FUGAS DO LABIRINTO
A
Tarde Cultural – 26/4/1996
ELIESER CESAR
Na
mitologia grega, depois de matar o Minotauro, o ateniense Teseu logra
de sair do labirinto de Creta, construído por Dédalo
para servir de cárcere àquela criatura híbrida,
corpo de homem, cabeça de touro. Da Antiguidade Clássica
para cá, o mito do labirinto tem servido de inspiração
a muitos escritores, como o argentino Jorge Luís Borges. “Zeus
no podría desatar las redes de piedra que me cercam”,
diz Borges, no poema “El Laberinto”.
Também o escritor e jornalista baiano Carlos Ribeiro bebeu
na fonte inexaurível da mitologia para encontrar o título
de seu novo livro, O homem e o labirinto (Editora BDA-Bahia, 88 pp.
R$ 15). Para Carlos Ribeiro – como também para o “demiurgo”
Borges – o labirinto não representa apenas sua parte
mais palpável: a rede de pedras, o emaranhado de paredes para
aprisionar e confundir o homem. É, acima de tudo, uma metáfora
de isolamento, da solidão, da falta de comunicação
entre as pessoas, enfim da vulnerável condição
humana.
Na visão dele todas essas sensações são
impostas pelas exigências do mundo moderno e de sua inexorável
doutrina, o progresso, que desumaniza os sentimentos mais nobres e
embota as alegrias mais puras. Em seu livro (uma mistura de crônicas,
poesia e conto), Carlos Ribeiro alude aos labirintos da alma, a essa
viagem existencial que, queiramos ou não, somos todos obrigados
a empreender. Na introdução, dá a chave para
sair do labirinto: “resgatar as dimensões profundas do
espírito humano – a intuição, o sentimento
poético, a percepção mágica dos arquétipos
e dos símbolos, em equilíbrio com a razão, âncora
útil e necessária”.
Dividido em três partes, O homem e o labirinto reúne
um pouco de misticismo, nostalgia e o lirismo telúrico de um
poeta andarilho, como Walt Whitman (não é à-toa
que Carlos Ribeiro já se aventurou pela Antártida, pela
Amazônia e pela nossa Chapada Diamantina, dentre outras “caminhadas”).
Tudo isso vem acrescido da economia de palavras e do rigor estilístico
de um autor que sabe que a boa literatura é sempre elaborada
pacientemente, na solidão, sem a afobação dos
que pensam que a obra literária já nasce pronta e acabada,
como um pão saído do forno.
A primeira parte de O homem e o labirinto é na verdade um livro
de crônicas e trata, principalmente, da solidão e do
isolamento. “Mas ele é apenas um homem que anda nas ruas
desertas de seu sonho” (“Passos na Noite”). “Essa
gente – ela também avançará nas sombras
do mundo, até um dia quando se encontrará diante de
um rosto apagado” (“Entre Quatro Paredes”).
A segunda parte (“Mutações”) vem eivada
de lirismo (“Chuva”), celebração da natureza
(“Nas Serras de Minas”) e a nostalgia da infância
perdida (“E assim a menina vai, enquanto o tempo tece a mulher
que fica” – “Revelação”). O
melhor do livro fica, porém, para a terceira e última
parte, “Vozes do Tempo”. Ali, Carlos Ribeiro atinge o
domínio completo do conto, “um dos gêneros mais
difíceis da arte literária”, na opinião
do insuspeito Ruy Espinheira Filho. Nenhuma novidade para um autor
que arrebatou, no gênero, o prêmio da Academia de Letras
da Bahia – paradoxo desta terra, os originais de Carlos Ribeiro
ficaram mofando na gaveta, até que uma editora alternativa
os resgatasse.
Autor de Já vai longe o tempo das baleias (Fundação
Cultural da Bahia – 1981), Carlos Ribeiro nos dá um pungente
relato do reencontro entre duas pessoas que a vida distanciou irremediavelmente,
no conto “O Encontro”. Em “Porto Príncipe”,
descreve a atmosfera de pobreza e liberdade presente em “Cannery
Row” e “Boêmios Errantes”, de Steimbeck, ao
falar da vida de dois vagabundos escondidos “entre tubos enferrujados
do subúrbio”.
Carlos alcança seu melhor momento no borgeano “A Última
Aventura de Richard Burton”, pelo que há, no conto, de
tensão contida, eqüidistância do narrador e, sobretudo,
o conciso relato de um deslumbrante mundo de aventuras. O escritor
baiano premia ainda o leitor com o ecológico “O Caçador
de Raridades”, onde encontramos eco de Guimarães Rosa:
“Anda vendo humanidade nos olhos dos bichos”.
Escritor já pronto e maduro, apesar da pouca idade (diferente
do futebol, em literatura ainda se é novo bem depois dos 40
anos), Carlos Ribeiro sabe que, se o tempo das baleias já vai
longe, há ainda tempo suficiente para o homem sair do labirinto.
De todos os labirintos da alma.
Elieser César é jornalista e escritor, autor do recente
O Escolhido das Sombras e outras histórias (BDA-Bahia, 1996).