MAGIA LITERÁRIA
Em
“Abismo”, o romancista Carlos Ribeiro narra com
simplicidade
Fatos complexos do coração humano, em busca do
sentido da vida
JANAÍNA CUNHA MELO
Estado de Minas
09/05/2004
Entre
a fantasia e a realidade, tudo se confunde e se aclara quando
há uma meta a cumprir, um sonho a realizar, um compromisso
com a própria alma de conquistar o horizonte de infinitas
possibilidades. Entre o sim e o não, o desfecho da dualidade
não é o que mais importa, mas o caminho que leva
à busca incansável de perguntas renovadas como
resposta, ao querer sempre um pouco mais. Neste ambiente que
confronta desatino e racionalidade, o mais descabido devaneio
encontra forma, porque mais vale um conto, um desejo, um desafio,
que as certezas débeis que o cotidiano oferece.
Esse é o contexto mágico de Abismo, romance que
o jornalista, ficcionista e mestre em literatura pela Universidade
Federal da Bahia Carlos Ribeiro faz chegar ao público
pela Geração Editorial. O livro parte de um cenário
imaginário para tratar de conflitos próprios da
contemporaneidade. Era do vazio, segundo Lipovetski, dos grandes
dilemas existenciais, onde tudo que é sólido desmancha
no ar, como prefere Marshall Berman. Tempo de incertezas em
que o fato se torna delírio, a realidade é virtual
e o outro já não existe em pessoa. Imagens que
não representam. Idéias sem ressonância.
Diálogos sem interlocução.
Mas Carlos
Ribeiro não se pretende filósofo, apesar de transitar
de maneira fascinante pelo campo das idéias. Escreve
como romancista, criando seqüências lógicas,
de fácil compreensão, fazendo o leitor submergir
no dilema de um jornalista que, em pleno período de descanso,
se depara com uma proposta irrecusável de se embrenhar
por um cânion, em busca de um objeto sagrado.
A história
é narrada na primeira pessoa e apresenta a busca solitária
do protagonista, num primeiro momento por algo que se acredite,
como um projeto ou objetivo de vida. Até que ele se vê
imbuído de uma missão iminentemente espiritual.
A pedido de um enigmático professor que acaba de conhecer,
o jornalista que escrevia sobre temas insólitos é
levado a acreditar que só ele seria capaz de descer os
paredões do cânion do Itaimbezinho, no sul do Brasil,
para encontrar o Santo Graal. Essa era a sua jornada de encantamento.
Através dela, e eco de todos os seus dias perdidos. E
a redenção.
Nessa busca,
o protagonista encontra seus pares – caminhantes, feiticeiras,
espectros, demônios e um universo de riquezas que só
a natureza seria capaz de proporcionar. À medida que
ganha o centro do cânion, com suas noites profundas e
dias de aclamação da luz, ele vai deixando todos
para trás. Era essa sua missão, e nem mesmo os
medos cristalizados durante os anos lhe serviriam de companhia.
Para narrar
a trajetória do protagonista, Carlos Ribeiro apresenta
o romance em três grandes capítulos, O Chamado,
A Viagem e O Encontro. E em passos justos entrega uma narrativa
saborosa, em linguagem fluente, que envolve de maneira quase
despercebida. Não faz uso de recursos espetaculares e
lugares-comuns para tratar do tema. Ao contrário, fala
com simplicidade, de forma sensível e hábil, como
quem confessa, sem querer fazer alarde.