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A FESTA ACABOU


Entrevista inédita realizada em janeiro de 1997 com Aleilton Fonseca e Nelson de Oliveira, vencedores do concurso nacional de contos da Fundação Cultural da Bahia.

No dia 18 de janeiro deste ano (1997), a Fundação Cultural do Estado da Bahia fez o encerramento solene do concurso Prêmios Culturais de Literatura de 1996 - gênero contos, que apontou como ganhadores o escritor paulista Nelson de Oliveira, autor de Os saltitantes seres da lua, o português, radicado em Minas, Cunha de Leiradella, autor de Síndromes & síndromes, e o baiano Aleilton Fonseca, autor de Jaú dos Bois e outros contos.

Nelson, 30 anos, e Aleilton, 37, compareceram ao evento, e ao final dialogaram sobre as expectativas abertas com a premiação recebida e sobre os problemas enfrentados pelos autores jovens no Brasil. No dia seguinte, numa tarde de domingo, no restaurante Bahia Marina, no bairro nobre da Vitória, diante de uma bela vista da Baía de Todos os Santos, foram entrevistados pelo jornalista Carlos Ribeiro. A entrevista contou ainda com a participação de Tereza Yamashita, artista plástica e mulher do Nelson.

Nelson de Oliveira é publicitário e autor do livro de contos Fábulas, vencedor do Prêmio Casa de Las Américas de 1985, publicado em diversos países de língua espanhola, mas ainda inédito no Brasil (estranhamente, o seu livro foi recusado por diversas editoras nacionais). Aleilton Fonseca, nascido em Firmino Alves, Bahia, é professor de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, de Vitória da Conquista, autor dos livros de poesia Movimento de Sondagem (Fundação Cultural da Bahia, 1981), O Espelho da Consciência (edições do autor, 1984), Teoria particular (mas nem tanto) do poema (1994), e do ensaio Enredo romântico, música ao fundo, editado recentemente pela Editora Sette Letras, do Rio de Janeiro, Aleilton faz atualmente Doutorado em Letras na Universidade de São Paulo (USP).

P - Nelson, como você se sente na condição de vencedor de dois prêmios importantes, com um livro publicado no exterior e, no entanto, ainda inédito no seu próprio país?
NÉLSON - Eu realmente me sinto nessa posição curiosa de ter uma estréia internacional antes de ser publicado no Brasil. O livro foi publicado pela Casa de Las Américas, numa edição cubana de dez mil exemplares distribuídos em todos os países de língua espanhola. Mas o sentimento mesmo que eu tenho com relação a esse livro é uma coisa muito distante. Eu sinto quase como se não existisse, porque pra mim pessoalmente é importante ter a minha obra discutida. Então, eu tenho esse grande desejo, a necessidade de ser editado no Brasil, por uma editora que faça uma distribuição profissional desse livro, para que eu possa trocar mais informações e experiências com outros escritores.

P - A publicação através desse concurso promovido pela Fundação Cultural possibilitará uma abertura para que haja um retorno satisfatório do seu trabalho em termos também da crítica?
NÉLSON - O primeiro passo e o mais difícil é justamente concretizar a publicação. A gente tem a promessa da Fundação de que será por uma editora nacional. É importante que o livro apareça nas livrarias. Isso é o que está me preocupando agora, no momento. Mas é claro que isso é apenas a passagem para a discussão da obra, que é o que importa para o escritor. A partir do momento que você conclui um romance, um conto, um poema que seja, você tem a necessidade visceral de que leiam aquilo, que aportem leituras sobre o que você escreveu. Acho que, de uma maneira geral, os escritores novos se sentem como um cego andando por uma trilha. Ele vai tateando o chão, vai percebendo o caminho, sente que não vai cair em nenhum despenhadeiro, mas faltam as pessoas que apontem novos caminhos, que digam “olha, se você caminhar por aqui, vai chegar mais rápido”. Sinto a necessidade de ser um pouco discutido também, não de ser elogiado ou severamente criticado. Eu não acredito muito nesses extremos. Eu vejo resenhas que jogam o autor lá embaixo e resenhas que enaltecem, e quando você vê a obra em si, percebe que é múltipla, tem pontos ruins e tem pontos bons.

P - Como o escritor novo ou inédito pode romper a barreira das grandes editoras, que só querem investir em nomes já conhecidos?
ALEILTON - Em primeiro lugar, é preciso ter paciência. O escritor jovem que assume a sua vocação como uma experiência válida para sua vida, não pode reduzir o seu projeto à questão da publicação imediata. Claro que é preciso insistir e buscar caminhos. As pequenas editoras podem representar uma alternativa viável, já que as grandes, por terem departamentos, escalões etc, muitas vezes acabam complicando a possibilidade de editar um novato. E essas editoras são mais presas às questões de mercado. Enquanto que as editoras pequenas, exatamente por não terem grandes compromissos com a rentabilidade comercial, são mais abertas a investir em escritores iniciantes. Desde que o escritor sinta que há um trabalho sério, com vistas à qualidade, e que há o empenho de entrar no mercado e ampliar a rede de distribuição, vale a pena buscar essas editoras. Um bom exemplo disso são as editoras Sette Letras, do Rio de Janeiro, e a Iluminuras, de São Paulo, que vêm lançando novos autores que estão crescendo junto com elas.

P - Os concursos literários podem ser também uma boa alternativa?
ALEILTON - Sim, a produção cultural precisa ter outro lastro, e aí entra fundamentalmente a ação dos órgãos de cultura do País. Os concursos são importantíssimos para aumentar o fluxo de autores e revelar novos nomes. Outra iniciativa importante é a promoção de co-edições de instituições culturais com editoras comerciais para que se viabilizem as edições e o surgimento de novos autores.

P - Um fator que parece contribuir para dificultar a divulgação dos trabalhos de escritores mais jovens (considerando jovens autores que já estão na casa dos 40 anos, mas que não têm ainda o seu trabalho reconhecido) é o seu isolamento. As gerações mais antigas de escritores parecem ter maior contato, maior proximidade. Havia o elemento da boêmia, que era muito mais presente. Hoje, os escritores parecem mais dispersos. A que vocês atribuem essa falta de agregação?
NÉLSON - Olha, vivendo em São Paulo, eu me sinto completamente isolado. Essa coisa da boemia, dos encontros, da troca de idéias, pra mim inexiste. E é curioso, pois quando eu saí de uma cidade pequena do interior pra morar em São Paulo, foi justamente à procura disso. Não só a procura de mais informação cultural, mas de contato com as pessoas que produzem essas informações. Um bom exemplo disto que você disse está em Paris é uma festa, de Hemingway. É uma pequena autobiografia, onde ele conta como era a vida nos anos 20, em Paris. Após a leitura desse livro, fica uma nostalgia muito grande de uma época que não vivemos, quando todos os grandes escritores, todos os grandes pintores, todos os grandes músicos viviam numa cidadezinha, num bairro de uma grande cidade, todos ali, um ao lado do outro. Nesse livro do Hemingway, ora ele está num café escrevendo, ora almoçando com Fitzgerald, ora visitando Ezra Pound, ou indo a uma festa da Gertrude Stein. Pablo Picasso está ali perto, Stravinsky também está rondando por ali, e todos se encontram toda hora, batem papo, quer dizer, o pessoal que fez o século XX mesmo está tudo ali nos cafés, nas praças, nos bulevares, conversando, ainda sem o renome que eles teriam dali a algum tempo. Esse texto acaba sendo hoje, para mim, uma fábula, porque em São Paulo não existe isso. Hoje, somos estanques, o editor fica numa sala e o autor na outra, o autor insistentemente tentando invadir a sala do editor. Há 40 anos atrás não era assim. Isso faz uma falta muito grande.

P - Parodiando John Lennon, podemos dizer que a festa acabou.
NÉLSON - A festa acabou, completamente. Que pena! Parecia ser uma coisa muito divertida. E é importante o escritor falar com o músico, com o pintor, trocar informação estética mesmo. Uma outra falta que eu sinto, que é muito grande: acabaram-se os ismos, para o bem e para o mal, quer dizer, acabou a época do José Olympio. Havia o regionalismo, era um grupo de autores vivendo em pontos diferentes do país, mas que tinham uma estética comum. E cada um interpretava essa estética à sua maneira, cada um era genial à sua maneira. Depois, havia o concretismo, havia uma série de ismos, hoje não existe mais, cada autor fica realmente no seu quarto, diante do seu computador. É o individualismo. Ninguém se reúne mais para discutir idéias estéticas, nem pra ver caminhos, cada um vai escrevendo seu próprio caminho. Não quer dizer que não vão sair obras de arte daí. Vão sair, como sempre saíram. Mas em termos pessoais, acho que é muito empobrecedor.

P - O desmantelamento das utopias políticas e ideológicas também contribuiu para isto. Antigamente, em meio à festa, sempre havia aquele desejo de transformar alguma coisa, de construir uma sociedade nova. E hoje em dia, a economia de mercado, o neoliberalismo estão dominando tudo. A economia de mercado dita a regra: o escritor bom é aquele que vende muito, quer seja o esotérico, quer seja o que apela para sexo e violência, o que é badalado, o que tem relações com pessoas influentes ou o que é apenas um investimento seguro. Esse domínio do capital interfere hoje, mais do que nunca, inclusive no processo de criação.
NÉLSON - Esta é, infelizmente, a grande referência na época em que vivemos. Qualquer pessoa que faça uma música e venda bastante é considerada um artista. Qualquer um que pinta um quadro se declara: eu sou artista plástico, eu sou pintor. Ora, pintor pra mim foi Michelângelo, foi Leonardo da Vinci. Gente que tinha uma obra consistente. Escritor foi Balzac, foi Proust. Quer dizer, se você publica um romance, um livro de contos, qualquer coisa e diz que é escritor, você está tirando um pouco o mérito dessa palavra: escritor. Eu estou construindo a minha vida, construindo a minha obra. Daqui a 20 anos, vou poder realmente me sentir bem em dizer que sou um escritor. Hoje em dia, um apresentador de TV publica um livro, ele é um grande escritor, porque vendeu muito, entendeu? As referências estão meio perdidas.

P - Tem muita gente se considerando artista, não é?
ALEILTON - Essa questão da perda de referências para se estabelecer o que é o escritor, o que é o literário, o que é o grande romance, isso é muito problemático, porque, lembrando aqui a visão de cânone do Harold Bloom, a gente pergunta: quais são os critérios para a formação do cânone nesse fim de século? As coisas ficaram meio embaralhadas, os valores de mercado se contrapuseram de tal forma aos valores de arte que se formou uma grande confusão. Se uma pessoa publica alguns livros esotéricos e vende muito, passa a ser considerada pela mídia como um grande escritor. Como determinar, dentro da produção cultural, quem é quem, que obras são literárias e que obras são de mercado? Como se distribuir o reconhecimento de mérito cultural e artístico a quem realmente merece? Como se criar as referências para saber quem é o autor que lança um livro e vende por fatores extra-literários e quem é o autor que realmente faz uma obra de arte, embora talvez nem seja lida ou bem vendida. Há também essa questão da obra que não é lida ou compreendida pelo público contemporâneo. A história está cheia desses exemplos, como a poesia de Baudelaire, a prosa de Kafka, a pintura de Van Gogh.

P - Existe, portanto, uma crise de formação do cânone?
ALEILTON - Exatamente. Considerando apenas o exemplo da literatura brasileira: Em grande parte, o cânone literário do século XIX foi constituído a partir das publicações da editora Garnier. Até a metade do século XX, grande parte do cânone foi constituído em torno das publicações da Editora José Olympio e, em outra parte, da Martins. Eram atividades editoriais que tinham seu cunho comercial, mas que primavam, sobretudo, pelo compromisso com a cultura, com a edição do que melhor se produzisse em termos de literatura brasileira. A grande literatura do século XX está publicada nesse âmbito. Ora, de tempos para cá, uma vez que as referências se perderam, o mercado se expandiu de tal forma que agora dita as regras, e as regras de mercado são claras: o que vende, faz sucesso, recebe o status de “bom”, de “melhor”, pelo menos para uma visão inicial do grande público consumidor. Se as referências se perderam, a quem cabe encaminhar a constituição do cânone de agora em diante? Essa é uma questão problemática. A universidade, que poderia ser essa instância, muitas vezes fica presa ao cânone já instituído pela tradição e não abre muitas perspectivas para os escritores mais jovens. E muitas vezes a expressão “mais jovens” aí se aplica a autores que já estão na faixa dos 50 anos. Cria-se um vazio, uma descontinuidade. Então, diante disso, quem vai constituir o cânone literário de agora em diante? Seguramente não deveriam ser as regras de mercado simplesmente. Há que se pensar na importância deste fato, ou seja, a universidade, os suplementos literários de jornais e as revistas de literatura deveriam voltar-se um pouco mais para os autores que ainda não estão inseridos no cânone oficial da história literária, que muitas vezes não são ainda estudados, mas que já têm uma obra delineada ou pronta, constituída. Retomar o fluxo contínuo de formação do cânone é muito importante para os novos autores porque os elos, as filiações, as inter-influências vão se retomar, de maneira que se possa ter uma engrenagem sistêmica de produção literária. Isso consertaria um pouco os efeitos da dispersão. A dispersão, a diversidade, isso é inerente aos tempos atuais, disso não podemos fugir. Mas, mesmo em nível virtual, podemos ter esse processo de referências, lembrando aqui a idéia de literatura como sistema, como explica Antônio Cândido. Uma coisa é certa: não podemos deixar que apenas o mercado determine o cânone, mesmo que esse “cânone” leve aspas.

NÉLSON - O livro do Harold Bloom se detém com bastante ímpeto no problema das universidades americanas. Lá está havendo uma coisa gravíssima que é a substituição de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, Melville, por autores atuais que têm na sua obra temas vinculados com as minorias. No Brasil, o que Aleilton estava dizendo é pertinente, isto que ele está apontando, ou seja, o cânone está sendo instituído não pelas universidades. A questão da discussão do cânone foge do ângulo universitário e está sendo trabalhado em nível editorial mesmo, em nível mercadológico. Pegando um pouco esse gancho, mas levando a discussão em outra direção, o que está sendo canonizado hoje em dia é uma certa literatura que vem já de 68 para cá, que é aquela reversão de valor, quer dizer, até então o escritor tinha o domínio da língua, dominava o português, o francês, a sua língua natal de cabo a rabo, o escritor era aquele que dominava a língua e as estruturas literárias também. Então ele era capaz de criar uma obra, no caso um romance de 500 páginas, de forma coerente. De 68 para cá, houve uma reversão e as obras que passaram a ser canonizadas são justamente daqueles autores que começaram a empregar o coloquial, a frase mal composta, a estrutura mal composta, uma coisa mais solta, até que surge um Dalton Trevisan, que começa a pôr na literatura palavras chulas, situações completamente obscenas na literatura, um vírus importante porque é isso que movimenta a arte. São esses vírus que aparecem de tempos em tempos, mas eu acho que o autor jovem está se prendendo muito nessa forma de arte, essa coisa meio mal feita. Há uma quantidade muito grande de escritores em cada concurso. No concurso do Paraná, gênero poesia, são quinhentos e tantos inscritos, para livro de contos são em torno de trezentos. É muita gente escrevendo. Então eu me pergunto: será que há na maioria desses textos a precupação anterior de se dominar a língua, dominar a linguagem, dominar as estruturas? Ou não? Em sua maioria, esses textos são mal escritos mesmo, sem qualquer referência importante e o autor jovem fica toda hora esbravejando que não é publicado, sem atentar para esse problema. Ele não tem aquela tradição que um francês tem. Eu acho que o francês já nasce lendo, pois lá existe uma tradição muito grande e todo um patrimônio literário. Enquanto que no Brasil, não. Muitas pessoas escrevem mal, não têm referências históricas, pelo menos alguns jovens com quem eu andei conversando, não têm uma referência, e fica esbravejando “poxa, eu não consigo publicar, só publicam Paulo Coelho”.

TEREZA - Na editora, nós costumamos receber originais muito “sujos”, coisa assim que se lê a primeira página e conclui: “Nossa, esse aqui é um mau escritor”. Às vezes têm erros, vem manuscrito, parece que a pessoa acha que é artístico escrever numa folha de guardanapo. É complicado mesmo.

NÉLSON - A partir do momento em que você transforma em cânone o “vale tudo”, então o romance já não tem começo, meio e fim, e chega uma hora que uma palavra é um romance e 300 páginas são um poema em prosa. É uma discussão infindável, o cânone brasileiro atual é “vale tudo”. Então você faz qualquer coisa, e se acha escritor, os jovens, principalmente, se acham escritores e ficam alardeando que não são publicados, mas eu acho que muitos jovens estão batendo cabeça mesmo. Eu acho que é obrigatório passar dez anos estudando a tradição, até você começar a desenvolver sua própria tradição.

P - Falta o domínio da linguagem e a consistência que alguns autores considerados “clássicos” tinham e que muitas vezes passaram a ser vistos de forma pejorativa como “acadêmicos”. Utilizando um exemplo do cinema, na década de 60/70 David Lean, que é um grande cineasta inglês, com um domínio tremendo da linguagem cinematográfica, era visto como “acadêmico”, até de maneira pejorativa.
NÉLSON - Hoje, os filmes de David Lean estão sendo reprisados a toda hora, restauraram inclusive o Lawrence da Arábia. Eu tenho certeza de que o autor que quiser ser publicado e conhecido, sem entrar em mérito estético, tem que ter um domínio muito grande da tradição. Ele tem que ler seus antecessores, deglutir, nesse sentido, e não simplesmente ficar brincando com formas.

ALEILTON - Há uma busca de experimentalismo um tanto exagerado, que pode acabar levando à produção de textos pobres em expressão, muito desossados. Na verdade é a velha tensão entre tradição e experimentalismo. Essa é a dialética da criação literária. É claro que se o autor jovem não atentar para a necessidade de estudar, de saber, de conhecer a tradição, e ele quiser inventar de novo a roda, ele vai cair nessa armadilha. Nelson disse que não basta escrever um livro e se auto-intitular escritor. Nesse momento acho que ele estava se referindo exatamente à questão da tradição, ou seja, é preciso ter uma obra pronta e aferida por leitores e crítica e análises pra se verificar se a experiência criativa daquele autor realmente foi válida como contribuição à literatura, naquilo que inovou ou reutilizou da tradição. O autor iniciante, que está produzindo seus primeiros textos, precisa ter essa visão de sua precariedade enquanto criador em processo, autor em formação. Antes de criticar o mercado editorial e o editor, ele precisa indagar a si mesmo sobre o seu percurso, se o que ele está fazendo é realmente uma boa literatura, ou se o que ele está fazendo é um exercício de escrita. Esse exercício de escrita é bom e salutar, mas se encerra num texto que não acrescenta grande coisa. Daí que se tem, nos concursos literários, milhares de concorrentes, mas as comissões julgadoras geralmente declaram que poucos trabalhos têm méritos para concorrer a um prêmio literário. Muitas vezes o autor manda para a editora um texto que está muito longe de ser um texto pronto e em vias de publicação.

P - A crítica é importante porque estabelece um parâmetro para a avaliação das obras, mas existe um questionamento sobre essa instância superior que define o que é ou não é uma obra de arte. Desse ponto de vista, o julgamento de qualquer pessoa teria a mesma validade que a de um crítico. Qualquer pessoa pode fazer uma pintura, apresentar numa exposição, e dizer que é arte e que ela é um artista.
NÉLSON - Este é um exemplo que me aborrece bastante. É sempre aquela questão que já perdura por uns 80 anos mais ou menos, desde as primeiras vanguardas, quando os impressionistas começaram a tirar de foco as paisagens, e eram vaiados ostensivamente. No começo do século, todos os grandes artistas sofreram absurdamente na carne. Stravinsky quando apresentou A sagração da primavera , foi vaiado, a platéia se recusava a ouvir, interromperam a apresentação, dizendo: “isso não é música, não é balé, isso é uma gritaria, não nos empurrem essa merda!”. Os pintores que estavam na França também sofriam absurdamente para vender seus quadros. Onde já se viu, chamar aquelas máscaras do Picasso de arte, comparando com toda a tradição francesa. Aquilo nunca seria arte. Hoje em dia, a gente vê o artista seguindo esse mesmo caminho. É artista quem de alguma maneira choca o público. O artista não quer ser parceiro do público, ele quer agredir. Então, há 80 anos a gente está querendo chocar, querendo quebrar uma tradição que já foi quebrada no começo do século, isso já não tem mais valor nenhum. Jogar tinta na parede, que valor tem isso em termos espirituais? Eu sou totalmente contra isso e confesso a vocês que a obra que eu pretendo construir é mais de emoção do que agressão. Eu quero escrever textos que seduzam. Eu quero seduzir através da literatura. Jamais agredir o meu leitor. Mas parece que estamos contra a corrente, pois hoje em dia os textos e principalmente muita poesia atual é sempre aquela poesia desconexa, meio sem pé nem cabeça, onde a intenção é mesmo deixar o leitor atordoado, como se o mundo moderno já não fosse um eterno atordoamento. Eu vou no caminho contrário, meu texto é basicamente para atrair o leitor e seduzi-lo, transportá-lo de maneira prazerosa para uma outra dimensão. Jamais socá-lo na cara pra dizer “olha, isso é a realidade”.

P - Como vocês definem os seus livros, vencedores do concurso nacional da Fundação Cultural?
NÉLSON - Os saltitantes seres da lua é um livro fino, com umas 70 páginas, com seis contos. Cada conto partiu de experiência pessoal. Eu só escrevo através de um estímulo. Todo texto meu é uma resposta a um estímulo. O conto que dá título partiu de alguns trechos que eu li da obra Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley. Eu achei que ficaria interessante construir uma narrativa semelhante, mas com muito humor, brincando muito com o comportamento das pessoas, e esse texto tem muitos elementos fantásticos. Minha obra é toda marcada pelo elemento fantástico. Eu sou apaixonado por Cortázar, Borges e principalmente por Kafka. Foi através de Kafka que eu senti realmente desejo de escrever. Se pudesse sintetizar o que eu sinto no momento com relação a meus textos, seria isso: seria Kafka com muito humor, cujo objetivo é instigar a imaginação, mas há muito prazer também na leitura.

ALEILTON - O Nélson falou da emoção como um elemento fundamental no seu trabalho. Eu acho que há uma tendência a se superar o formalismo e a representação direta da crua realidade do cotidiano e se voltar para a retomada da interioridade das pessoas. Neste particular, no caso do conto, não basta contar uma boa história. Mas se trata de recuperar algo de profundidade na pessoa humana nessa virada de século. O caminho para isso é a retomada do fio da emoção. A emoção que se possa encontrar numa narrativa que prepara um momento de reencontro com as capacidades mais íntimas de sentir. Uma literatura que busque resgatar a capacidade de introjeção, a capacidade de amar, de interagir afetivamente, para recuperar a reciprocidade. O que é recuperar a reciprocidade no mundo de hoje? Ora, esse mundo tão massivo e tão opressivo, que faz com que as pessoas caminhem em multidões de solitários já está bastante tematizado na literatura moderna. E essa literatura acaba andando paripassu com essa sociedade, tornando-se árida. Se a literatura é uma forma de transgressão da realidade, é momento de se tornar uma forma de reencontro do ser humano com as suas potencialidades afetivas. É redescobrir, seja na sua lembrança, na sua vivência do passado, a expressão maior da capacidade humana, a capacidade de sentir, de interagir, de amar e ser amado, enfim, de se realizar como um ser emotivo. Minhas personagens refletem uma experiência pessoal, recuperando o seu significado coletivo. E essa recuperação se dá pela memória, pela experiência de vida acumulada. Uma característica marcante do meu trabalho é a busca consciente do diálogo com os textos de outros autores. Cito e recrio trechos de poemas, retomo títulos e motivos, dirijo-me ao autor, correlaciono passagens e temas ficcionais, sem nenhum medo das influências diretas. Um exemplo recente é o meu poema “Marinha”, publicado na coletânea Oitenta, em que dialogo com o “Marinha” de Ruy Espinheira Filho. Outro exemplo é o texto “Nota social”, em que retomo o tema e o título de Drummond. Evidentemente, minha prática criativa não se limita a isso, mas eu assumo a intertextualidade sem receio, pois vejo nela uma forma indispensável de diálogo e realimentação do novo com a tradição mais recente e com a mais antiga. Aliás, no âmbito da crítica literária, a consciência teórica das relações intertextuais abona esses procedimentos atualmente. O sistema de obras literárias é um infindável diálogo de autores, clássicos e modernos, experientes e iniciantes. Como esclarece poeta T.S. Eliot, é através desse concerto geral e desse coro de vozes múltiplas que a literatura se mantém viva, estendendo seus elos entre a tradição e a renovação, uma geração após outra. Assim prossegue a aventura coletiva da arte da palavra, projetando-se em direção ao novo século.

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Prezada Tatiana Lima,

Aí está a entrevista com os vencedores do concurso nacional de contos da Fundação Cultural da Bahia, Nelson de Oliveira e Aleilton Fonseca. São muito interessantes as reflexões deles sobre a situação (difícil) dos novos escritores, que não encontram espaço para veicular seus trabalhos e exprimir a sua visão de mundo. Mostram com competência que essa geração que se situa entre os 30 e os 40 anos, embora dispersa e isolada, já está chegando para ocupar o seu lugar no espaço cultural do País.
Acho que vale a pena dar um destaque para eles: são escritores bons, com um trabalho que vem sendo construído com rigor e seriedade. O Nelson, por exemplo, vive a situação esdrúxula (e vergonhosa para nós) de ter um livro premiado num concurso internacional, publicado em vários países de língua espanhola e inédito no Brasil.
Envio o texto um pouco extenso para que você possa, caso resolva publicá-lo, ter mais opções de escolha - ou, quem sabe, publicá-lo na íntegra. Por que não?

Um abraço,
CARLOS RIBEIRO