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ILUMIARA SERTANEJA

ENTREVISTA/ARIANO SUASSUNA


Jornal A Tarde - 01/04/06
Carlos Ribeiro


Por sua defesa da cultura brasileira e por sua rejeição à cultura de massa, em plena era da globalização, o escritor Ariano Suassuna já foi chamado de “pitoresco” e “nacionalista”. Já o acusaram até de querer “levar o Brasil de volta à Idade Média”, o que, conforme disse o romancista em aula relâmpago ministrada na Chesf, em Salvador, no mês retrasado, é uma burrice, já que o Brasil nunca teve Idade Média. “Eu posso até ser um pouco doido, mas burro eu não sou”, acrescentou, com seu habitual bom humor. Às críticas dos modernosos, Suassuna contrapõe um programa de vida que se resume, diz ele, em “dar expressão a meu universo interior e peculiar e me manter fiel a meu povo e a meu País.” Suassuna é autor de uma obra sólida, construída com paciência e rigor, que lhe rendeu o Prêmio Nacional de Literatura Jorge Amado, em 2005, da qual destacam-se, na ficção, a trilogia d’A Maravilhosa Desaventura de Quaderna, o Decifrador e a Demanda Novelosa do Reino do sertão, cujo primeiro volume, o Romance da Pedra do Reino ou o Príncipe do Sangue do Vai e Volta, data de 1971, e o último está em fase de finalização, e, no teatro, peças como a Farsa da Boa Preguiça, O Santo e a Porca e, a mais famosa, Auto da Compadecida, adaptada para a TV e o cinema por Guel Arraes. Ariano concordou em dar a seguinte entrevista, por e-mail: apesar de estar concentrado nas duas prioridades de sua vida, atualmente: a elaboração do seu novo romance e à construção do santuário Ilumiara Pedra do Reino, localizado, como descreve n’A Pedra do Reino, “numa serra áspera e pedregosa do sertão do Pajeú, na fronteira da Paraíba com Pernambuco.

Carlos Ribeiro – Quando poderemos ler o seu novo romance? Pelo que li, ele vem sendo escrito desde 1981 e será ainda maior que o da Pedra do Reino, que chega quase a 700 páginas. Fale um pouco sobre ele.
Ariano Suassuna – Apesar de ser grande – ou melhor, exatamente porque é grande –, eu o dividi em partes, que serão publicadas separadamente. Não gosto de falar sobre o que estou fazendo. Por enquanto, a única coisa que posso adiantar é que, nele, estou tentando, pela primeira vez, unir numa obra só, minha prosa, meu teatro e minha poesia.

CR – O que significa o Ilumiara Pedra do Reino na sua vida e na sua obra? Fale sobre este projeto.
AS – Ao construir a Ilumiara Pedra do Reino, tento ser coerente com o programa traçado na juventude: com a criação de tal santuário, que é uma espécie de “Evangelho em Pedra”, como o “Santuário de Congonhas”, erguido pelo Aleijadinho em Minas Gerais, procuro dar expressão plástica a meu universo interior e criar, para o povo brasileiro, um monumento arquitetônico e escultórico que dê visibilidade ao eixo cultural Nordeste-Minas, fundamental para o Brasil (de acordo com Alceu Amoroso Lima).

CR – O Movimento Armorial é um dos mais importantes movimentos culturais no Brasil. Entretanto, ao contrário do Tropicalismo, não se tornou um fenômeno da chamada indústria cultural. Na verdade, excetuando-se os seus próprios livros, que dispensam qualquer rótulo, só veio ganhar maior notoriedade na área da música, com as belas composições de Antônio José Madureira para a Orquestra e o Quinteto. A que se deve isto?
AS – Por sua própria natureza, a música é mais universal do que, por exemplo, a literatura: um concerto não precisa ser traduzido, como um livro, de modo que é mais fácil um francês conhecer Villa-Lobos do que Euclides da Cunha. Por outro lado, a música é mais “espetacular” do que a gravura: por isso não me espanto ao ver Antonio Madureira ser mais conhecido do que outro artista armorial, Gilvan Samico, a meu ver o maior gravador brasileiro de todos os tempos. Nem me espanta ver um terceiro grande artista armorial, Antonio Nóbrega – que pratica outra arte ainda mais “espetacular”, a dança – ser mais conhecido do que Antonio Madureira e Gilvan Samico. Artisticamente, eles se equivalem, cada um em sua área. E não é a repercussão diferente que vai fazer qualquer um deles maior ou menor do que os outros ou do que realmente são.

CR – O senhor disse, na palestra realizada em Salvador, que a universidade brasileira ensina de costas para o povo, ignorando nomes como o do filósofo brasileiro Matias Aires, na sua opinião o maior do século XIX, e o escritor Alexandre Rodrigues Ferreira, do século XVIII, autor do livro Viagem filosófica, e comparado pelo senhor. ao alemão Humboldt. O que falta, na sua opinião, para que a universidade cumpra devidamente o seu papel?
AS – A universidade brasileira tem que dar à nossa cultura a mesma atenção que dá à francesa, à alemã, à inglesa ou à americana. E tem que dar à cultura “popular” brasileira a mesma atenção que dá à “erudita”.

CR – O que o povo brasileiro tem a mostrar para um mundo assediado, por um lado, pelo disciplinado puritanismo dos cristãos fundamentalistas norte-americanos da era Bush, e, por outro, pelo dogmatismo religioso dos islâmicos? Qual o nosso papel nessa geléia geral?
AS – Se não me engano, a expressão “geléia geral” foi criada e aplicada à cultura brasileira por Gilberto Gil. Apesar de gostar pessoalmente do autor da frase, tenho várias discordâncias em relação a suas idéias e seus posicionamentos. Acho aquela definição errada, falsa e de mau gosto. Não acho que, por exemplo, um escritor como meu mestre Euclides da Cunha caiba em “geléia geral” de qualquer natureza: era espinhento, duro, elevado e aristocrático demais para isso. Os agressores do Iraque são fundamentalistas do capitalismo, e não do cristianismo. O que o povo brasileiro pode mostrar e está mostrando de melhor ao mundo é sua alegria, sua generosidade e a energia de uma arte que, apesar de tudo o que fazem para transformá-la em “geléia”, permanece peculiar, vigorosa e singular nas obras do Aleijadinho, de Euclides da Cunha, Villa-Lobos, José Lins do Rego, Gilvan Samico, Guerra-Peixe, Francisco Brennand, Lima Barreto, João Guimarães Rosa, Raduan Nassar, Luiz Fernando Carvalho, Glauber Rocha, Augusto dos Anjos, José Cândido de Carvalho, Jorge de Lima, Antonio Madureira, Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto.

CR – Já o vi algumas vezes criticando o clássico filme de aventura Gunga Din, de George Stevens, por sua ideologia colonialista: o herói do filme, um aguadeiro indiano, luta ao lado dos ingleses contra seu próprio povo, retratado como um bando de fanáticos. O filme, entretanto, é considerado uma obra-prima do gênero aventura. É correto ignorar as qualidades artísticas de uma obra em função da sua ideologia? Poderíamos ignorar, por exemplo, o valor de um escritor como Rudyard Kipling, também tachado de colonialista? 
AS – É claro que, quando critico um artista do ponto de vista que me levou a atacar Rudyard Kipling, estou visando sua atuação e suas idéias políticas. Mas sempre soube distinguir a política da literatura. Montherlant, por exemplo, era um escritor de extrema direita e suas detestáveis idéias políticas estão perfeitamente claras numa obra que considero uma das melhores peças de teatro do século XX, A Rainha Morta, que tem como assunto a morte de Inês de Castro.

CR – Observei, na sua aula relâmpago, na Chesf, a presença de um público jovem que parece ter pelo senhor uma veneração semelhante à que se tem, por exemplo, por grandes ídolos do show business. O senhor tornou-se um popstar?
AS – Fico muito orgulhoso e contente ao constatar que, na velhice, estou recebendo, principalmente (mas não exclusivamente), da parte do público brasileiro jovem, não qualquer espécie de veneração, mas sim provas de admiração e carinho. Não acredito que seja “um ídolo”. E, sobretudo, espero não me transformar nunca num popstar – título que pode ser aplicado a qualquer imbecil, mas nunca a um escritor verdadeiro como o poeta Augusto dos Anjos ou o prosador Euclides da Cunha.