UM FICCIONISTA BAIANO
GUIDO GUERRA
Uma
das graças supresas das Bienal do Livro, que ora se realiza
no Rio de Janeiro, é certamente a presença do
baiano Carlos Ribeiro, menos pela ressonância de seu nome
que pela qualidade de seu texto, o primeiro com que se apresenta
em dimensão nacional: O chamado da Noite (Livraria
Sete Letras Editora, RJ, 108 páginas). No livro, o autor
permuta as ilusões de sua mocidade pelos desenganos de
um homem de meia idade, que assume a identidade do protagonista-narrador,
de quem Ribeiro, através de pernsagens como Maria Monte
Serrat e Rosemar, recupera os anos dourados e iluminados pela
quase inocência de Romy Scnneider, pelos seios de Mônica
Viti e os filmes de Goddard.
Carlos Ribeiro estreou nos anos 70, com um pequeno volume de
contos, Vai Longe, O tempo das Baleias, a
refletir a influência que o mar exercia em sua formação,
no que toca a temas e ambientes, e sua opção preferencial
pela ecologia, o quie aprofundaria com uma viagem à Antártida,
de que resultoou um livro reunindo reportagens pulbicadas na
imprensa baiana, a que sucedeu sua inclusão em antologias
de contos, mas de circulação restrita a seu Estado.
Com O Chamado da Noite, ao mergulhar na solidão dos ressentimenstos
pelas perdas acumuladas, Ribeiro carimba seu passaporte para
o Sul Maravilha: submete-se ao crivo da crítica e de
um público mais diversificado, com a vantagem de não
se estigmatizar sua ficção com cacoetes regionais.
A geografia física da Bahia (e também a humana)
atravessa as páginas da ficção de Carlos
Ribeiro, em referências explícitas a ruas, espaços
culturais, praias, mas se mantém indiferente ao mistério
oleoso da cidade de Salvador, onde o dendê mistura-se
ao molho bem apimentado, o som do atabaque ao do berimbau, na
convocação ao terreiro de candomblé e à
roda de capoeira. Embora não se ressinta ao referencial
mítico nordestino: Cavala - que habita a Lagoa do Abaeté
por ocasião da Semana Santa, quando corta os céus
da Bahia, produzindo sons ensurdecedores - reedita o lendário
epísódio da moça que esbofeteou a mãe,
na sexta-feira da Paixão, e virou bicho. Cavala coincidentemente,
à imitação do Lobisomen, era metade mulher,
metade pássaro.
O fascina na ficção de Ribeiro, antes do tratamento
temático, é a construção de uma
linguagem ágil e inventiva. Ribeiro compreendeu que não
bastava ter uma hist´roia e simplesmente contá-la,
mas reinventá-la com ofício, o que requer domínio
na estrutura de personagens, com uma linguagem que confira à
narrativa a dimensão da literatura, como a que Carlos
Ribeiro produz, densa de poesia e humanidade.