LIVROS: LITERATURA À BAIANA
KÁTIA BORGES
20/05/04 - A Tarde Caderno 2
Dois
autores baianos, de estilos e trajetórias diversas, lançam
novos trabalhos, no próximo dia 26, na Academia de Letras da
Bahia, das 18 às 22 horas. Além de pertencerem à
chamada Geração 80, Carlos Ribeiro e Gláucia
Lemos têm em comum o fato de publicarem via selo Letras da Bahia
(leia-se Secretaria da Cultura e Turismo). Os dois livros, porém,
não podem ser considerados em conjunto, pois guardam aspectos
distintos e várias peculiaridades.
O de Gláucia, mais conhecida por incursões no universo
da literatura infanto-juvenil, traz ilustrações de Jader
Resende e uma bela capa, reproduzindo pintura de Lygia Milton. O tema
remete ao onírico e à fictícia cidade de Luaral,
um local imaginário no qual o lírico e o lúdico
orquestram as emoções. A ação transcorre
mais intimamente do que no terreno do real, do encadeamento de fatos
e/ou capítulos. Por vezes, o leitor pega-se sem saber exatamente
o que está lendo, qual o fio condutor de tudo aquilo, no suceder
das luas e das páginas.
O de Carlos Ribeiro, com uma ilustração do quadro A
Resposta Imprevista, de René Magritte, e a sedutora epígrafe
“Calmo é o fundo do meu mar; quem adivinharia que esconde
monstros brincalhões!”, de Nietzsche, propõe quase
o oposto. No lugar de levar a uma abstração, põe
a emoção do leitor a galope, conto após conto,
invadindo uma seara que é, ao mesmo tempo, a do fantástico
e a do real, no que ele tem de violento e cruel. Como se, por características
que agridem o que é essencialmente humano, em nós e
no próximo, fosse rompido um acordo com o aceitável.
Assim acontece nos contos A Mão, Os Mortos Precisam Falar e
As Vozes no Corredor. A violência leva à transposição
dos limites do normal, em sua anormalidade. O autor, que já
teve sua forma de escrever comparada à de Jorge Luís
Borges, não deixa fácil para o leitor. Sua prosa traz
uma urdidura sólida, que envolve e desmonta. Os finais são
surpreendentes, não por uma reviravolta inesperada na trama,
mas por uma quebra de sentido que joga o leitor para dentro de si
mesmo e para fora da ação e da situação
proposta.
Se a produção do selo Letras da Bahia é considerada,
por vezes, irregular, favorecendo à publicação
de livros abaixo da média (literariamente falando), não
há como desconsiderar a imensa contribuição que
o mesmo dá, efetivamente, ao limitadíssimo mercado editorial
baiano. Que o digam os leitores de Gláucia e Carlos Ribeiro,
que, certamente, estariam privados desses lançamentos não
fosse o incentivo da Secretaria da Cultura e Turismo e do Governo
do Estado. A César o que é de...
Kátia Borges é jornalista e escritora.