CAÇADOR DE VENTOS E MELANCOLIAS: UM ESTUDO DA LÍRICA
NAS CRÔNICAS DE RUBEM BRAGA
MIRELLA MÁRCIA LONGO
13/03/2001
As Crônicas de Rubem Braga estavam mesmo a merecer
um comentário crítico profundo, um trabalho que
buscasse situar a obra desse cronista na Literatura Brasileira
e no contexto geral da escrita jornalística. Caçador
de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas
de Rubem Braga vem finalmente acrescentar traços novos
ao perfil do escritor, apresentados a partir de um estilo ensaístico
desenvolto, cujo dinamismo garante o interesse de um público
bastante amplo. De fato, embora alicerçado em muitos conceitos
da Teoria Literária, o texto de Carlos Ribeiro é
elaborado com leveza e não se destina apenas aos especialistas
das Letras.
Os dois primeiros capítulos do ensaio estão sedimentados
em rigorosa pesquisa sobre os antecedentes da crônica moderna,
acompanhando a evolução que teve essa forma de escrita,
no contexto nacional. Assim, Carlos Ribeiro não se furta
à tarefa de compreender, no seio de um processo histórico,
a forma literária que estuda, constatando que, apesar de
transformados, elementos provenientes de outras formas continuam
presentes na crônica. A visão desses contágios
auxilia a consciência contemporânea do analista a
deslocar-se do seu próprio tempo, dando mais elasticidade
ao comentário crítico.
Bem alicerçado pelos momentos anteriores, Carlos Ribeiro
compõe, no seu terceiro capítulo, um retrato de
Rubem Braga. E creio que a imagem traçada pelo ensaísta
irá, ao mesmo tempo, confirmar e, positivamente, surpreender
aqueles que costumam freqüentar as páginas de Rubem.
A confirmação é certa, porque os traços
recortados são mesmo os que mais se salientam na obra do
escritor. No entanto, surpreendem o poder de síntese e
a capacidade com que esses aspectos chegam a atingir um nível
conceitual. Refiro-me particularmente ao tratamento que Carlos
Ribeiro confere a três aspectos básicos: a condição
de exílio oferecida pela cidade moderna, o rastro Romântico
e a presença marcante da subjetividade, emprestando, ao
discurso de Braga, forte tonalidade lírica.
É
ainda digna de menção a precisão da análise
estilística feita no percurso do ensaio e particularmente
no capítulo V. Trata-se de um “corpo a corpo”
que o ensaísta não desiste de travar com o objeto
que estuda, efetivando uma prática que, infelizmente, é
cada vez mais rara nos Estudos Literários. Como o realiza
Carlos Ribeiro, o “close reading” não se esgota
em si mesmo, levando a uma visão ampla do escritor, visão
que termina por expandir-se no estabelecimento de relações
comparativas entre a escrita de Braga e outras que lhe são
contemporâneas. Sem dúvida, o leitor tem em mãos
um livro atualizado e, todavia, independente.
Mirella Márcia Longo é poeta, ensaísta,
doutora em Literatura pela USP e professora universitária.