LIÇÕES DE REENCANTAMENTO
KÁTIA
BORGES
20/05/04 - A Tarde Cultural
“O
mundo existe para chegar a um livro”. A frase de Mallarmé
encerra um dos muitos mistérios de Abismo, lançado
durante a Bienal do Livro de São Paulo como um dos destaques
da Geração Editorial, que aposta no escritor baiano
Carlos Ribeiro como uma das grandes revelações literárias
deste ano.
Abismo
é narrado na primeira pessoa por um herói sem nome
que carrega o leitor consigo em uma jornada solitária aos
inacreditáveis canyons do Parque Nacional de Aparados da
Serra, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em busca do Santo
Graal.
A maturação
criativa do livro levou uma década. Carlos Ribeiro conta
que a obra nasceu de um estalo em Jacobina, interior da Bahia, estimulado
pela paisagem de um local frio, pendurada em uma parede. “Aquele
quadro por algum mistério da memória ou dos processos
psicológicos que a gente não entende disparou a história
e, imediatamente, me veio a idéia de ambientar a trama no
Rio Grande do Sul e usar a imagem do abismo, que eu conhecia apenas
por fotografias”, conta.
Somente há
dois anos, Ribeiro empreendeu a sua jornada ao Parque Nacional de
Aparados da Serra. “Fui conferir os cenários que descrevi
com base em pesquisas”, diz. Em alguns pontos desse percurso,
a aventura ficcional se misturou à jornada pessoal do autor,
que buscava vencer os desafios do processo de escrita do livro.
“Justamente no ponto da descida ao abismo, o romance empacou.
Resolvi, então, empreender uma viagem similar e fiz uma caminhada
solitária pelo Vale do Pati, na Chapada Diamantina, saindo
de Andaraí. Me perdi durante dois dias, passei por alguns
momentos difíceis, mas que foram aproveitados na experiência
psicológica do personagem”, recorda.
NA REGIÃO
DO INSÓLITO - A identificação vai além
de simples figura de linguagem. Como o autor explica, há
um paralelo possível entre o mergulho do personagem no abismo,
em busca de um tesouro sagrado, com uma experiência de introspecção,
de mergulho em si mesmo. “À medida que ele se prepara
e parte nessa viagem, vai tendo um contato profundo com seus medos,
com sua ansiedade, com sua visão de mundo”, diz.
O que ele propõe,
então, é mais que simples aventura, uma reflexão.
“É um questionamento da visão de mundo racionalista,
um mergulho no mundo simbólico, que se aproxima da loucura,
do conhecimento, dos símbolos do inconsciente, de uma referência
racional da vida. Meu personagem mergulha nesse limiar, na região
do insólito”, diz. Em certo sentido, um mergulho em
direção à morte. “Mas uma morte simbólica,
aquela que envolve um renascimento, como nos rituais de iniciação.
Acho que a palavra que melhor define Abismo e esse processo é
o reencantamento. O reencantamento do olhar”.
Kátia
Borges é jornalista e escritora.