a noite com sua arte radical.
Mas, próximo à Praça da Piedade, apareciam,
de vez em quando, alguns garotos de programa - meninos da periferia
que, não raro, prostituíam-se por um jantar. "Com
um pouco de paciência," pensava Miguel, "consigo
um interessante."
Depois de mais duas voltas, ele encontrou alguém que correspondia
aos seus sonhos. Parou o carro e perguntou: "E aí,
tá na batalha?" O garoto - branco e bonito, apesar
do vísivil maltrato - consentiu com a cabeça. Miguel
abriu a porta do carro e ele entrou. "Ponha o cinto. Como
você se chama?" "Gabriel," respondeu o garoto.
"Nós temos nomes de anjos. Você acredita em
anjos?" Gabriel contou que fora assim batizado porque sua
mãe sonhara com um anjo de asa quebrada, afogando em um
mar de sangue. Miguel olhou, por alguns segundos, as águas
escuras da Baía de Todos os Santos, vigiadas pelas luzes
solitárias das embarcações, e disse "É
um sonho triste."
Quando chegaram em casa, Miguel pediu a Gabriel que se abaixasse,
pois não queria chamar a atenção do porteiro.
A garagem estava silenciosa. Subiram pelo elevador de serviço.
Ao entrar em casa, a primeira coisa que Gabriel fez foi comer
um pedaço de bolo que estava sobre a mesa. "Calma,
você vai ter tempo para comer o que você quiser. Antes,
vamos ao serviço." Dirigiram-se para o quarto. Gabriel
prestava atenção nos móveis, eletrodomésticos,
nos quadros... Nunca vira apartamento tão bonito. Miguel
ligou o som de cabeceira. A música Menino Deus, de Caetano
Veloso, encheu o aposento. Em seguida, começou a se despir.
Só depois de tirar toda a roupa, foi que ele percebeu que
Gabriel empunhava uma faca de lâmina larga. "Quieto.
Não grite. Eu não vou lhe matar. Só quero
a sua grana, o relógio e os Cds.," sussurrou. Miguel,
com as mãos para cima, tentava articular algumas palavras
enquanto se aproximava do criado-mudo. "Não se meta
a besta, desgraçado, senão eu ranco suas tripas
fora," ameaçou. Miguel abaixou-se para abrir a gaveta,
no momento em que Gabriel avançou sobre ele com a faca
em posição de ataque. Seis estampidos abafados pelo
silenciador interrompeu, em frações de segundo,
a melodia da canção. Semi-abertos, os olhos de Gabriel
refletiram a face pálida de Miguel, ao passo que seu corpo
parecia mergulhar num mar de sangue."
Está contado o conto de Jean Wyllys, um que anda por aí
como um repórter da vida, a espreitar as zonas de sombra,
onde a solidão faz esquina com a violência, e por
onde perambulam peregrinos urbanos de almas aflitas, mendigantes
do amor mal soletrado, no lado avesso da cidade que, nos impasses
de sua caótica pós-modernidade, já não
nos oferece uma aquarela, mas um laboratório de experiências
humanas perturbadoras que, pelo visto, estão engendrando
uma nova literatura baiana. Que pode ser tão infernalmente
cruel e tão assustadoramente violenta quanto a realidade
que nos cerca. Mas, com certeza, é de alta qualidade.
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