ABISMO, MERGULHO E CONSOLO
Hélio Pólvora
Iararana
– Revista de Arte, Crítica e Literatura
N° 10 – Agosto de 2004
Há
leitores e leitores. Uns querem distrair-se, encher o tempo.
Outros, mais exigentes, procuram conhecimento. E há os
mais exigentes ainda que navegam por seus meandros interiores
(deles, leitores), lançam âncora aqui e ali, numa
enseada ignota, abrem trilhas na sua mata imemorial. A esses,
sempre na ânsia de um possível amadurecimento,
para melhor se conhecer, saber da vida e de si, recomenda-se
a leitura de Abismo, do jovem prosador baiano Carlos Ribeiro.
Poderia
ser um romance de aventuras — e de fato é. Aventuras,
porém, da inquirição, tentativas de mergulho
no ser profundo. Abismo é um desses livros de formação
que, na forma livre do ficcionismo, oferece matéria para
reflexão, descoberta e, quem, sabe?, encontro. Se Robert
Louis Stevenson considerava o relato puro e direto de aventuras
como gênero nobre da ficção, o que não
diríamos de Abismo?
O
romance de Carlos Ribeiro traz aquele algo mais que se espera
de um bom livro. Um moço está querendo caminhar.
Caminhar, aqui, no sentido de sair de dentro de si mesmo, apaziguar
suas ânsias, conjugar-se, apaziguar-se enfim. Em visita
a parentes, em região deserta e alcantilada do Cone Sul,
em fronteira com o Brasil, é instado por um cientista
estranho e sua bela filha Helena (o nome já e por si
sintomático do mito da Beleza que se oferece e se esquiva,
talvez para valorizar a busca) a buscar o seu Santo Graal.
Se
for seu, cabe-lhe ir sozinho. E ele, vencidas as naturais hesitações,
parte. Desce a um abismo. É, à sua maneira moderna
e atual, um guerreiro da fé que lembra os Cavaleiros
da Távola ou Jasão e seus argonautas na perseguição
ao Velocino. Abismo é isso: uma busca, a Busca. Nada
de aventuras mirabolantes ou de misticismo de segunda mão.
Carlos Ribeiro vale-se de símbolos e metáforas
para sondar o abismo da personalidade, descer ao vale profundo,
encontrar, por fim, a resposta — que é mais simples
do que se imagina, mas poderá vir sob a forma de um eclipse
solar. A claridade, em suma, aquela revelação
que às vezes, raras vezes, passa por nós e nos
toca de leve, como a asa de um pássaro em fuga.
E,
a exemplo dos ficcionistas de formação, dos que
recorrem à fantasia para ensinar e instruir, Carlos Ribeiro,
em linguagem desataviada, clara como água da fonte, retém
o leitor e o faz seguir ao seu lado, igualmente ansioso, igualmente
empenhado em descobrir. Talvez um ou outro (ou ambos) chegue
à conclusão, como já foi verificado em
outros autores, de que a busca, a eterna busca, vale por si
mesma, enquanto dura. Mais importante do que encontrar —
se nos for dado o ensejo de encontrar — é buscar,
interrogar, interpelar, tocar a fimbria da asa que nos perpassa
pelos olhos.
Com
esta metáfora — o impulso à busca que somente
os inquietos, os insatisfeitos e atormentados sentem —
construiu Carlos Ribeiro um romance atraente, em que os capítulos
se sucedem atrelados como os vagões de uma longa composição.
Livro simpático, livro amigo, meditado, bem documentado,
mas de forma a não prejudicar o andamento ficcional,
e sem apelo a truques baratos de mágico amador, sem aqueles
conselhos de conduta pessoal de que anda cheio (e enfarado)
o mercado da auto-ajuda.
Abismo,
para quem souber fruir-lhe o elixir, é leitura de formação,
na linha dos autores que nos ensinam a pensar e a buscar por
trás das aparências o consolo de quem caminhou
e tropeçou e avançou — e por isso sabe.
Hélio Pólvora é ficionista, crítico
literário, ensaísta e membro da Academia de Letras
da Bahia.