ABISMO: TRAVESSIAS HUMANA, LITERÁRIA E CINEMATOGRÁFICA
Cláudio Novaes
Tribuna
Feirense – 15/5/2005
Em visita
cotidiana à livraria, vi na estante um livro com sugestiva
fotografia de um acidente geográfico na capa. Associei
imediatamente aquele Abismo ao gênero auto-ajuda. Como
era uma prateleira da literatura brasileira, aproximei-me para
ver de perto a autoria daquela edição bem cuidada:
letras em relevo e de tom reluzente, simulando publicações
de luxo. Imaginei um best seller. Mas o nome era conhecido!
Carlos Ribeiro. Olhei a página de rosto e confirmei na
foto que era o mesmo Carlos dos contos noturnos e urbanos que
eu já conhecia. Pensei imediatamente em comprá-lo,
mas a cesta cheia de outros livros e o bolso vazio do professor
me fez mudar de idéia, provisoriamente... Volto à
mesma estante, dias depois, e não vejo o livro. Pensei:
fora engano e ilusão literária aquele livro?!
Ou o Abismo de Carlos Ribeiro já era mesmo best seller.
Dois exemplares não era nada mal em vendas semanal para
um autor local. Na terceira visita, Abismo estava lá
sintetizando a dialética do comprador ansioso. Era o
mesmo exemplar de antes e a aquisição do livro
já era em si uma narrativa de experiência salutar,
para quem gosta de ler as páginas e já ser (a)traído
pela expectativa do ato de comprá-las.
Rapidamente
corri o dedo polegar sobre as páginas fechadas, fazendo-as
passarem como redemoinho; reconhecia o mesmo Abismo colorido
da capa movimentando-se em branco-e-preto em cada divisão
do livro, como animação, tradição
de filmes animados. Cheirei as páginas – os livros
cheiram a seus assuntos e temas e, às vezes, seus personagens
têm aromas! Na apresentação leio o paradigma
atribuído ao livro de Carlos Ribeiro: “Paulo Coelho,
debaixo do sucesso mundial e de uma saraivada de críticas,
buscou na literatura persa a base para suas histórias.
Carlos Ribeiro, um novo autor brasileiro, buscou na mesma fonte
e em outras igualmente valiosas – como Jorge Luis Borges
e Conan Doyle – os motivos para esta fascinante versão
da jornada do herói, adaptada para a era das incertezas
que é este início do século XXI”.
Assim começa o texto do apresentador de Abismo.
A apresentação
e os fragmentos de textos extraídos dos autores eleitos
pelo escritor tecem um para-texto dentro das páginas
de Abismo, contrastando a figuração natural da
fotografia que ilustra o livro de Carlos Ribeiro com a sofisticada
racionalidade da apresentação crítica e
das epigrafes selecionadas. O leitor se interroga sobre a intencionalidade
ou não destes contrastes: uma prevenção
editorial à associação imediata de Abismo
com a pejorativa categoria da auto-ajuda execrada pela crítica
acadêmica; ou uma reivindicação de mudança
de status para este gênero literário.
Ao começar
a ler o romance não consegui deixá-lo mais...
Perseguindo o final do paradoxo construtivo absorvido na escritura
de Carlos Ribeiro: a travessia existencial “esotérica”
e o romance neo-realista de reflexão coletiva no intimismo
do livro. Descubro que Abismo tem a linguagem elegante da narrativa
dos contos do autor; e mais ainda... A história de Abismo
é conseqüência direta da derrisão do
mundo urbano relatado nos seus livros de contos anteriores.
É como se seus personagens das pesadas noites nas narrativas
curtas resolvessem desdobrar seus movimentos em busca da luz
do dia, sendo preciso ir ao fundo do Abismo da noite, sem as
luzes apenas aparentes que queimam o filme do esoterismo banal
de certas narrativas de iniciação.
A travessia
do personagem de Abismo começa num ato instantâneo
e sem muitas razões: “No inverno passado, movido
por uma dessas idéias súbitas que chegam sem aviso
ou maiores justificativas, decidi largar tudo que, já
havia algum tempo, me esquentava o juízo e partir para
o Sul.” Tomada a decisão, ele parte para região
montanhosa do sul do país, para passar a casa de uns
tios, regressando à natureza virgem que é a matéria
prima do seu jornalismo ecologista engajado, chegando lá
se encontra com um misterioso professor e sua filha, que o escolhe
para ir em busca do santo graal no fundo do Abismo. Mas a aparente
desventura “irracional” é uma aventura que
mantém a verossimilhança numa racionalidade de
equilíbrios. Ao invés do mago é o professor,
fazendo da história uma bricolage de mitologia, história
geral, geografia humana e história cultural e política,
permeando o imaginário do personagem, que vai procurar
as revelações nos castelos, lendas, duendes e
fadas no fundo do Abismo num gesto intuitivo, mas um tempo mediador
definido pela razão atravessa a aventura. Poderíamos
pensar na travessia como “onda” psicodélica,
que estimula a personagem a ver “as belezas daquele lugar
extraordinário”, mas o romance não nos deixa
cair no esotérico, porque o tempo todo o personagem é
cortado pela reflexão e dúvidas. Não apenas
como estratégias de clímax e distensão
da narrativa, mas como instigantes provas de humanismo do personagem
atento: “para contemplar a maravilha é preciso
evitar as armadilhas.”
O romance
de Carlos Ribeiro faz inferências na literatura de autoconhecimento,
de travessias e viagens, desde a literatura e o cinema mais
popular até os mais sofisticados, porém, o fundamental
do texto é o humanismo do personagem traduzido em um
“homem que sonha na noite infinita.” Com isto, o
narrador chama atenção para a escuridão
de pretensas clarezas travestidas de inteligências teóricas
neste símbolo humano que desce ao Abismo para descobrir
“verdades” como: “o homem sou eu”; “tudo
é ficção”; “tudo isto é
um sonho”, porque o “abismo não termina nunca.”
Enfim, esta
frase acima traduz estruturalmente a narrativa do romance Abismo
como um contraponto à literatura esotérica vaga
e insipiente da indústria literária que não
pode ser generalizada e sim lida cada uma segunda suas intenções
e os interesses de cada leitor. O livro de Carlos Ribeiro é
para leitores interessados na leveza da boa literatura.
Cláudio
Novaes é doutor em Letras e professor de Literatura da
Universidade Estadual de Feira de Santana – Uefs.
ccledson@ig.com.br