RUMO AO ABISMO DA ALMA
Suênio Campos de Lucena
Rascunho
nº 49
Maio de 2004
Somos pouco
informados sobre a infância e o passado do protagonista
de Abismo, novo romance do baiano Carlos Ribeiro. Sem nome e
“após largar tudo”, ele decide visitar seus
tios, que moram em Itaimbezinho, (próximo da Praia Grande
e Aparados da Serra, entre o sul de Santa Catarina e Rio Grande
do Sul), região conhecida pelos seus cânions. Dias
depois, ele recebe uma carta de Ricardo, professor, antropólogo,
historiador e colecionador que mora nas redondezas e que conhece
seus artigos de jornal, pedindo para lhe visitar. Durante a
visita, surge o convite inesperado - para ele descer (sozinho)
o cânion, a fim de atender a um “chamado”,
encontrar o Santo Graal: “O vaso sagrado em que Jesus
bebeu e consagrou o vinho na última ceia e que depois,
José de Arimatéia usou para recolher o sangue
do seu corpo crucificado, após o ferimento pela lança
de um centurião romano.”
A princípio,
ele reage negativamente, sobretudo perante à idéia
de o cálice estar na fronteira entre o Brasil e a Argentina,
mas serão precisos poucos dias para ele viver a aventura:
“Através dos Chumashs, alguns frades franciscanos
teriam tido contato com o Graal, sem, no entanto, o reconhecerem
ou tomarem conhecimento do seu poder. Após um dos inúmeros
choques armados entre os índios e os aventureiros brancos,
os frades conseguiram escapar e levaram consigo o cálice
sagrado. Não se sabe exatamente como ele teria sido transportado,
de missão em missão, até vir parar na Banda
Oriental, na fronteira indefinida do Brasil com a Argentina”.
A descida ao cânion vai se transformar numa dupla jornada,
uma vez que ela vai se confundir com a “descida”
ao abismo da sua alma.
O “herói”
de Carlos Ribeiro personifica, na verdade, a figura do anti-herói,
que representa o homem moderno, atormentado e oprimido por vacilações
e questionamentos, movido não mais por uma convicção
e crença inabaláveis, mas pela própria
fragilidade, por seus anseios e crises interiores. Ao longo
de todo o livro, o personagem reage de forma vacilante, reticente,
repleto de dúvidas e medos. O personagem não vive
mais numa era de certezas, de bravura, de um tempo com histórias
em que tínhamos a figura do herói estóico,
do bravo guerreiro (os filmes bíblicos, vide Ben Hur,
são pródigos nesse tipo que, hoje, beiram a caricatura),
mas sim um tempo de questionamento contínuo sobre tudo
e, principalmente, sobre ele mesmo. Essa é, aliás,
uma das principais características que dão ao
livro uma formatação mais contemporânea
e inovadora, isto porque seu personagem é movido por
seus titubeios. Com isso, ou por causa disso, ele vai se sentir
impelido a descer o cânion. A sua resistência deve-se
em parte a ele perceber que quanto mais descer o cânion
mais estará provando de seus medos e inseguranças.
A aventura da sua descida está, assim, diretamente ligada
a sua busca por respostas, por uma vida mais plena, livre e
digna, associada ao respeito à natureza. Enquanto desce
o cânion, ele vai viver também uma descida radical,
capaz de levá-lo a sonhos, delírios e reflexões.
Assim, o personagem vai descer não por estar movido por
um sentimento estóico, mas pela sua sede de autoconhecimento
e descoberta, para ele algo decisivo. Ou seja: Ao descer, ele
sabe que o abismo profundo é, na verdade, o abismo da
sua alma, em parte impenetrável, indecifrável,
mas que o força pela sua ânsia de respostas, algo
além de uma mera aventura física.
Bem escrito,
o romance pode até ser associado à inesgotável
literatura esotérica, “onda” que assola nosso
mercado editorial e que disputa com a chamada auto-ajuda, com
os sucessos espíritas (vide Zíbia Gaspareto) e
com confissões (vide Lya Luft), as prateleiras de nossas
livrarias e as listas dos livros mais vendidos, mas ele vai
muito além. A associação não é
válida porque esta não é a tônica
do livro: Em nenhum momento o personagem aconselha, serve de
guia ou de modelo. De qualquer forma, sua busca está
colada a visões, sonhos e reflexões, a uma “verdade”
que não dispensa “o chamado”, a magia: “E
se aquele companheiro, que agora se insinuava para o interior
do círculo mágico da minha experiência,
tivesse sido enviado pelos deuses para me defender de algum
perigo terrível, lá onde ninguém poderia
ouvir os meus gritos? Eu sabia que, naquelas circunstâncias,
era fundamental que eu soubesse interpretar os sinais enviados
pelo cosmos.”
Mas Abismo
alça vôo muito além da chamada literatura
esotérica porque a busca do protagonista destoa completamente
dos bons (!) livros do ramo. Aliás, essa crença/busca
que persegue e atormenta o personagem, apesar de também
mística, está mais ligada à razão
e às dúvidas que o protagonista carrega consigo
no momento em que desce o cânion. Essa “busca mística”,
que sua razão não consegue provar, surgem como
“provações” e são, justamente,
o diferencial do seu livro, senão poderia ser confundido
com mais um relato de um jovem que segue uma trilha à
cata de aventura. No livro, essa trilha se confunde com a sua
vida: Ao passo em que desce o cânion, o personagem se
vê às voltas com seus questionamentos, seus anseios,
fantasmas reais e imaginários. Essa é a principal
dualidade, o conflito central que move a história. Ao
descer o abismo real, físico, ele vai percorrer este
fio da navalha por se deparar com seu próprio abismo,
este talvez ainda mais misterioso e perigoso.
Mas a sua
busca se é “mística” é, antes,
existencial, sendo, portanto, distante d’O Alquimista,
de Paulo Coelho (a comparação pode surgir talvez
devido à caminhada que o personagem neste livro faz a
Santiago de Compostela). Como toda obra de ficção,
o livro não assume em nenhum momento a pretensão,
repito, de aconselhamento, de ajuda e de exemplo a ser seguido,
tema, aliás, criticado pelo narrador: “As livrarias
estão cheias de livros sobre tiros de iniciação,
práticas esotéricas e magia ritual. Na sua maior
parte, subliteratura, ou, como o senhor disse: lixo. Uma maneira
bastante eficiente de se enriquecer à custa do vasto
mercado da credulidade e da ignorância”.
Assim, preferimos
ver Abismo como um road-book, decerto sem dispensar a “busca
interior” que o protagonista realiza. A preferência
por essa leitura vem de o cânion estar bem descrito, narrado
por alguém que decide enfrentar e ao mesmo tempo procura
se harmonizar com a natureza e dela tirar respostas. O teor
de aventura se destaca devido a essas descrições,
que são cruciais: “eu podia ver o planalto verdejante
que se inclinava para baixo, até um ponto onde irrompia
um paredão majestoso de basalto negro. Uma trilha ainda
menos definida do que o caminho que me trouxera até aqui
contornava o maciço de rocha negra e desaparecia em seguida
no meio das árvores que já começavam a
se fechar numa densa mata.” Bem como: “Construí
minha fogueira com pedras, folhas, gravetos e galhos secos,
acendi-a e deixei-me ficar observando as chamas e sentindo-a
como um fogo de renovação. Labaredas luminosas
faziam dançar as sombras do barranco de pedra ao lado
da barraca”.
Conforme
o pressuposto de que literatura é, essencialmente, experiência,
vê-se que este livro só poderia ser escrito por
alguém que conhece bem o assunto, tal é a riqueza
de detalhes com que o autor descreve as imagens. Apesar de carregado
de simbolismo (terra prometida etc.), há belas “imagens”
e descrições ambientais, como plantas, bichos,
insetos, com uma história povoada de lendas, que vão
do misticismo ao sobrenatural, da História à religião,
da mitologia a remissões pessoais, material, inclusive,
que nos fornece pistas sobre a vida, amigos e trabalho do próprio
autor, ligado à cobertura jornalística de meio
ambiente, o que nos leva a ver seu protagonista também
como um provável alter-ego seu, que deve ter vivido experiência
similar.
O estilo
faz o homem e Carlos Ribeiro sabe disso. Aos 45 anos, jornalista,
escritor, professor universitário e mestre em literatura,
é autor de livros como O Visitante Noturno (2000), além
de ter participado do livro Geração 90: Manuscritos
de Computador, organizado por Nelson de Oliveira. Com Abismo
ele prova que domina o seu ofício e que sabe descrever
com precisão os meandros e desvãos porque passa
seu personagem.
Suênio
Campos de Lucena é jornalista e escritor