PERSONAGEM
E URBANIDADE PROBLEMÁTICOS
Rinaldo
de Fernandes
Alberto,
um professor universitário de Literatura Brasileira,
aspirante a escritor, 43 anos, casado com Judite, é o
protagonista desta história. Em épocas passadas,
sempre se viu “em defesa de alguma causa”, sempre
procurou participar de “movimentos sociais, ecológicos,
políticos, comunitários”. No presente, porém,
está inseguro, cheio de incertezas quanto a valores como
Honestidade, Ética e Fraternidade. Diante do cinismo
político contemporâneo, reconhecendo o vazio das
relações humanas, rejeita a sociedade e seu apetite
pelo consumo. O mundo atual o desagrega, divide. Numa palavra,
alucina-o.
Esquizofrenia? Paranóia? Pesadelo? O protagonista da
narrativa vive numa espécie de fronteira psicológica,
projetando a fantasia na realidade de tal forma que, não
raro, o leitor pensa ter incorporado o seu desvario.
Capítulos breves, dinâmicos. Prosa coloquial, que
tem um parentesco com a dos jornalistas-escritores do entreguerras:
John Steinbeck, Sinclair Lewis, Hemingway, John dos Passos,
entre outros. Carlos Ribeiro, que, além de professor
universitário, prossegue atuando no jornalismo, é
um escritor preparado, maneja muito bem o material ficcional.
Recorre a recursos como a alusão e a citação
para montar o quadro de referências culturais de seu personagem,
um intelectual em crise, que, embora busque nas leituras elementos
para compreender a sua condição, não escapa
ao tipo que procura afirmação reportando-se a
grandes autores e obras (e aqui reside uma sutil crítica
do escritor à rarefação desse intelectual).
São autores aludidos ou citados, nos diálogos
do protagonista com seus interlocutores: Herman Hesse, Byron,
Baudelaire, Edgar Allan Poe, Rimbaud, Fitzgerald, Hemingway,
Pasolini, Kerouac, Bukowski, Melville, Milton Santos, etc.
Ribeiro aposta na vertente existencialista – e sua narrativa,
mesmo com as constantes introspecções do personagem,
é comunicativa.
Um mistério envolve a existência do professor Alberto
– um lugar. Anota o narrador: “Esse lugar –
que chamava de Lunaris, numa referência ao romance Solaris,
de Stanislaw Lem – era uma forma especial de pensar. E
de sentir”. De pensar e de sentir, inicialmente, com prazer.
Mas depois com perturbação, embaraço, estorvo.
Lunaris, assim, é uma ilusão. Ou um recurso metaficcional,
pois se trata, de fato, de uma ficção dentro da
ficção. Poderá ainda ser visto como uma
dimensão criativa do imaginário, um espaço
mais dionisíaco num mundo excessivamente apolíneo.
Em certos momentos, pensamos estar diante de uma narrativa fantástica;
em outros, no interior do mais corriqueiro dos enredos psicológicos.
Às vezes acreditamos estar lendo um relato policial;
depois apostamos ser uma paródia aos livros de mistério
e suspense, com seus clichês costumeiros. É nessa
indefinição de gênero onde reside um dos
aspectos mais ricos do texto de Carlos Ribeiro.
Tudo se passa numa Salvador contemporânea. Uma cidade
caótica, barulhenta, ameaçada pela especulação
imobiliária: “Um sem-número de residências
e condomínios foram implantados, de forma desordenada,
sobre extensas áreas de dunas”. O protagonista
já flanou por vários pontos da cidade, fazendo
questão de indicar “os casarões centenários
do Centro Histórico, as casas comerciais da Baixa dos
Sapateiros, com seus vendedores e suas calçadas apinhadas
de pedestres, as avenidas ensolaradas da Orla Marítima,
com suas casas iluminadas pelo sol da tarde, o labirinto de
vielas e becos dos bairros periféricos...”. Embora,
aqui e ali, numa ou outra descrição, desponte
a poesia da cidade, a Salvador de Carlos Ribeiro é agônica,
atormentada – e não aquela das imagens televisivas
do carnaval. Paisagem retorcida como é retorcida a alma
de Alberto. Sem dúvida, uma forma inteligente de o autor
tratar dessa grande cidade, que, como outras da América
Latina, e para lembrar as boas palavras de Antonio Candido,
sofreu uma “urbanização perversa”
desde pelo menos meados do séc. XX. A urbanidade problemática,
assim, atinge o protagonista de Carlos Ribeiro.
Carlos Ribeiro tem surpreendido pela qualidade de seus contos,
que já integraram várias coletâneas nacionais.
Também já publicou dois romances. Agora, com este
novo livro, abre muitas possibilidades em seu roteiro ficcional.
Lunaris é dotado dos mais variados recursos da ficção
recente – e o seu problemático personagem é
muito atual. Um personagem que, acredito, irá agradar
bastante – e também inquietar – o leitor.
(Texto
de apresentação do livro Lunaris)