ENTREVISTA SOBRE JORNALISMO NA BAHIA
“O
ENSINO PRIVADO É MANIPULADO
POR EMPRESÁRIOS INESCRUPULOSOS”
Como está o mercado de trabalho para jornalistas, hoje?
As informações sobre o mercado de trabalho para jornalistas,
na Bahia, são ainda bastante escassas. Uma pesquisa sobre o
perfil do jornalismo baiano, coordenada por mim e que conta com a
participação dos meus ex-alunos, Fábio Abreu,
Ingrid Dragone e Cinara Marback, deverá trazer informações
mais concretas sobre isto, mas os dados ainda estão para ser
avaliados e divulgados. Pode-se dizer, no entanto, que, se já
havia um percentual de desistência, há vinte e quatro
anos, quando me formei, atualmente o número de profissionais
que não serão absorvidos pelo mercado é, sem
dúvida, muito maior.
Um
grande percentual dos alunos formados pelas faculdades de jornalismo
hoje existentes no estado não continuará na profissão.
O que não é propriamente uma novidade: em todas as profissões,
há sempre um percentual de desistência. O problema é
que o número de faculdades de jornalismo aumentou muito nos
últimos anos e a oferta de trabalho, na grande imprensa, continua
praticamente a mesma, ou menor, considerando-se o enxugamento que
tem havido nas redações. Mas existe uma oferta de empregos
maior em outros segmentos, como os das assessorias de imprensa e,
inclusive, numa área ainda incipiente que é a das Ongs
e também a da comunicação digital, que vem crescendo
e promete muito.
Acredito
que quem tiver vocação, talento e persistência
certamente conseguirá o seu espaço, seja num jornal
diário, seja numa emissora de TV, seja numa assessoria de imprensa
ou abrindo sua própria empresa de comunicação.
O
que você acha das novas faculdades particulares? Acredita realmente
no potencial disponibilizado por essas instituições?
Acredito
no potencial técnico e material, mas tenho grandes dúvidas
do ponto de vista pedagógico, num sentido mais amplo, de incentivo
à visão crítica e à liberdade do pensamento,
que são cultivados num ambiente acadêmico arejado e comprometido
com a coletividade. Devemos lembrar, nesse sentido, a advertência
do professor Milton Santos, para quem a aproximação
das empresas com a universidade “é a coisa mais perversa
que existe”, é “a morte do pensamento”. Isto
porque a universidade pública é o último segmento
de resistência ao domínio do Mercado.
Existem
faculdades particulares sérias e eficientes, mas há,
nelas, uma distorção básica, que é o comprometimento
prioritário com o lucro, deixando o ensino em segundo plano.
Isto ocorre aqui, em Salvador, onde se verificam algumas experiências
desastrosas, em vários níveis, inclusive no desrespeito
a direitos trabalhistas elementares dos professores e funcionários,
e, conseqüentemente, dos alunos. Se uma instituição
de ensino não respeita o seu corpo docente, o que se pode esperar
dela? Um exemplo gritante disto é o empenho dessas faculdades
para que seus cursos possam ser reconhecidos pelo MEC. No entanto,
quando o curso é reconhecido, desmontam toda a estrutura que
foi construída, a duras penas, demitindo os professores mestres
e doutores e colocando muitas vezes professores iniciantes e/ou despreparados
no lugar daqueles. Não dá para entender como o MEC não
prevê uma pena severa para esses casos.
O
fato é que o ensino privado está bastante suscetível
hoje à ação de pessoas inescrupulosas, que dirigem
faculdades como se tratassem de fábricas de sabonete, na melhor
das hipóteses. E os governos, o que fazem? Muito pouco! O que
configura cumplicidade ou omissão. O envolvimento de educadores
do MEC com muitas instituições da iniciativa privada
nos fazem pensar no alerta feito pelo professor Milton Santos –
o que é grande motivo de preocupação. Mas, vale
dizer, por outro lado, que há, nessas instituições,
professores, coordenadores de cursos e mesmo diretores competentes
e responsáveis, mas que são impotentes nas decisões
em nível macro. Graças ao empenho de um ou outro diretor
esclarecido, dos professores e de um bom investimento em termos de
equipamentos, muito maior, às vezes, do que nas universidades
públicas, há a possibilidade de o aluno, se quiser e
se esforçar, conseguir uma boa formação profissional.
Temos vários exemplos de ex-alunos da FTC que já estão
atuando no mercado de trabalho, com talento, reconhecimento e prestígio.
No momento em que o jornalista for passar por uma seleção
para um emprego, a instituição de ensino em que foi
obtida sua formação superior é avaliada? De que
maneira?
Não
existe uma avaliação, mas sim uma exigência de
que o curso seja reconhecido pelo MEC. Ou seja, de que o diploma expedido
por ela tenha validade legal. E há também o prestígio
da instituição, o peso da sua tradição.
Uma universidade pública federal, como a Ufba, por exemplo,
tem uma força maior que sem dúvida alguma pesa muito
mais no currículo do que muitas dessas faculdades particulares
que se multiplicam por aqui, de forma indiscriminada. Inclusive porque
a seleção para entrar numa instituição
como aquela é mais rigorosa, além da exigência
ser maior para cursá-la. Mas vale ressaltar que a queda do
nível cultural dos alunos, em toda parte é, hoje, um
fenômeno generalizado.
Qual
o obstáculo mais difícil para uma pessoa que vai ingressar
na profissão?
É
não levá-la a sério. Ou seja, não preparar-se
devidamente para ela, estudando, praticando, desenvolvendo uma base
cultural mais sólida, assumindo a vocação. Ou,
pior, se a pessoa não tiver a vocação, se escolheu
o ofício apenas porque não achou outro melhor ou porque
acha bonito ser repórter de TV, por exemplo. É grande
o número de jovens que chegam às faculdades de jornalismo
querendo ser um William Bonner e uma Fátima Bernardes, às
vezes sem ter uma noção elementar do que é a
profissão. O glamour da profissão é um canto
de sereia. Existem as dificuldades objetivas, do mercado de trabalho,
mas se a pessoa estudar e trabalhar seriamente, com certeza poderá
realizar-se na profissão.
Que
fatores acrescentam "bagagem" ao jornalista?
A
prática profissional, sobretudo. Saber inglês hoje é
importante em qualquer área. Afinal de contas vivemos no tal
mundo globalizado. É sempre bom participar de cursos, seminários
e congressos que possibilitem uma atualização. Acho
importante também que se faça uma pós-graduação
(mestrado e doutorado), pois a vida acadêmica é um segmento
muito importante. No meu caso, por exemplo, o mestrado em Letras me
ajudou no sentido de me referenciar como especialista na área
de Literatura. E não tenham dúvidas de que aprendo muito,
também, com vocês, alunos. Ensinar é uma forma
de nos atualizarmos constantemente.
Em
que áreas um jornalista pode atuar depois de formado, além
de empresas jornalísticas e assessorias de imprensa?
Existe um mercado em expansão que é o das Organizações
Não Governamentais, que vem empregando jornalistas. Temos alguns
exemplos aqui em Salvador, como a Rede Cipó, que tem contratado
profissionais jovens, recém-saídos das faculdades. A
comunicação empresarial é outro filão
que vem se desenvolvendo gradualmente. Em alguns casos, o trabalho
do jornalista tem se aproximado bastante de outras áreas, a
exemplo do marketing e das relações públicas.
E há o jornalismo digital, bastante promissor.
Vale
lembrar que a profissão envolve diversas funções,
além das mais conhecidas, de repórter, editor, copidesque
e chefe de reportagem. Dentro da redação de um jornal,
o jornalista pode ser revisor, pauteiro, subeditor, fotógrafo,
cartunista, diagramador, editorialista etc. Em TV e rádio,
pode ser repórter, cinegrafista, pauteiro, produtor, locutor.
Como repórter pode atuar de forma independente, como free-lance
ou em organizações menores, a exemplo de jornais de
bairro, Ongs, assessorias de imprensa. Pode também se especializar
numa determinada área, escrevendo artigos, crônicas e
ensaios para jornais e revistas. Para isto, aliás, não
precisa necessariamente passar por uma faculdade de jornalismo.
Um
profissional de jornalismo, no exercício de sua função,
pode atuar em várias editorias dentro de uma redação?
Ou ele precisa escolher e se fixar numa só área?
Geralmente ele atua numa editoria, podendo passar sucessivamente para
outras. Antigamente (acho que isto mudou um pouco hoje), o jornalista
começava a atuar, como “foca”, quase sempre na
editoria de polícia, passando depois para a Geral, até
chegar a segmentos mais especializados, como os de política,
cultura e economia. Mas, mesmo que ele atue numa editoria específica,
nada impede que ele faça matérias para outras editorias,
se necessário. Alguns jornais, atualmente, colocam o repórter
(de texto e de fotografia) para atuar em sistema de rodízio
dentro das redações.
Por que a faculdade não incentiva os alunos a fazerem
estágio em jornalismo? Desde que comecei a estagiar me deparei
com o preconceito de alguns professores que me diziam: “Você
trabalha como repórter? Como, se você não é
formado?”
A
faculdade não pode fazer isto pelo simples fato de que o estágio
em jornalismo é ilegal. Refiro-me ao estágio não
supervisionado, não direcionado para o aperfeiçoamento
profissional do aluno. É, inclusive, uma prática que
vem sendo denunciada e combatida (fracamente, diga-se de passagem)
pelo Sindicato dos Jornalistas, considerando-se que, apesar de ilegal,
vem sendo praticada por muitas empresas. Em alguns casos, como os
de algumas emissoras de rádio, contratando os estagiários
como radialistas.
Muitas
instituições também utilizam o trabalho de pessoas
não formadas nas áreas de assessoria de imprensa, mas
sempre utilizando algum subterfúgio que as livrem de um processo
pelo sindicato. A questão é complexa: se, por um lado,
é interessante ao estudante estagiar, como forma de aprender
a profissão na prática e também de conseguir
algum dinheiro que possibilite, inclusive, um reforço no pagamento
dos seus estudos, por outro prejudica bastante a profissão,
na medida em que muitos empresários preferem “contratar”
os serviços de estagiários, pagando muito abaixo do
piso salarial de um profissional. E, quando o aluno se forma, ele
simplesmente o demite para contratar outro estagiário –
o que prejudica ainda mais o mercado de trabalho já tão
problemático.
O
Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) e algumas faculdades,
segundo ouvi, estão estudando a possibilidade de estágio
não remunerado, orientado pelos professores, a partir do 5º
semestre. Estágio este que possibilite o aprendizado prático
dos estudantes no mercado de trabalho, sem submetê-lo à
exploração de patrões inescrupulosos. Enquanto
isto, o único recurso legal permitido às escolas é
a utilização do jornal.
A Bahia tem espaço para o jornalismo investigativo?
Sem
dúvida que sim. O que falta é interesse dos jornais
de investir nessa área. O jornalismo investigativo custa caro,
porque exige manter um ou mais profissionais durante vários
dias, semanas ou até meses numa mesma pauta. E “custa
caro”, também, na medida em que, muitas vezes, pode ir
mais a fundo nas causas dos acontecimentos do que interessa aos donos
dos jornais.
A
princípio, toda a atividade jornalística é investigativa,
já que implica no levantamento de dados e informações.
Mas, com o tempo, o conceito de “investigação”
passou a ser associado a denúncias de fatos e acontecimentos
irregulares (escândalos políticos, por exemplo) ou mesmo
a crimes. Atividades, portanto, que exigem um grau maior de coragem
e persistência dos repórteres. Mas, de uma forma geral,
a atuação desse tipo de profissional é muito
escassa e precária aqui em Salvador, embora o campo seja enorme.
Na
verdade, é muito grande a quantidade de informações
(às vezes escabrosas) que circulam nas redações,
em relação ao que se veicula nos jornais. O jornalista
sempre sabe mais do que publica. Mas a quem interessa, de fato, cavar
essas informações? E com que respaldo, já que
os donos dos meios de comunicação têm um comportamento
ambíguo, quando não declaradamente comprometido com
os poderosos de plantão e sua rede de relações
na sociedade? Poucos têm coragem de “ir ao fundo da lagoa,
onde está o jacaré”.
Qual a sua formação? Você acha necessário
o diploma para o exercício da profissão jornalística?
Sou
graduado em Comunicação com Habilitação
em Jornalismo, pela Ufba (1977-1982) e pós-graduado em teoria
da literatura pelo Instituto de Letras, também da Ufba. Fiz
o mestrado e atualmente estou fazendo doutorado sobre o mesmo tema:
a obra do cronista Rubem Braga. Quanto ao diploma, não acho
que ele seja necessário para o bom exercício da profissão,
mas creio que a sua não-exigência, nas atuais circunstâncias,
poderia ter alguns resultados negativos: primeiro, saturando ainda
mais o mercado. Imagine se, além do grande número de
profissionais que serão formados, nos próximos anos,
pelas faculdades, se somar toda e qualquer pessoa que se ache apta
a ser jornalista? Segundo, por possibilitar aos donos das empresas
reduzirem ainda mais os salários, tendo em vista a grande oferta
de mão de obra. E em terceiro, enfraquecendo ainda mais a qualidade
dos profissionais, que não terão o suporte dado pelas
faculdades (refiro-me aqui às boas faculdades), tanto em termos
da técnica quanto da ética jornalística. Claro
que, a rigor, não são as faculdades de jornalismo que
fazem um bom profissional, como se pode ver através dos inúmeros
exemplos de grandes jornalistas que nunca passaram por uma faculdade.
Mas, acho que vivemos hoje um momento diferente de há 30, 40
anos, um novo contexto que exige, diante da grande concorrência
do mercado, uma melhor qualificação.
Carlos,
como foi o seu primeiro emprego na área? Você já
estava formado? Se sentia preparado?
Eu
nunca me senti preparado para fazer nada. Todo trabalho é um
desafio novo e a resposta só vem mesmo quando o concluímos.
Não me sentir preparado é uma forma de me manter alerta,
de me aprimorar continuamente, de estar sempre me preparando. Meu
primeiro emprego foi no Departamento de Literatura da Fundação
Cultural da Bahia, quando eu era ainda estudante, mas antes disso
– logo na primeira semana em que comecei a freqüentar a
Faculdade de Jornalismo da Ufba –, estagiei como repórter
de polícia na Rádio Sociedade e como repórter
de Geral no Jornal da Bahia. Como era de se esperar, fui péssimo
em ambos os trabalhos, pois não sabia escrever sequer um lide,
mas senti o gostinho da profissão, de bater pernas pela cidade,
de acompanhar de perto a vida de seus habitantes. A experiência,
embora infrutífera do ponto de vista do aprendizado da profissão,
foi valiosa como experiência humana – e como uma prévia
do que me esperava. Depois, já quando estava perto de me formar,
aceitei o desafio de fazer uma grande reportagem para a Revista Geográfica
Universal sobre o artesanato do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Passei um mês viajando com o fotógrafo Luiz Cláudio
Marigo e, depois de muitas dificuldades e muito sofrimento, consegui
fazer uma matéria que, mais tarde, viria a servir como referência
principal para um texto escrito para uma publicação
por Fernando Sabino, que a elogiou bastante.
Que conselho você dá aos estudantes que pretendem trabalhar
com meio ambiente ?
Ler
bastante e começar a praticar, procurando entender e dominar
uma linguagem que é especializada, sobretudo se você
for fazer um trabalho de divulgação científica.
Assim, aos poucos você forma um nome, tornando-se uma referência
numa determinada área. É importante também ter
bons contatos com periódicos especializados. No meu caso, o
que ajudou bastante foi a minha amizade com o fotógrafo de
natureza Luiz Claudio Marigo, que já fazia matérias
para a Revista Geográfica. Foi através dele que tive
acesso à publicação. O importante é perceber
qual a sua tendência, qual a área que mais lhe atrai
e, pouco a pouco, ir conquistando seu espaço nela.
Qual foi a experiência jornalística mais marcante
que você vivenciou durante o período em que foi correspondente
da Revista Geográfica Universal ?
Eu
não fui correspondente da Geográfica, mas sim um repórter
free lance que publicava de vez em quando na revista. Fiz matérias
sobre regiões naturais, a exemplo dos parques nacionais das
Emas, em Goiás, e da Chapada Diamantina, na Bahia; do Parque
Natural do Caraça, em Minas, e da Estação Ecológica
do Mamirauá, no Alto Amazonas. E, também, sobre o artesanato
do Ceará e do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas. Mas,
sem dúvida alguma, a experiência mais marcante foi mesmo
a minha participação na expedição à
Antártida, em 1986. Permaneci dois meses no Continente Gelado,
acompanhando e divulgando o trabalho dos cientistas (ocenógrafos,
geólogos, metereologistas e ornitólogos) e dos militares,
na Estação Científica Engenheiro Wiltgen e num
refúgio, na Península Antártica, além
do navio Barão de Teffé, onde fiquei a maior parte do
tempo. Foi muito interessante, também, as visitas às
estações científicas da Rússia, China,
Chile, Polônia e Estados Unidos.
Naquela
época os recursos tecnológicos eram muito precários
se comparados ao mundo tecno-digital de hoje. Como você fazia
para enviar as matérias já que muitas vezes estava trabalhando
em expedições ecológicas?
Geralmente
eu as escrevia em casa, na minha pequena máquina de escrever,
quando voltava das viagens. Só na Antártida foi que
as enviei através do telex, que é um sistema hoje obsoleto
diante das facilidades do computador e da internet. Tive que tomar
um curso para saber utilizar o equipamento e era muito trabalhoso,
porque eu tinha que... Mas, tinha o que mesmo? Sabe que nem lembro
mais! A experiência parece fazer parte da pré-história
da profissão – e pensar que faz apenas 20 anos que ocorreu!
Você
já se referiu algumas vezes ao jornalismo sem muito incentivo,
ao dizer que o trabalho é grande e o retorno financeiro não
é satisfatório. A sua permanência na profissão
seria por prazer do trabalho, por conformismo ou você não
se encaixa no que diz?
Eu
permaneço na profissão porque é esta a minha
vocação, porque é isto o que eu sei fazer melhor
e porque foi a isto que dediquei grande parte da minha vida. Gosto
de escrever, sim, mas não necessariamente o que um editor me
manda escrever e na hora que ele quer que eu escreva. Se fosse me
dada a oportunidade de escolher, adoraria escrever romances e contos
de aventura – de preferência encomendados, a peso de ouro,
por grandes editoras nacionais e internacionais, numa varanda espaçosa
de uma casa de praia, de frente para o mar, apreciando as baleias
passarem no horizonte. [rs] Ainda não posso fazer isto, mas
não me queixo, pois foi esta mesma profissão que me
possibilitou percorrer – realizando reportagens para algumas
revistas especializadas em natureza e divulgação científica,
no Brasil e no exterior – algumas das mais belas paisagens naturais,
a exemplo dos parques nacionais e reservas ecológicas de Abrolhos,
Emas, Lençóis Maranhenses, Aparados da Serra, Chapada
Damantina, Aiuaba, Caraça, Monte Pascoal, Mamirauá (Amazonas)
e Antártida, onde meus olhos viram cenas testemunhadas por
muito poucas pessoas. O jornalismo me possibilitou – e espero
que ainda me possibilite – experiências valiosas que geralmente
não são proporcionadas por outras profissões,
de forma que não tenho do que me queixar.
Não
concordo, entretanto, quando você diz que já me referi
ao jornalismo “sem muito incentivo”. Mostrar a realidade
da profissão para o aluno não é fazer com que
ele perca o incentivo. O objetivo é o de abrir-lhe os olhos
para que ele não seja pego desprevenido ou enganado por uma
visão idealista e glamourosa da profissão, o que poderia
lhe causar uma grande decepção mais tarde. Daí
a insistência com que falo da importância de fazer uma
pós-graduação para que ele possa complementar
seu salário ensinando numa faculdade, como estou fazendo. O
que é uma prova de que também me encaixo (esta palavra
me faz sentir um tanto apertado) no que digo.
Mudando totalmente o foco... Gostaria de saber sua opinião
sobre a questão da objetividade no jornalismo. Você acha
que a chamada objetividade jornalística é um mito?
Pode-se
dizer que é um mito, mas tendo em vista que existem, sim, abordagens
mais ou menos objetivas. O que acontece é que muitas vezes
se confunde a objetividade com o empobrecimento da linguagem, quando
esta se desvencilha de seus recursos metafóricos. É
uma besteira dizer, por exemplo, que uma mera notícia, construída
com uma linguagem exclusivamente referencial, é necessariamente
mais “objetiva” que um texto cujos recursos poéticos
acrescentem o ponto de vista e a subjetividade do autor. Eu abordo
essa questão no meu livro sobre Rubem Braga. Transcrevo, inclusive,
trechos de reportagens dele, na Itália, durante a II Guerra
Mundial, nos quais recursos poéticos tornam os textos, a meu
ver, muito mais objetivos dos que os de uma mera descrição
referencial. Mas trata-se de assunto complexo e dos mais importantes
para compreendermos a questão da linguagem.
Não
vejo encanto e acho que não tenho talento nem paciência
para me dedicar ao jornalismo dos fatos diários, que corre
atrás de notícias e produz matérias em série.
Gostaria, portanto, de fazer algumas perguntas: que outras opções
existem para mim e no que devo investir para ter acesso a elas? Quais
as formas e as chances de integrar redações de revistas
mensais? As revistas que não são essencialmente jornalísticas
são escritas por jornalistas?
Não vejo muitas opções nesse sentido em Salvador.
Que eu saiba, não existe nenhuma publicação desse
gênero que, além de publicar textos especializados –
por exemplo, nas áreas das artes, da literatura, da moda, do
turismo, de economia ou de variedades –, pague bem por eles.
Daí a necessidade de cavar espaços fora, em outros estados,
o que é difícil, mas não é impossível,
principalmente para quem tem um bom texto. Eu, de certa forma, passei
por essa mesma dificuldade até descobrir que, ao contrário
do que eu pensava, tinha algum talento também para o jornalismo
diário – e que me dava prazer fazê-lo. Incrível,
mas vim descobrir isto após 17 anos de profissão! Antes
eu só publicava reportagens especiais, geralmente pautadas
por mim mesmo (o que não deixa de ser uma opção
para quem não goste da ralação do dia-a-dia).
No meu caso, tive o privilégio de publicar em revistas nacionais,
como a Revista Geográfica Universal, Horizonte Geográfico
e Ciência Hoje, e internacionais, como a Geomundo (EUA) e BBC
Wildlife (Inglaterra), mas eram sempre publicações esporádicas,
como free lance, e mal remuneradas, o que não me dava a mínima
condição de viver disso. Mas vale lembrar que essa minha
experiência ocorreu na era pré-internet, quando os contatos
eram muito mais difíceis. O que recomendo é que você,
em primeiro lugar, identifique qual a área que você gostará
de atuar, pesquise as publicações especializadas nela,
e entre em contato com os editores, propondo colaborações.
É importante que, pouco a pouco, você associe o seu nome,
como referência, a um determinado tema, de forma que as pessoas
se lembrem de você quando quiserem um trabalho naquela área.
A qualidade do seu trabalho fará o resto. E ainda há
a possibilidade de você mesma criar sua publicação,
que pode começar com um site ou um blog até tornar-se
um veículo impresso.
Quanto à última pergunta, o que geralmente se exige
é que toda publicação tenha um jornalista responsável,
inclusive com o registro do DRT. Mas, quanto aos colaboradores, não
há propriamente uma exigência de que sejam jornalistas.
Por exemplo, um médico pode escrever artigos sobre medicina
numa publicação especializada, o mesmo podendo acontecer
nas áreas de direito, economia, literatura etc.
Com a má remuneração e com a desvalorização
do trabalho jornalístico ainda dá para existir ética
profissional nesse setor da comunicação social?
Não
existe justificativa para a falta de ética. Mesmo porque a
falta de ética, no sentido da disputa e da concorrência
mais selvagens, ocorre em segmentos e categorias muito bem remuneradas.
Se fosse assim, todo pobre seria antiético e os ricos éticos.
Mas não há dúvida de que uma remuneração
digna e a valorização da profissão, aliadas a
princípios e valores morais sólidos contribuem para
um ambiente profissional mais saudável. Mas o ponto principal
da equação são esses valores – e não
a remuneração propriamente dita.
O
que considero fundamental é que comecemos a recuperar alguns
valores que a nossa sociedade utilitária e mercantilista procura
minimizar ou envolver numa rede de falsas verdades e meias verdades.
E os próprios críticos dessa sociedade de consumo também
contribuíram nesse processo, como se diz, “jogando a
água suja da bacia fora com criança dentro”. Nos
últimos trinta anos, muitos valores importantes foram jogados
fora juntamente com suas caricaturas: a autoridade com o autoritarismo;
a moral com o moralismo, e por aí vai. O que acho fundamental,
hoje, é não somente lutar por uma boa qualidade de vida,
mas também por uma cultura que não mais valorize a esperteza
e a malandragem. Aquela tal Lei de Gerson, de que “o melhor
é levar vantagem em tudo”.
Qual o principal critério a ser utilizado durante a
escolha das matérias que podem vir a participar do jornal laboratório
Paralelo 12?
O
principal critério é sempre a relevância jornalística
do fato ou acontecimento. Ou seja: que importância a informação
tem para o leitor. No caso específico do Paralelo 12, damos
especial relevância aos acontecimentos da cidade de Salvador
que não estão sendo explorados pela mídia (jornais
diários e TVs). Damos ênfase também ao que acontece
de interessante nos bairros periféricos, bem como a iniciativas
de grupos, pessoas, organizações etc., que trazem algo
de novo. E, no caso de tratar de temas que já são abordados
na mídia, procuramos fazê-lo por um ângulo diferente,
que lance uma luz em questões que ainda não foram exploradas.
Além disso, tratamos de questões que sejam de interesse
do público universitário.
Em
algum momento você pensou em desistir de ser estudante de jornalismo?
Teve dificuldades em achar estágios, empregos ou em permanecer
neles? Para a sua colocação profissional foi necessária
alguma indicação?
Sim,
em vários momentos pensei em desistir. Quando era estudante
cheguei a largar a faculdade para viajar, com um amigo, sem destino,
pelo interior do norte e nordeste do país. Chegamos até
a Ilha de Marajó, no Pará, e retornamos por não
termos mais como seguir adiante sem correr um sério risco de
vida. Pensei em desistir do curso, em fazer história, psicologia,
filosofia, em abrir um bar! E mesmo depois de formado, já veterano
no ofício, passei por uma forte crise em relação
à profissão, que por sinal já me tinha dado tantas
experiências maravilhosas. Finalmente, em 1999, fiz mestrado
em Letras, comecei a trabalhar no jornal A Tarde e concluí
que serei jornalista até morrer, mesmo que não volte
a trabalhar em jornal. Acho que ser jornalista não é
apenas exercer uma profissão, mas uma forma de olhar o mundo.
Quanto à sua outra pergunta, posso dizer que nunca tive dificuldade
para arranjar emprego ou para me manter nele. O que tive foi dificuldade
de arranjar um emprego que me desse uma remuneração
à altura do que acho que um jornalista merece.
Quando vamos fazer matérias de "cultura",
temos que falar bem de uma banda que é muito ruim. Então,
pra que existe jornalista de cultura?!
Não
existe, em nenhum jornal, essa obrigatoriedade de se falar bem dessa
ou daquela banda. O que pode acontecer é que os repórteres
que atuem na área cultural não exerçam uma função
mais crítica e promovam qualquer bobagem que apareça
pela frente. Isto se dá, muitas vezes, por incompetência;
outras, por conveniência, para não perder privilégios.
Há muitos problemas desse tipo nas redações,
cujos cadernos “B” deixaram de exercer uma função
cultural para serem meros divulgadores de grupos e espetáculos,
sem qualquer critério crítico ou ético.
Há
também duas questões que devem ser ressaltadas: a primeira
é que existem poucos repórteres preparados para exercer
uma função crítica, o que exige uma grande responsabilidade
e uma postura ética rigorosa. Hoje em dia, um jovem, recém-chegado
às redações, recebe de mãos beijadas o
poder de emitir opiniões decisivas sobre peças, filmes,
livros e espetáculos de diversas naturezas, sem que tenha qualquer
formação específica na área sobre a qual
escreve. A segunda é que muitos confundem a crítica
– que deve ser justa e criteriosa, jamais ofensiva ou humilhante
– com uma atitude agressiva e covarde de desancar e destruir
trabalhos que demandaram muito esforço para serem realizados.
É
verdade que muitos jornalistas não querem se indispor com pessoas
no meio em que atuam, principalmente numa cidade ainda provinciana,
como Salvador, onde as pessoas freqüentam os mesmos lugares,
conhecem as mesmas pessoas. Mas, por outro lado, penso que o jornalista
deve exercer o poder que tem com muito cuidado, pois, inclusive, muitas
vezes, como diz o ditado, o feitiço pode voltar contra o feiticeiro.
A
TV Globo tem o hábito de utilizar, em suas matérias
investigativas, jornalistas se passando por alguém interessado
em usufruir algum negócio fraudulento, além do suporte
de câmeras escondidas e tudo o mais, para fazer uma denúncia.
Em seu livro [A arte de fazer um jornal diário], Noblat faz
severas críticas a esse procedimento, alegando ser antiético.
Mas em determinadas circunstâncias, ficaria difícil ou
até mesmo impraticável se reunir dados que possam servir
como provas, sem usar esses recursos. Cito o exemplo da máfia
dos carros recuperados, que veio ao ar no Fantástico e que
gerou constrangimento às seguradoras, pois muitas delas estavam
envolvidas na fraude. O caso foi parar nos tribunais. A pergunta é:
de que maneira um jornalista é profissional: no momento em
que ele leva ao conhecimento da sociedade uma prática corrupta
de determinado órgão, ou sendo politicamente correto
quanto às possibilidades de obter as provas do crime? Não
me refiro aos excessos. E ressaltando também que não
sou tiete da TV Bobo.
Esta
é uma questão bastante polêmica e não existe
unanimidade em relação a esses procedimentos. Questionado
por mim, numa palestra, sobre a utilização de câmera
oculta em reportagens investigativas, o repórter Domingos Meireles,
da TV Globo, colocou a seguinte questão: seria realmente ético
não revelar um crime que lese dezenas ou centenas de pessoas
por não querer usar a câmera oculta, quando não
há outro meio de desmascarar os criminosos? Por outro lado,
eu questiono: será que cabe mesmo à imprensa fazer um
trabalho de investigação que deveria ser feito pela
polícia? Mas, e se a polícia estiver sendo conivente
com o caso? Então, como vê, estamos diante de um problema
sério, de falência das nossas instituições,
que deve ser encarado por toda a sociedade.
O
problema, quando a imprensa utiliza-se de uma mentira para denunciar
os criminosos, é a mensagem subliminar que passa para a sociedade:
então, não existem limites éticos também
para os jornalistas? E, se não existe para ela, porque vai
existir para o telespectador? De repente, começa a valer o
princípio maquiavélico de que “os fins justificam
os meios”, o que é um grande perigo. Acho que esses expedientes
podem funcionar de forma localizada, neste ou naquele caso, mas não
é isto que vai resolver o problema. O que eu posso lhe dizer
é que eu, pessoalmente, não me disporia a mentir e a
passar por uma outra pessoa, para realizar uma reportagem. Nem aconselharia
ninguém a fazer isto, mesmo porque é uma prática
que envolve um alto risco, como mostra o exemplo de Tim Lopes.
Qual
a abrangência do curso de jornalismo, no que diz respeito à
pós-graduação?
A
pós-graduação na área de jornalismo habilita
o aluno a ensinar numa faculdade ou universidade, o que já
é uma opção a mais em termos salariais. Com o
mestrado e o doutorado, o jornalista pode ampliar suas perspectivas
profissionais, não somente na área do ensino, como também
na realização de projetos de pesquisa, além de
ampliar e aprofundar seus conhecimentos sobre um determinado tema,
especializando-se. E tem um detalhe: você pode fazer pós-graduação
em outro curso da mesma área que a sua. Eu, por exemplo, fiz
mestrado em teoria da literatura, o que me habilita a ensinar também
nos cursos de Letras. Recomendo enfaticamente aos alunos que façam
mestrado e doutorado, pois, ao contrário do mercado especificamente
jornalístico, que está recessivo, o do ensino nessa
área, como vocês mesmos podem ver, está em franca
expansão, não sei até quando.
O
que atrai muitos jovens para a profissão de jornalista é
o mito do profissional como um herói. Tanto na mídia
quanto na realidade temos exemplos de repórteres que fazem
jus a essa imagem. A pergunta é: quando, onde e por que se
criou este mito em relação a esta profissão?
Creio
que ele teve origem nos primórdios da profissão, no
século XIX, talvez por ter sido associada ao desvendamento
de casos misteriosos, à investigação e à
busca da verdade. É, talvez, um eco do romantismo que persiste
até os nossos dias. Certamente, a literatura e o cinema contribuíram
muito para a consolidação dessa imagem, em função
dos correspondentes de guerra e de jornalistas escritores, tais como
Ernest Hemingway, Jack London, Graham Greene e John Reed, que tiveram
uma vida movimentada e aventureira. Basta dizer que grande parte dos
grandes feitos, das grandes explorações, das revoluções,
guerras e guerrilhas, sempre foram testemunhadas por jornalistas.
Aqui no Brasil tivemos o Euclides da Cunha, que cobriu a guerra de
Canudos para o Estado de São Paulo; Rubem Braga, que cobriu
a Revolução Constitucionalista de 32 e a Segunda Guerra
Mundial, com outro importante jornalista, Joel Silveira; Fernando
Gabeira, que entrou de cabeça no movimento de guerrilha contra
o regime militar, entre muitos outros.
O
jornalismo é essencialmente uma profissão voltada para
a vida das ruas, longe dos escritórios assépticos e
da vida sedentária. Vale lembrar que quem deu início
à crônica moderna foi também um jornalista, João
do Rio, que trouxe pela primeira vez, no início do século
XX, para as páginas dos jornais, a vida cotidiana das ruas
do Rio de Janeiro.
Você
concorda que uma boa redação só pode ser alcançada
com a prática constante da leitura?
Em
geral, sim. Pode haver exceções, mas acho que elas só
fazem confirmar a regra. Para escrever bem é necessário
que se tenha intimidade com as letras – e essa intimidade exige
muitas leituras. Não qualquer leitura, claro, mas o contato
com bons autores. É preciso não somente ler jornais
e revistas, mas livros nas áreas de literatura, filosofia,
psicologia, sociologia, história etc. É preciso estudar
não apenas as idéias, mas também os estilos dos
autores. Ver os recursos que eles utilizam para exprimir suas idéias
com clareza, profundidade, elegância. Freud e Jung, por exemplo,
são (coloco o verbo no presente porque eles continuam vivos
em suas obras) grandes escritores. Ler autores como Graciliano Ramos,
Rubem Braga, Ernest Hemingway, Isaac Bábel, Henry James, Gabriel
Garcia Márquez, Jorge Luiz Borges, Guimarães Rosa, Euclides
da Cunha e Ariano Suassuna, entre muitos outros, é um grande
trunfo para quem quer ganhar a vida escrevendo. Vencidas as primeiras
barreiras, do ócio e do comodismo, a leitura remete a um prazer
intenso e nos traz grandes compensações.
Qual
a dificuldade de publicar e divulgar um livro num país que
não tem muitos leitores?
Hoje,
com o desenvolvimento das novas tecnologias de computação,
já não é tão difícil publicar um
livro, basta ver a grande quantidade de lançamentos que acontece
semanalmente em Salvador. Difícil é publicar por uma
grande editora, em nível nacional, que faça uma boa
distribuição, coloque o livro nas livrarias e faça
um marketing adequado do autor e da obra. A grande maioria dos livros
que é publicada cai logo no esquecimento e não chega
às mãos dos leitores. Por isso, é importante
que o autor consiga romper essas barreiras para se tornar conhecido.
Isto ocorre geralmente de forma lenta, depois de muitos anos de trabalho
duro. Vale dizer que, ao contrário do jogador de futebol profissional,
que começa aos 17 e se aposenta com trinta e poucos anos, o
novo escritor geralmente está na casa dos 40 quando começa
a consolidar seu nome. Dois bons exemplos disto são Graciliano
Ramos e Guimarães Rosa, que publicaram seus primeiros livros
depois dos 40 anos de idade.
Numa
reportagem, o uso do gravador pode prejudicar a veracidade do depoimento
do entrevistado, por ele se sentir inibido?
Em
alguns casos, sim. Cabe ao jornalista avaliar a necessidade do uso
desse instrumento. Mesmo porque dá um trabalho muito grande
transcrever as declarações. Costumo usá-lo apenas
quando se trata de um entrevistado importante, cujo depoimento deve
ser preservado; num depoimento cujo linguajar do entrevistado tenha,
digamos, um interesse antropológico ou coisa semelhante, ou
seja, quando não me interesse apenas o que ele diz, mas como
ele diz; quando a entrevista tem que ser feita rapidamente, às
vezes em pé, em meio a outras pessoas, na saída de um
evento; ou ainda quando se trata de um tema delicado, no qual a gravação
possa servir de prova, caso o entrevistado resolva depois negar o
que disse. Uma forma do jornalista se preservar. No dia a dia mesmo,
acho muito melhor usar o papel e a caneta, ou, diretamente, a tecla
do computador.
Você acha que quatro anos é tempo suficiente para preparar
alguém para o curso de jornalismo, já que a turma se
mostra desinteressada?
Sem
dúvida. Quatro anos é tempo mais que suficiente para
que o aluno possa capacitar-se, em termos práticos e teóricos,
para o exercício da profissão. Isto implica, naturalmente,
num adequado aprendizado das técnicas jornalísticas,
de noções éticas e de conhecimentos teóricos
complementares, estes, a meu ver, mais úteis para quem queira
seguir a carreira acadêmica. Quanto ao desinteresse da turma,
creio que cabe aos alunos e aos professores analisarem as razões
para que possam solucionar o problema da melhor maneira possível.
Mas, com certeza, não seria aumentando a carga horária
do curso que se chegaria a uma solução.
A existência da ética é um fato principal
para ser um bom jornalista?
Depende
do sentido que você aplique ao conceito de “bom”.
Existiram e existem jornalistas talentosos e, até mesmo, geniais,
cuja ética deixou muito a desejar. Infelizmente, nem sempre
o talento corresponde ao caráter. Mas, da mesma forma que considero
um bom motorista não somente aquele que tem habilidade ao volante,
mas que respeite as leis e os códigos de trânsito –
e, sobretudo, os pedestres, passageiros e outros motoristas –
também acho que um bom jornalista deve, sim, ser ético.
O jornalismo sem ética é uma arma muito perigosa.
De
que forma a ética profissional é adotada, na prática,
pelos profissionais?
Podemos
falar em ética profissional, em ética jornalística,
mas na essência ela é uma coisa só para todos
os seres humanos e consiste basicamente em respeitar os direitos de
todos. Ou, no sentido etimológico da palavra, em zelar pela
nossa “morada”, que é o mundo em que vivemos e
nós, viventes, no mundo. Na atividade jornalística ela
se manifesta de algumas formas. Por exemplo: respeitando a veracidade
dos fatos, jamais deturpando informações em função
de interesses particulares ou de grupos, jamais expondo pessoas ou
instituições indevidamente, preservando sua independência,
não recebendo benefícios escusos para promover interesses.
A lista é longa.
Qual
a função da assessoria de imprensa? Esse trabalho é
ético?
Sem
dúvida, desde que seja exercido de forma adequada, o que nem
sempre ocorre. Cabe ao assessor de imprensa, conforme consta no Manual
dos Jornalistas em Assessoria de Comunicação, do Sinjorba,
“facilitar a relação entre o seu cliente –
empresa, pessoa física, entidades e instituições
– e os veículos de comunicação. Cabe a
este profissional orientar sobre o que pode vir a ser a notícia,
o que interessa aos veículos, o que não vai interessar
e o que deve, ou não, ser divulgado”.
Trata-se,
portanto, de uma atividade profissional válida e digna, como
qualquer outra função jornalística. O que a prejudica
é a idéia distorcida de que cabe ao assessor ocultar
informações com o objetivo de criar uma imagem falseada
de pessoas ou instituições com o objetivo de promover
a sua imagem. Evidentemente, o assessor de imprensa tem sérias
limitações no exercício da profissão,
na medida em que a informação, para ele, está
sempre atrelada aos interesses dos seus empregadores. Mas vale lembrar
que, apesar de ter mais liberdade, o jornalista que atua em órgãos
de imprensa também está atrelado a esses interesses,
de forma que sua liberdade é quase sempre ilusória.
Mas se o jornalista tiver o privilégio de trabalhar como assessor
de imprensa numa instituição séria, que tenha
bons propósitos e com a qual tenha afinidades éticas
e ideológicas, certamente as coisas ficam muito mais fáceis.
Qual
a essência do jornalismo?
É
difícil dizer o que é a “essência”
de qualquer coisa. Ou mesmo o que é exatamente o conceito de
“essência”. Digamos que seja tudo aquilo que resta
depois de retirado o supérfluo e o acidental, ou a “natureza
primeira das coisas”, ou ainda a sua “natureza íntima”.
É difícil responder a esta pergunta sem correr o risco
de cair no lugar comum. Posso dizer, por exemplo, que a essência
do jornalismo é comunicar, mas isto não acrescenta muito.
Ou informar. Ou formar opiniões. Ou, ainda, proporcionar uma
consciência ética, política, social. Mas não
é isto, pelo menos, o que temos visto. Acho que não
existe essa essência, e sim uma complexa malha de carências,
necessidades e interesses que foi criada pela nossa sociedade de massa.
Talvez
sua função seja a de toda forma de comunicação,
só que ampliada pelos meios (tv, rádio, jornal, cinema,
revistas, computador etc.), o que lhe confere um grande poder. Na
prática, a principal função dos grandes veículos
da mídia tem sido a de atender a interesses econômicos,
políticos e ideológicos dos proprietários desses
meios. Daí a importância de jornais e emissoras mais
independentes que, em maior ou menor grau, possam exercer uma vigilância
maior sobre o Poder.
Qual
a contribuição do jornalismo para o crescimento de uma
sociedade?
A
imprensa funciona, pelo menos teoricamente, como uma defensora dos
interesses da sociedade – daí terem dado a ela a designação
de “Quarto Poder” (ao lado do Executivo, Legislativo e
Judiciário). E, em alguma medida, é mesmo. Basta dizer
que é a última instância à qual a população
(sobretudo a mais pobre) apela quando tudo o mais lhe falta.
Quando
a polícia, os políticos, a justiça e o governo
não lhes garantem os seus direitos fundamentais, o que mais
lhes resta senão apelar para os jornais, rádios e tvs?
Cabe a ela o papel fundamental de vigiar o Poder, de garantir os direitos
dos cidadãos, de denunciar o desmando, a corrupção
e tantas outras mazelas. Seria ideal se não fosse ela, também,
suscetível a essas mesmas distorções. Se não
fossem os donos dos meios de comunicação também
membros de uma classe dominante, comprometida com o Todo Poderoso
Mercado, que muitas vezes defende interesses que são dela e
não da sociedade. Ou melhor: interesses que muitas vezes se
contrapõem aos da própria sociedade. Basta ver, a propósito
disto, a postura da Rede Globo em relação ao Golpe de
64 e ao Governo Militar. E, também, se não houvesse
tantas deformações no exercício da profissão,
que vão desde a falta de competência à falta de
ética dos próprios jornalistas. Daí a necessidade
de haver processos reguladores que norteiem o exercício da
profissão. A imprensa, que vigia a sociedade, também
precisa ser vigiada por ela, através das suas entidades representativas.
Mas, com todos os problemas, pior seria se ela não existisse.
Diante
das imensas dificuldades no mercado de trabalho vale a pena fazer
jornalismo?
Sem
dúvida, se é isso mesmo que você sabe e quer fazer.
Eu, muito provavelmente, não saberia fazer outra coisa. E não
me arrependo da opção que fiz.
A ENTREVISTA ACIMA É UMA SELEÇÃO
DE QUESTÕES COLOCADAS, ENTRE OS ANOS 2000 E 2005, PELOS ALUNOS
DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS
– FTC: Adeline Fichter, Adriana Santos, Alessandra Campelo,
Ailton Santana, Alan Teixeira Leite, Alaine Santos, Alane Souza, Aleile
Moura, Alessandra Nazareth, Alessandra Villas Boas, Alex Mendes, Alex
Soares, Alexandra Souza, Alexandre Levi, Alexandre Takei, Alice Souza,
Aline Góes, Amanda Menezes, Ana Carolina Nobre, Ana Emília
Assis, Ana Gisele, Ana Luisa, Ana Sueli, Ana Paula Cabral, Anadele
Borges, Anderson Oliveira, Andréa Magalhães, Andréa
Sampaio, Annette Sobral, Antonio Oliveira, Aretha Fernanda, Arturo
Mestanza, Bruno Matos, Bryan Guimarães, Camila Danon, Camila
Cintra, Camila Vasconcelos, Carla Bahia, Carla Freitas, Carla Menezes,
Carlos Bamberg, Carlos Souza, Caroline Garrido, Caroline Hasselman,
Caroline Paternostro, Catucha Freitas, Cecília Rebouças,
Cenilda Rocha, Chafik Jabaly, Cinara Marback, Cíntia Chagas,
Cláudia Neves, Clóvis Dragone, Conceição
Gandarela, Cris Concordia, Cristina Calacio, Daiana dos Santos, Daiane
Reis, Daniel Dórea, Daniel de Souza Pinto, Daniel Teixeira,
Daniela Keller, Daniela Rosa, Daniela Telles, Danielle Massa, Danilo
Almeida, Dayane Cairo, Débora Carnaúba, Déborah
Dourado, Diego Oliveira, Dirlene Pimenta, Eber Lafene, Edileuza Neves,
Edmundo Guedes, Eliana Lemos, Elida Oliveira, Elionai do Vale, Elza
Caroline, Érika Néri, Estefano Diaz, Fabiana Souza,
Fábio Abreu, Fábio Góis, Fábio Neves,
Fernanda Alves, Fernanda Gaspar, Fernanda Gonçalves, Fernanda
Paschoal, Fernanda Pires, Fernanda Veiga, Flávia Almeida, Franco
Neto, Gabriela Santos, George Meireles, George Wândega, Geórgia
Carine, Geórgia Lopes, Gildete Fagundes, Gina Lis, Gressieli
Cerqueira, Érica Patrícia Ribeiro, Flávia Santana,
Geórgia Dominique, Giselma Barbosa, Graziela Velame, Graziele
Bispo, Guilherme Mota, Hélder Guido, Helizângela Vilela,
Henrique Coelho, Humberto Marcelino, Igor Noblat, Iolita Santos, Ingrid
Dragone, Isa Lopes, Isabela Barreto, Isabela Nascimento, Isabela Nery,
Isabela Rocha, Izadora Ribeiro, Jadilson Mendes, Jailson Barreto,
Jamile Aragão, Jamile Santos, Janete Soares, Jaqueline Adans,
Jeane Brito, Jessé, Jéssica Senra, João Roberto,
Joaquim Franco, Jocilene Santana, Jonas Araújo, Jorge Masavitch,
Joyce Peixoto, José Eduardo Gomes, Júlia Romano, Juliana
Guimarães, Juliana Sampaio, Juliana Scher, Karoline Sarkis,
Kátia Rodeiro, Keina Lima, Kenna Martins, Kirlia Arruda, Lara
Rodrigues, Lara Prado, Larissa Miranda, Layza Melo, Leiliane Fláu,
Leonardo Marques, Lidiane Nascimento, Lidiane Borges, Lidice Soledade,
Lílian Patrícia, Lílian Santana, Lilian Soares,
Lindiane Sacramento, Lívia Rangel, Lívia Veiga, Lizângela
Passos, Lorena Teixeira, Lorena Vasconcelos, Louise Calegari, Lucas
Almeida, Lucas Araújo, Lucas Duarte, Lucas de Oliveira, Luciana
Jumonji, Luciana Soledade, Luis Filipe, Luiza Dayane, Luna Nery, Luzilene
Oliveira, Maíra Macedo, Maíra Santos, Maísa Nascimento,
Manoel Santos, Marcel Hollenwerger, Marcela Assis, Marcela Dantas,
Marcela Mota, Marcelo Barreto, Marcelle Reis, Márcia Simas,
Marcus Pimenta, Maria Clara Rocha, Maria Clara Dultra, Maria Luisa
Silva, Mariana Aycha, Mariana Magalhães, Mariana Miranda, Mariana
Nunes, Marília Piauhy, Marina Araújo, Marineide Oliveira,
Marinilze Ribeiro, Matheus Berbert, Michele Araújo, Michelle
Sales, Milena Barndão, Milena Rosa, Milton Rui, Mirian Néri,
Mônica Pereira, Mônica Sanches, Moredson Rodrigues, Naiara
Leite, Nara Figueiredo, Nara Letícia, Natália Sobral,
Nayara Lobo, Normando Farias, Luis Filipe, Naiara Leite, Newton Júnior,
Paloma Guedes, Patrícia Duarte, Patrícia Silva, Patrícia
Eloi, Patrícia Rebouças, Patricia Torres, Paula Azevedo,
Paula Barreto, Paula Berbert, Paulo de Almeida, Priscilla Melo, Priscila
Mota, Rafael Santana, Renata Guimarães, Renata Leahy, Rita
Pinheiro, Roberta Marques, Roberto Harfush, Rosa Virgínia,
Roseli Bispo, Selton Castro, Shirlene Lopes, Simone Araújo,
Simone Carvalho, Simone Brandão, Simone Regina, Simone Souza,
Sirlene Almeida, Solange Bezerra, Solange Aparecida, Sueide Oliveira,
Suiane Santos, Susy Moreno, Taciane de Carvalho, Tatiane da Hora,
Taiana Pinheiro, Tanusa dos Santos, Telma Cristina, Telma Chaves,
Thaiane Leão, Thaís Souza, Thaís Miranda, Thiago
Coutinho, Thiana Cavalcanti, Tiago Abelardo, Tiago Amorim, Ubiracy
Menezes, Valdinéia dos Santos, Vanessa Alves, Vanessa Cenira,
Vanessa Correia, Vanessa Magalhães, Vanessa Mateus, Vanessa
Michaelsen, Vaneska Câmara, Vânia Silva, Verena Magalhães,
Verônica Moreira, Veruska Oliveira, Vinícius Pimentel,
Vitor Teixeira, Viviane Freitas, Viviane Teixeira, Wanessa Lima, Wânia
Dias, Ytana Mayanne.