NÃO SOMOS TERRORISTAS
APELO
- Embaixador da Palestina no Brasil denuncia apartheid
de Israel contra seu povo e pede apoio para a criação
do Estado palestino.
Carlos Ribeiro
Jornal A Tarde
A legitimidade da resistência dos árabes
à ocupação do seu território
e a necessidade do apoio internacional para a criação
do Estado palestino foi a principal tônica do discurso
que o embaixador da Palestina no Brasil, Musa Amer Oden,
fez, na noite de sexta-feira última, durante a
mesa-redonda realizada no Espaço Cultural da Universidade
Católica de Salvador. Com o título O Conflito
no Oriente Médio e a Violação dos
Direitos Humanos na Palestina, o evento - promovido pela
Unegro, Ceao, Apub e mais centro e diretório acadêmicos
de História e Geografia da Ucsal - integrou as
atividades promovidas pelo recém-criado Comitê
de Solidariedade ao Povo Palestino, que conta com o apoio
da Câmara de Vereadores, da prefeitura municipal,
do governo do Estado, organizações não-governamentais
populares, igrejas, universidades e políticos de
diversos partidos.
O Comitê, segundo um dos seus principais articuladores,
o vereador Javier Alfaya, pretende dar apoio político
e desenvolver atividades práticas, como coleta
e envio de medicamentos aos palestinos. Além dessa
iniciativa, Javier Alfaya e a deputada estadual Alice
Portugal, do PC do B, propõem, respectivamente,
a instituição do dia 29 de novembro como
Dia Municipal e Estadual de Solidariedade ao Povo Palestino.
Na mesa-redonda - coordenada por Olívia Santana,
representante da Unegro -, Musa Amer Oden traçou
um panorama histórico da ocupação
da Palestina, falou sobre a situação atual,
à qual se refere como um “apartheid mais
duro do que o da África do Sul” e pediu o
apoio do Brasil para a desocupação do seu
território e a criação do seu Estado.
A seguir, alguns trechos de seu pronunciamento.
Invasões à região
“Como vocês podem ler na Bíblia, o
povo palestino tem habitado a Palestina por milhares de
anos. Os cananeus e os filisteus habitaram a Palestina
antes da chegada dos hebreus (...). Nós, na Palestina,
sofremos mais de 20 invasões, sendo uma delas a
dos hebreus. Mas todas as invasões deixaram a Palestina.
Os hebreus têm religião judaica, e, porque
era a primeira religião, muitos palestinos submeteram-se
a ela. Mais tarde, Jesus Cristo nasceu na Palestina e
muitos palestinos converteram-se ao cristianismo. Depois,
o islã chegou à Palestina e muitos palestinos
converteram-se ao islamismo. Então, são
essas três religiões que existem na Palestina.
Mas a Palestina não pertence a nenhuma dessas religiões.
Pertence ao povo da Palestina, que tem essas três
religiões”.
Divisão do território
“Nós estivemos sob o Império muçulmano
por 400 anos e foi muito difícil, muito duro resistir
a ele. Participamos da Primeira Guerra Mundial para derrotar
o Império Otomano e fomos capazes de derrotá-lo.
Prometemos, então, a nós mesmos que teríamos
a nossa independência. Infelizmente, em vez de darem
aos povos daquela região a liberdade, dividiram
o nosso território entre os britânicos e
os franceses. Resistimos, então, ao poderio britânico
na Palestina”.
Ocupação atual
“Os europeus procuraram encontrar uma resposta para
os problemas dos judeus, mas não na Europa e sim
na Palestina. E nós resistimos à imigração
legal e ilegal do povo judeu para a Palestina, porque
eles vieram da França, da Grã-Bretanha,
da Polônia, de todas as partes do mundo. Eles tinham
seus países, seus passaportes, suas residências,
mas nosso povo não tinha nada, exceto a Palestina,
que é uma área pequena, de apenas 27.000
Km²”.
“Quando os judeus estabeleceram seu Estado, foi
em 78% do Estado da Palestina histórica, enquanto
apenas 22% permaneceram sem ser ocupados. A criação
do Estado de Israel foi uma catástrofe para o povo
palestino, porque mais da metade dessa população
tornou-se refugiada e perdeu tudo. Ela deixou sua propriedade
à força. Massacraram nosso povo. Nosso povo
segurou a chave de suas casas, na esperança de
que um dia retornariam. E eles ainda estão esperando”.
Marcas do conflito
“Nosso território está dividido pelo
Exército israelense em 64 quadras isoladas. A Cisjordânia
tem menos de 6.400 Km², com 274 pontos do Exército
israelense. Eles impedem que as pessoas transitem de uma
quadra a outra. Se uma criança está na quadra
A e a escola está na quadra B, ela não pode
ir à escola. Muitas mulheres gestantes na Palestina
não podem sair de sua quadra para ir ao hospital.
Elas têm seus filhos nos pontos determinados pelos
israelenses. Muitas vezes, elas e seus bebês morrem.
Nós temos mais de um milhão e quinhentos
mil palestinos mortos e mais de 30 mil feridos. Sessenta
por cento das vítimas são crianças,
15% delas foram alvejadas para serem mortas. Nós
não temos exército. Os judeus têm
o exército mais forte daquela região e um
dos mais fortes do mundo. Nós só temos polícia,
e os israelenses sabem quantas armas nós temos
e quantas balas nós temos. Não estamos competindo
com os israelenses. Não temos o poder nem a força
para fazer isso”.
Sobre a ONU
“Nós pedimos para ter as forças de
manutenção da paz, e os israelenses recusaram-se.
E os Estados Unidos da América dão suporte
e apoio a eles. Eles usaram o veto que os Estados Unidos
têm direito no Conselho de Segurança Internacional
para impedir que a proposta se concretizasse. Mais tarde,
nós pedimos que observadores internacionais ficassem
lá. Eles teriam que relatar isso às Nações
Unidas, e os israelenses também recusaram, porque
eles não querem que ninguém testemunhe o
que eles fazem ao nosso povo”. O que eles estão
escondendo? Nós sabemos que as Nações
Unidas vão a todos os lugares onde há conflito
e ajudam a resolver os problemas lá, inclusive
os problemas dos refugiados, exceto na Palestina. Por
quê?”.
Resistência palestina
“Resistir à ocupação é
um direito garantido pelas leis internacionais. Nós
estamos procurando uma solução para resolvermos
esse terrível conflito. Na ausência das Nações
Unidas, nós encontramos apenas um caminho para
resistir a essa ocupação. Temos esse direito.
General De Gaulle resistiu à ocupação
nazista durante a Segunda Guerra Mundial, Nelson Mandela
resistiu ao apartheid na África do Sul e são
heróis no mundo inteiro. George Washington resistiu
à ocupação britânica nos Estados
Unidos da América e é um herói lá.
Aqui, na América Latina, também existem
vários heróis que resistiram à ocupação.
Por que quando isso chega à Palestina torna-se
terrorismo? Nós não somos terroristas, somos
vítimas do terror. Somos vítimas do terrorismo
de Estado, e nós precisamos de nossa liberdade
e de nossos direitos”.
Destruição do território
“O apartheid na Palestina é mais duro do
que foi o apartheid na África do Sul. Vocês
conseguem imaginar que eles estão cortando a energia
e a água nos hospitais? Estão invadindo
as universidades? Eles estão assassinando as crianças,
os estudantes e pedindo a Arafat para controlar seu povo.
Como? Ele tem algum poder sobrenatural para controlar
seu povo resistindo à ocupação? Ele
pode atar suas mãos? Pode atar suas pernas e jogá-los
no mar e pedir que eles nadem? Como eles vão poder
nadar? Eles estão destruindo nossa infra-estrutura.
Estão destruindo tudo na Palestina. Não
existem mais alvos. Estão destruindo o mesmo alvo
duas, três vezes. Não é para defenderem-se
que eles estão fazendo isso, como costumam dizer.
Eles querem que o povo palestino desista, mas o povo palestino
nunca desistirá”.
Necessidade de apoio
“Eu quero dizer a vocês que nós somos
um povo pacífico. Nós nunca invadimos um
outro país. Nós amamos a vida e queremos
aproveitá-la. Infelizmente, não podemos,
porque estamos sob ocupação, sem nenhum
direito. O povo palestino não pode suportar mais
isso. É por isso que existem homens-bombas, suicidas.
Nós não defendemos esse tipo de ação.
Nós não podemos concordar com isso, especialmente
quando o alvo disso são pessoas civis. Mas tentamos
entender por que isso acontece. Os nossos jovens não
são estúpidos, mas vêem suas vidas
como uma catástrofe, como uma miséria. Destruíram
suas esperanças. Então, quando as pessoas
perdem suas esperanças, muitas vezes, elas se matam.
Nós falamos aos israelenses: ‘Por favor,
não matem a esperança do povo palestino’.
A forma de tratamento dos israelenses para com o povo
palestino produz esses homens-bombas. Nós precisamos
resolver esse problema dando-lhes a esperança de
volta. Mas não podemos fazer isso sozinhos”.
Histórico
O conflito entre árabes e judeus no Oriente
Médio começou em 1947, quando a Assembléia
Geral da ONU aprovou a divisão da Palestina em
dois Estados: O Estado de Israel e o da Palestina. O de
Israel - que, desde a criação, em 1948,
conta com apoio dos Estados Unidos - ampliou, nos anos
seguintes, seu domínio sobre a Palestina, ocupando
áreas como a Faixa de Gaza, o Deserto do Sinai
e as Colinas de Golã, além do setor oriental
de Jerusalém. A Palestina - cujo Estado jamais
foi instituído - começou, então,
um processo de resistência à ocupação
do seu território. Em 1964, fundou a Organização
para a Libertação da Palestina (OLP). A
entidade, liderada por Yasser Arafat, foi, desde 1974,
admitida pela ONU como “observadora permanente”,
sem, contudo, ter direito a voto. Em evidente inferioridade
no seu poderio militar, a Palestina viu surgir uma série
de organizações terroristas, responsáveis,
inclusive, por atentados contra a população
civil de Israel, acirrando um conflito sangrento que já
causou milhares de mortos. O problema - bastante complexo,
e que não comporta visões maniqueístas
- vem reproduzindo erros graves, sobretudo por parte das
facções extremistas, de ambos os lados,
fazendo frustrar, até o momento, todas as tentativas
de paz no Oriente Médio.