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SAUDAÇÃO A CARLOS RIBEIRO
UM ESCRITOR EXEMPLAR


Caríssimo escritor, amigo e confrade Carlos Jesus Ribeiro:

A partir de hoje, a Academia de Letras da Bahia passa a contar com o seu nome na galeria dos eleitos, acrescentando aos seus quadros a seriedade, a inteligência e a cordialidade de um dos mais destacados escritores da nova geração.

Caríssimo Carlos Ribeiro:
A praxe acadêmica prescreve que, neste discurso solene, eu o trate por “vós”, flexionando os verbos na segunda pessoa do plural, por cerimônia e formalidade. Entretanto, em se tratando de dois amigos fraternos, que convivem há 28 anos, com o respeito e o apreço de velhos companheiros de rua, peço licença para usar um pronome mais simples e cotidiano. E faço isso em nome desses anos de convivência e diálogo, nos caminhos da literatura, essa arte que nos tornou amigos e irmãos, e agora confrades.

Somos amigos desde 1979, quando, mal chegando à casa dos 20 anos, éramos estudantes de graduação na UFBA, em Letras e Comunicação, respectivamente. E nos falamos pela primeira vez num encontro literário, realizado na Biblioteca Central dos Barris. Por uma iniciativa de Adinoel Motta Maia, ali se realizava a primeira reunião dos escritores que iriam criar o Clube da Ficção, naquele mesmo ano. Éramos apenas jovens aspirantes em seus passos iniciais, naquela fase em que assomam os primeiros escritos e, junto com eles, a enorme dúvida em torno da verdadeira condição. Seríamos mesmo escritores?

O Clube da Ficção foi então fundado e funcionou por um curto, porém fértil, período. Por feliz coincidência ou vaticínio, nós nos reuníamos justamente na Academia de Letras da Bahia, na antiga sede do Terreiro de Jesus. E aqui estamos, 28 anos depois, no seio da Academia, para confirmar nosso convívio, agora como membros desta Casa de escritores e intelectuais. Juntos aos nossos demais confrades e confreiras, vamos continuar nosso trabalho de escritores, em nome dos ideais e dos objetivos da Academia de Letras da Bahia.

Senhoras e senhores:
Carlos Ribeiro chega ao convívio acadêmico, eleito como candidato único, para ocupar uma cadeira que tem a marca do carisma e do afeto do titular anterior, nosso saudoso confrade Guido Guerra. O próprio escritor e jornalista Guido Guerra, que o tratava por “Carlinhos”, tal o apreço que lhe devotava, considerava que ele devia ser o próximo escolhido desta casa. Quis o destino que isso se cumprisse de forma que Carlos Ribeiro viesse justamente honrar a memória do saudoso amigo, tornado-se o seu sucessor.

De fato, são muitos os méritos deste novo acadêmico. Nascido em Salvador, em 19 de agosto de 1958, Carlos Ribeiro é jornalista, ficcionista e professor. Graduado em jornalismo, é professor concursado da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Tem mestrado em Letras e, atualmente, conclui doutorado na UFBA. Carlos Ribeiro já enriqueceu a literatura baiana com seis livros publicados, além de participar de sete antologias e coletâneas. São seis títulos, enumerando uma produção que tem recebido as mais expressivas menções de apreço da crítica especializada, desde a estréia. Eis os seus livros: Já vai Longe o Tempo das Baleias, O Homem e o Labirinto, O Chamado da Noite, O Visitante Noturno, Caçador de Ventos e Melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga e o mais recente, o romance intitulado Abismo.
As antologias e coletâneas de que nosso autor participa são, desde as locais até as nacionais, em número de sete: Oitenta: poesia e prosa; Geração 90: Manuscritos de computador; Chico Buarque do Brasil; Antologia de contos e crônicas de autores baianos contemporâneos; Contos cruéis; Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa e Antologia panorâmica do conto baiano - século XX.

Como jornalista, são vários artigos publicados em periódicos de alto nível e credibilidade, além dos ensaios e resenhas publicados em revistas e suplementos literários. Fez, durante muitos anos, um excelente trabalho de divulgação científica, chegando a participar de expedições à Antártida, à região amazônica e, ainda, a diversas reservas naturais brasileiras. Como fundador e co-editor é responsável pelos treze números de Iararana – revista de arte, crítica e literatura, editada em Salvador, desde 1998.


Contista premiado por esta Academia em 1988, Carlos Ribeiro estreou em 1981, com o livro Já vai longe o tempo das baleias, volume 3 da histórica “Coleção dos Novos”, então editada por Myriam Fraga, com o apoio editorial de Zilah Azevedo, quando era diretor da Fundação Cultural do Estado da Bahia Geraldo Machado. Nos contos do primeiro livro, alguns ambientados na paradisíaca Itapuã dos anos 60, palco da infância do escritor, já desponta o ficcionista de talento, cuja imaginação recobre os enredos com peripécias impressionantes, com uma técnica narrativa que se iria desenvolver e se firmar em contos notáveis e antológicos dos livros posteriores.

Carlos Ribeiro é um escritor que se firmou através do conto e do ensaio e já marca forte presença também no romance. Seu nome figura entre os mais significativos da chamada geração 80-90, formada por jovens escritores que se encontram em fase de construção de sua obra e vêm sendo reconhecidos a cada livro que acrescentam ao panorama da literatura contemporânea.

Jornalista de grande interesse e visão em torno das questões ambientais, homem que traz em sua formação pessoal mais profunda a natureza pródiga de mar, lagoa, verde e dunas de Itapuã, Carlos Ribeiro traz para a escrita literária a sua experiência visceral, levando seus personagens a confrontarem situações marcadas pelas tensões do mundo urbano e pela consciência dos problemas da natureza em face das transformações impostas pela lógica do mundo moderno.

Hoje há um nascente interesse por uma literatura de viés ecológico, como campo a ser estudado e valorizado pelos estudos literários. Este escritor baiano é um nome importante nessa vertente, pois, desde seus primeiros contos, os seus narradores se posicionam em favor da natureza, valorizando seus seres, cores e formas, em ações e discursos contra os processos que a destroem. A velha Itapuã dos anos 60-70 é seu paradigma inicial, logo ampliado para as Ilhas da Baía de Todos os Santos, depois o Raso da Catarina, chegando, enfim, aos grandes Cânions gaúchos, onde se desenvolve o enredo do romance Abismo.


A literatura de Carlos Ribeiro dialoga de forma equilibrada com os conteúdos da realidade que lhe servem de estímulo e matéria. Como afirmei, num pequeno ensaio crítico: Na sua ficção “o real, como ponto de partida e matéria-prima, não se constitui em entrave para a literariedade nem submete o texto a ‘realismos’ descartados. Por outro lado, a ficcionalidade não rapta ninguém para fora do mundo, ao contrário, torna a realidade mais palpável e mais contundente, pondo em alerta as consciências adormecidas pelos barulhos do cotidiano moderno”. O que este escritor busca em sua literatura é acenar com as possibilidades de restaurar, ainda que por um momento, aquela essência humana que às vezes parece perdida, mas que é cada vez mais necessária no cotidiano pesado dos tempos controlados pelo relógio e pelos índices do mercado.

Depois do primeiro livro, Carlos Ribeiro, como muitos escritores, cumpriu uma temporada de aprendizagem, formação, leitura, vivências e indagações. Escreveu muitas reportagens ambientais para a prestigiosa Revista Geográfica Internacional e para os jornais, principalmente A Tarde. Viajou à Antártida, de onde escreveu artigos e produziu conhecimentos que depois propagou através de palestras; realizou diversas incursões pelo país, chegando até os ermos da Ilha de Marajó. Fez longas caminhadas por lazer, cultura e por necessidade existencial.

O homem Carlos Ribeiro amadureceu. Viajado por cidades e paisagens; intrinsecamente urbano e profundamente embebido de natureza; eis que volta a publicar ficção em 1995, com a coletânea de contos, significativamente intitulada O homem e o labirinto. São contos em que convivem elementos do fantástico, a angústia da solidão urbana, a desumanização da vida moderna – paredes sem teto, que configuram o tecido urbano como um labirinto, em que o minotauro é invisível e onipresente, porque fascina, captura e devora a todos. São 31 textos que deslizam entre ficção e poesia, como uma prosa existencial, filosófica, poética – e ao mesmo tempo de uma clareza e simplicidade exemplares.

Em 1997, essas questões reaparecem de maneira ainda mais vertical no romance O chamado da noite, publicado pela editora 7Letras, do Rio de Janeiro. Nessa trama, marcada pelo fluxo da consciência de um narrador solitário, encravado numa noite insone, uma consciência perquire os sentidos das experiências vividas. As peripécias do cotidiano e da vida afetiva compõem um narrador auto-referenciado, que, de certa forma, revela uma imagem dos jovens dos anos 80, que sofreram os limites e a repressão impostos pela ditadura militar, vivenciaram os movimentos estudantis, e buscaram se situar afetivamente em face da liberação da mulher e da superação de antigos valores, com a necessidade de se definirem um novo homem e uma nova mulher, numa era de maior liberalidade.

Em O visitante noturno, uma coletânea de 21 contos, os narradores e personagens imergem no mundo da imaginação, do fantástico e, às vezes do terror, vivendo situações entre o real e o nonsense, todos eles flutuando nas águas da condição do ser e estar no mundo, entregue aos perigos reais e imaginários que a todos rondam, assustam e ameaçam. Mais uma vez, Carlos Ribeiro se mostra atento às transformações do mundo contemporâneo, com profunda percepção crítica e domínio das tramas urdidas com técnica e talento singular. A realidade urbana em processo é a matéria-prima do ficcionista. Mas como afirmei, num pequeno estudo sobre esse livro “ele não se contenta com a simples transposição do real para a ficção. Recolhe as sugestões da realidade imediata e quebra sua lógica para expandir os sentidos ficcionais através da abordagem, dos diálogos e da linguagem. A feição e a atmosfera de seus contos se definem pelo ponto de vista do narrador, às vezes participante ativo, às vezes observador dos fatos. A forma de conduzir a história determina o tratamento temático e se torna fundamental para o leitor compreender as intenções e os efeitos dos enredos.”
Carlos Ribeiro usa bem sua imaginação de ficcionista criativo e fecundo. Em sua prosa encontramos sempre o diálogo entre a vida e a realidade, numa busca de sentidos pessoais, transcendentes e universais. Suas indagações e perplexidades não se tecem somente em cima de fatos e aspectos objetivos da realidade, mas também se aprofundam no questionamento da vida, em busca das imagens de uma existência possível, apesar das amarras e limites do mundo real.
Em 2001, veio a lume o livro Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga, resultado da dissertação de mestrado defendida na UFBA. Tivemos assim a oportunidade e o prazer de apreciar o ensaísta Carlos Ribeiro, em toda a sua força de análise e de percepção crítica. Com tirocínio de leitor, aparato teórico de estudioso e estilo de escritor, ele faz uma consistente apreciação da crônica como gênero na modernidade, e explica brilhantemente os fundamentos líricos da obra do grande cronista brasileiro Rubem Braga.

Finalmente, em 2004, a Editora Geração Editorial lançou o romance Abismo, no qual se descortina a saga de um jornalista em busca de um objeto sagrado, na região dos Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. Trata-se de uma empreitada que, muito além da aventura de uma viagem ao fundo de um cânion, é uma incursão no próprio ser, numa demanda existencial para encontrar o sentido fundamental da vida; aí simbolizado pela busca do “santo graal”. Uma jornada de aprendizagem, de superação do ceticismo, do convencimento filosófico, do crescimento intelectual. Uma ficção que se inscreve na simbologia das viagens e das travessias, quando, muitas vezes, o narrador encontra a si mesmo do outro lado, agora enriquecido com a experiência da própria busca. O sentido da vida, no fim da caminhada, é o abismo, o próprio abismo de viver.

Assim é este escritor, este jornalista, este pesquisador, este professor. Um homem simples, de um falar manso e compreensivo, capaz de ouvir calmamente as certezas do interlocutor, para, numa frase quase solta e aparentemente despretenciosa, fazer com que ele enxergue o outro lado de suas verdades, as outras faces das circunstâncias, as outras versões de cada momento que se vive.

A par de tudo isso, Carlos Ribeiro é um mestre. Um jovem mestre da vida e dos saberes simples da convivência e da natureza. Como tal, é reconhecido pelos seus irmãos de filosofia de vida, marcados pela força da União e da Solidariedade. Eis aqui um homem exemplar, que emprega a sua experiência e sua jovem sabedoria para, não apenas enfrentar as dificuldades e vicissitudes que a vida a ele, como a nós todos, impõe, mas sobretudo para, com despreendimento e afeto, ajudar pessoas, com uma palavra de incentivo, com a escuta empenhada, com um conselho solidário.

Caríssimo Carlos Ribeiro, sua presença nesta Casa nos honra e nos alegra, pois nos enriquece com a sua obra, o seu exemplo e sua juventude. Você vem se somar aos nossos diletos confrades e confreiras, todos conscientes de que as tradições permanecem vivas quando se deixam animar pelo dinamismo e pela renovação. Na Academia, cada nova posse cumpre um ritual que imortaliza os nossos antecessores e aponta para os nossos futuros sucessores. Todos sabemos que a imortalidade consiste não só em preservar a memória e a tradição, mas também em alimentar o processo de renovação dos ideais e dos compromissos. Toda instituição precisa cumprir essa meta para se manter viva, atuante, produtiva e atualizada com a sociedade de seu tempo. Uma Academia de Letras, conquanto devota da tradição de suas origens, não se pode furtar às evidências do tempo. E é pela vontade e pelos esforços de seus membros, desde os mais experientes até os neófitos, que ela se mantém dinâmica, produtiva, atenta às demandas culturais da sociedade em sua volta. Ela será sábia se souber atualizar sua pauta, seus objetivos e seus procedimentos, para sustentar o elo entre tradição e renovação, estimulando o diálogo entre as diferentes gerações, contribuindo efetivamente para a criação e a circulação dos bens culturais, sobretudo a nossa literatura. Você agora faz parte desse propósito e desse ideal.

Carlos Ribeiro, você recebe este colar acadêmico em reconhecimento aos méritos de escritor, jornalista e professor. E este ato é, antes de tudo, uma convocação. A Academia o convoca porque precisa de sua presença dinâmica e construtiva para, somando méritos e esforços com os demais membros que ora o recebem calorosamente, contribuir para elevarmos ainda mais a nossas tradições culturais, trabalhando com entusiasmo e dedicação pela valorização das letras baianas.

Caríssimo confrade Carlos Ribeiro, seja bem-vindo a nossa convivência fraterna e produtiva. A Academia de Letras da Bahia é também sua casa. Tome assento entre seus iguais, e trabalhe conosco, pelo engrandecimento da nossa cultura e das nossas letras.