“MORAR NO EIXO RIO-SÃO
PAULO NÃO É UMA SOLUÇÃO MÁGICA”
Recém-empossado
na Academia de Letras da Bahia e com um romance para ser lançado,
em outubro próximo, pelo Banco Capital, o escritor Carlos Ribeiro
encontra-se numa fase bastante movimentada e criativa da sua carreira
literária. Nesta entrevista, concedida pouco antes da sua posse,
à jornalista Márcia Luz, do jornal A Tarde, Ribeiro
fala sobre diversos temas: do processo de criação literária
à sua atividade como professor de jornalismo da Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia; das suas leituras mais marcantes
às suas expectativas como acadêmico; de sua atuação
no jornalismo ambiental à instável relação
do escritor brasileiro com as editoras.
“Ninguém
pode dormir sobre os louros nessa atividade. Se você tem um
livro com boa aceitação e consegue publicar por uma
grande editora, se não tiver outro na seqüência,
que atenda às expectativas de mercado, você pode ser
colocado de lado. A gente vê muitos casos de pessoas com trabalho
de alta qualidade literária que estão na geladeira”,
diz Ribeiro. Para ele, morar no eixo Rio-São Paulo “não
é uma solução mágica” para as dificuldades
de edição e distribuição, “mas facilita
muito, porque quando você convive no meio literário onde
há uma maior visibilidade”.
MÁRCIA
LUZ – Gostaria que começasse falando sobre sua formação.
Primeiro o jornalismo e depois a literatura?
CARLOS RIBEIRO
– Me formei em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia
e sou pós-graduado em Letras. Fiz mestrado e agora estou fazendo
doutorado em teoria da literatura, também na UFBA, sobre a
crítica social na obra de Rubem Braga, nosso grande cronista.
A descoberta da literatura se deu quase ao mesmo tempo que a do jornalismo.
Quando eu estava no primeiro semestre da faculdade, tive uma experiência
muito forte do ponto de vista psicológico e existencial, e
vi que a única forma de expressá-la era através
do uso de metáforas e de uma ficcionalização
daquela experiência. Aí eu fiz o meu primeiro conto,
que foi publicado no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia,
em 1978. Essa descoberta da literatura como linguagem, como forma
de expressão foi como abrir uma porta para uma necessidade
muito profunda e, ao perceber isso, comecei a investir mais. Foi uma
descoberta simultânea. Ao mesmo tempo, eu descobri essa potencialidade
da escrita e da ficção. Comecei a escrever uns contos
em seguida, do meu primeiro livro, publicado em 1982 pela Coleção
dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que
se chama Já vai longe o tempo das baleias. O título
remete ao bairro de Itapuã, à pesca das baleias, aos
pescadores e, a partir daí, se descortinaram essas duas vertentes,
do jornalismo e da literatura, que, no que diz respeito a mim, pelo
menos, estão muito próximas.
ML
– Hoje, nos cursos de jornalismo há uma grande dificuldade
de os alunos lerem e escreverem bem. Como era no tempo em que você
começou?
CR: Existia uma
defasagem muito grande, porque eu entrei na faculdade justamente no
período final da ditadura militar, quando toda a riqueza cultural
e as manifestações que nós víamos, inclusive,
aqui na Bahia, haviam sido desarticuladas de forma brutal. Já
havia ali uma quebra muito grande na seqüência de gerações
anteriores, mas havia, ainda, na área da chamada literatura
marginal, uma efervescência grande. No meu caso, especificamente,
eu tive professores que me incentivaram muito. Mas me incentivaram,
porque eu buscava isso deles. Eu tinha esse convívio com os
professores, e buscava o que eu poderia tirar de bom em termos de
estímulo, de leitura. Por exemplo, Ruy Espinheira Filho foi
quem me recomendou pela primeira vez as crônicas de Rubem Braga,
que mais tarde eu viria a estudar. Hoje, eu sinto também isso.
Mas, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, no curso
de jornalismo, onde eu ensino, noto nos alunos um interesse muito
grande pelo conhecimento da literatura. Eles lêem o que eu recomendo
e isso está me dando uma alegria de ver que, apesar da nossa
civilização tão marcadamente visual e digital,
há pessoas interessadas pela literatura de boa qualidade.
ML
– Você tem uma longa trajetória de leitura e escrita.
Como é o seu processo seletivo para a leitura?
CR – Minha
formação é um pouco caótica. Eu nunca
tive um método de estudo, um planejamento, porque não
tive uma educação formal neste sentido. Eu não
estudei Letras, por exemplo. Mas logo descobri, por recomendações
e pesquisa própria, os grandes autores. A partir daí
venho pesquisando e aprimorando o meu gosto. Na verdade, quando você
começa a penetrar nesse caminho da linguagem e do prazer que
a obra lhe traz, através da linguagem, você começa
a identificar os bons autores. É muito bom quando a gente tem
a possibilidade de descobrir autores de excelente nível que
não conhecia antes. É muito bom quando você pega
um livro e ele surpreende.
ML
– Há autores que você lê, porque são
clássicos e você precisa conhecer ou porque são
indicados, mas há outros que nos sacodem. Quais foram os autores
que te causaram aquele espanto na primeira leitura?
CR – Tive
um encantamento especial, neste nível da inquietação
por Kafka, um autor que está presente, inclusive, na minha
literatura, não como influência direta, mas como fermento;
e Borges, aliás, os escritores do realismo mágico latino-americano,
então, Borges, Cortazar, um contista maravilhoso, Gabriel Garcia
Márquez... Cem Anos de Solidão foi um deslumbramento!,
e, também, Guimarães Rosa, Tchekov, Edgar Allan Poe,
Steimbeck, Hemingway, Joseph Conrad, Thomas Mann e muitos outros.
Há outros livros e autores, de menor complexidade, mas que
marcaram profundamente a minha sensibilidade de leitor, a exemplo
do romance O encontro marcado, de Fernando Sabino, O feijão
e o sonho, de Orígenes Lessa, O tempo e o vento, de Érico
Veríssimo, que chegaram às minhas mãos na hora
certa. Existem muitos outros autores, mas, inicialmente, são
estes os que me vêm à mente.
ML
– Como você separa na sua cabeça as suas atividades
de jornalista e escritor. Você acredita que o jornalista influencia
mais o escritor, ou é o contrário?
CR – Acho
que as duas atividades se influenciam mutuamente, mas o que me dá
um encantamento maior é a linguagem literária. O texto
jornalístico exige a linguagem objetiva e factual, porque o
que interessa ao leitor é o fato. Outras vezes, o que interessa
não é propriamente o fato, ele é apenas um gatilho
que dispara uma experiência humana que precisa ser mostrada
e é a linguagem literária que, muitas vezes, dá
essa dimensão da realidade.
Existe o espaço
das grandes reportagens, que migrou dos jornais para os livros, aqui
no Brasil. Antigamente, o espaço das grandes reportagens eram
os jornais, com séries de matérias longas, que depois
poderiam até ser reunidas em livro. Hoje, houve essa quebra
e o jornal é factual, informativo e a literatura foi para a
mídia livro. Mas a grande reportagem é o que me fascina
no jornalismo, o que me traz a sensação de uma realização,
realmente, porque a atividade jornalística é um pouco
ingrata, no sentido de que você pode ser um excelente jornalista,
mas se os seus textos forem presos ao factual eles estão datados
e não sobrevivem.
ML
– Você sempre volta ao que escreve para reler?
CR – Nem
sempre. Mas eu releio muito os meus livros, e, às vezes, tenho
vontade de reescrevê-los. Sou dos autores que reescrevem. Há
muitos autores que não gostam de reescrever, como Jorge Amado,
o que ele publicou foi o registro da época, era como ele se
expressava na época e não quis mexer mais nos textos,
pois fazer isto seria como uma traição. Outros acham
que podem aprimorar e eu me enquadro nesses. Para mim é sempre
reescrever, reescrever, reescrever. A obra é inacabada, aberta.
ML
– Como é seu processo de escrita? Você tem rituais,
segue horários para escrever?
CR – Sou
muito indisciplinado, infelizmente. Sou uma pessoa movida, nesse aspecto,
por impulso e não por uma disciplina e uma constância,
o que certamente prejudica muito a minha produção em
termos quantitativos, e, talvez, qualitativos. Mas eu não sei
planejar nada para escrever. Meus livros são feitos na medida
em que vou escrevendo, eles me surpreendem. Não tenho ritual
e nem horário determinado, mas, às vezes, tenho períodos
altamente criativos. Ao escrever o romance Abismo fui arrebatado totalmente
e pensei até que ia ficar doido, porque o personagem fica com
essa dúvida: se a jornada que realiza é um ato de lucidez
ou de insanidade. Basta dizer que, para escrever a história,
no momento crítico em que ele desce o abismo, sozinho, na jornada
que ele realiza, eu fiz uma caminhada solitária, similar à
do personagem, pelo Vale do Paty, na Chapada Diamantina. Eu quebrei
a regra número um das caminhadas. Trabalhei muito tempo organizando
caminhadas e trekking, e a regra número um é nunca ir
sozinho para um lugar que você não conhece, porque você
pode se perder e o resultado ser trágico. Eu quebrei essa regra
por necessidade da obra e realmente me perdi. Passei quatro dias,
sozinho, naquela região e foi o tempo e a angústia necessários
para compor o trabalho. No final das contas deu tudo certo.
ML
– A jovem escritora baiana Renata Belmonte disse, certa vez,
que ao escrever um conto a personagem dela tomou um rumo tão
inesperado que ela não deu conta dos sentimentos e precisou
interromper a escrita. Isso já aconteceu com você alguma
vez? Como são seus embates com os seus personagens?
CR – Nunca
tive essa experiência de chegar a um ponto de não poder
dar continuidade ao trabalho por conta da experiência do personagem.
O que acontece é que eu sempre me acho incapaz de fazer a obra
que está no meu sentimento, na minha mente, e, de repente,
vou até um pouco desesperançado para escrever, no sentido
de dar conta daquilo num nível ideal. Mas acontece, muitas
vezes, de eu dar conta e me surpreendo. Há personagens mais
complexos e temas que eu tenho guardado para obras futuras, que eu
não iniciei porque não me sinto preparado, ainda. Espero
começar escrever em breve um livro composto por quatro ou cinco
novelas que eu tenho em mente, aliás, é o único
que já tenho planejado. Ao contrário de todos os anteriores.
Acho que será uma obra de maturidade, mas estou chegando lá.
A obra vai exigir muito, uma pesquisa maior, um preparo maior. Este
trabalho não pode ser ao sabor do impulso.
ML
– O que motiva você a iniciar a escrita de um livro?
CR – Tenho
contos do meu livro O visitante noturno que são, quase todos,
baseados em sonhos muito instigantes, que se colocaram como enigmas
para mim e que busquei na expressão literária uma forma
de decifrá-los. Há outros, como Abismo, que nasceram
de uma experiência interior, espiritual muito forte e mobilizadora.
O romance O chamado da noite parte de reminiscências pessoais,
da memória, que é outra vertente do meu trabalho. Sentei
para escrever sem saber o que e foi um fluxo de consciência
muito intenso, eu diria até do inconsciente, ainda mais, e
veio trazendo reminiscências da infância, da adolescência
e da minha época de estudante, romanceadas e mescladas com
o trabalho ficcional. De repente, veio aquele fluxo intenso, era como
se fosse um transbordamento. Há um recurso muito interessante
do processo de auto-análise que se chama imaginação
ativa. É um processo no qual você pode se sentir inundado
de dentro para fora, então, é essa a sensação
que eu tenho muitas vezes, de ser inundado de dentro para fora.
ML
– Qual a sensação que você tem ao concluir
e publicar um livro?
CR – São
dois momentos diversos. Terminar de escrever é maravilhoso,
quando você vê que a obra está provisoriamente
concluída e você sente que é satisfatória
e que você chegou a um ponto que almejava chegar. Publicar pode
ser uma experiência muito boa, mas pode ser muito angustiante
também. O processo vivenciado com a publicação
de O homem e o labirinto e de O chamado da noite foi marcado por um
sofrimento tremendo. Eu fui para o lançamento como se fosse
para o pelotão de fuzilamento, pois eu me sentia extremamente
exposto. Nos últimos anos, acho que superei um pouco essa fase,
mas existe ainda isso, porque é muito difícil você
colocar seu trabalho para apreciação.
ML–
Os poetas reclamam sobre essa exposição, mas isso não
parece ser igual também no romance, no conto, nas matérias
jornalísticas?
CR – Em
diversos níveis, sim, mas na poesia é mais, principalmente
na poesia lírica. A distância entre o eu poético
e o eu “real” é muito tênue e as pessoas
tendem a identificar o texto como a expressão pessoal, das
idéias e sentimentos do autor, o que nem sempre é verdade.
Na ficção, há um distanciamento para o leitor
mais iniciado, mas para outros leitores normalmente não há,
então, é comum as pessoas confundirem o personagem com
o autor. Isso, às vezes, cria problemas. Uma vez publiquei
um conto no Caderno 2 de A Tarde, no qual o personagem falava sobre
a mãe dele, que era uma senhora idosa. Ele não tinha
paciência com ela, e no final das contas, termina tomando o
apartamento dela para vender e a coloca em um asilo de velhos. Ele
narra a história na primeira pessoa, e, quando o conto saiu
e eu cheguei ao jornal, várias pessoas me aconselharam a não
fazer aquilo com a minha mãe. Recebi até uma carta de
uma senhora idosa, me espinafrando totalmente e me aconselhando a
não fazer aquilo, porque um dia também eu ficaria velho.
É interessante isso, porque eu nunca tive problemas com a minha
mãe, que já morreu há muitos anos, e, inclusive,
o nome do personagem-narrador era diferente do meu, mas, mesmo assim,
as pessoas confundem o distanciamento entre o narrador e o autor.
[N.A. Ver crônica “Resposta a dona Filomena” na
seção Contos & Crônicas deste site.]
ML
– Mário Quintana dizia que escrevia para se salvar. Qual
o papel da literatura na sua vida?
CR – Acho
que ela dá sentido a uma experiência interior, a uma
relação minha com o mundo, a uma questão existencial
e social também. Mas não sei se poderia dizer que é
o que me salva. O que me salva são os meus afetos.
ML
– Publicação e distribuição ainda
são grandes problemas para os escritores. Como tem sido isso
na sua trajetória?
CR – Acho
que todos nós sofremos isso, inclusive as pessoas que moram
no famoso eixo Rio-São Paulo. O fato de morar lá não
é uma solução mágica, mas facilita muito,
porque lá você convive no meio literário onde
há uma maior visibilidade. Mas nós temos aqui na Bahia
hoje, da minha geração, pessoas que estão conseguindo
romper essa barreira, como Aleilton Fonseca, que publicou, recentemente,
pela Bertrand Brasil, o romance Nhô Guimarães, que está
tendo uma aceitação muito boa. Temos Mayrant Gallo,
que publicou pela CosacNaify. Outros autores estão sendo publicados
em antologias, como as que são organizadas por Rinaldo de Fernandes
e Luís Ruffato, e há ainda os poetas que estão
obtendo aceitação maior.
A grande diferença,
hoje, está nos recursos tecnológicos que possibilitam
contato instantâneo com o mundo todo, através da internet.
Com a criação de sites e blogs, você se torna
muito familiar para os leitores, mas ainda é difícil,
é uma luta constante. Ninguém pode dormir sobre os louros
nessa atividade. Se você tem um livro com boa aceitação
e consegue publicar por uma grande editora, se não tiver outro
na seqüência, que atenda aquelas expectativas, que não
são muitas vezes qualitativas, mas de mercado, você pode
ser colocado de lado. A gente vê muitos casos de pessoas com
trabalho de alta qualidade literária que estão na geladeira.
ML
– Como está sua relação hoje com editoras?
CR – Eu
tive meu último livro, Abismo, publicado pela Geração
Editorial, que fez investimento de um best-seller. Lançou na
Bienal de São Paulo, com o maior destaque, colocou banner enorme
e fez uma produção muito esmerada do livro, mas com
uma estratégia editorial equivocada. Uma concepção
equivocada do livro, como best-seller esotérico, porque, na
verdade, o público era outro; então, o livro foi direcionado
para um público diferente e, em função disso,
a expectativa que tinham não foi atendida.
Não há,
por enquanto, uma perspectiva de publicação em nível
nacional. Mas recebi um convite do Banco Capital para publicar um
romance, agora em outubro. Chama-se Lunaris, e é um romance
ao mesmo tempo realista e surrealista, trabalha com dois planos e
no qual a cidade de Salvador está muito presente. Tive esse
convite do Banco Capital, que todos os anos faz um concurso e lança
a obra de um autor convidado, eles publicam os vencedores e o convidado.
Fiquei muito honrado com o convite.
ML
– Você acaba de ser empossado na cadeira número
5 da Academia de Letras da Bahia. Isso muda alguma coisa no seu processo
de escrita?
CR – Na
trajetória de escritor não muda nada. Na minha condição
pessoal também não muda. O que eu acho importante é
que a Academia, como centro de saber e de divulgação
do saber, deve preservar e dinamizar atividades voltadas para a comunidade.
É importante que ela seja, de fato, aberta para a sociedade,
como, aliás, já vem fazendo. O professor Cláudio
Veiga, que deixou recentemente a presidência da instituição,
por motivos de saúde, desempenhou um papel muito importante,
no sentido de tornar a Academia uma das principais referências
culturais da nossa cidade. O presidente atual, professor Edivaldo
Boaventura, já acenou de forma muito significativa para esse
trabalho, buscando uma renovação e uma eficácia
maiores da instituição que, sem dúvida alguma,
está entrando numa nova fase.
ML
– Você é um escritor jovem entrando na Academia,
isso é uma possibilidade de renovação de idéias
lá?
CR – Há
sempre a possibilidade de renovação, mas isso independe
da idade dos seus integrantes. A Academia conta com pessoas de diversas
gerações, cujas idéias são bastante interessantes
do ponto de vista do papel que a entidade pode desenvolver. É
necessário apenas colocá-las em prática. Vale
enfatizar que os acadêmicos são, em sua maioria, pessoas
que refletem sobre questões literárias e culturais.
São pessoas produtivas e, segundo me parece, abertas ao diálogo.
Mas é importante ressaltar, também, que não devemos
pensar na Academia apenas em termos de inovação. É
necessária a solidificação do que já vem
sendo feito, pois há uma aura que envolve a Academia e que
deve ser preservada. Não pode ser um lugar do qual você
retire dela esses elementos simbólicos, solenes e formais que
existem.
ML
– Você ocupa a cadeira que pertenceu a Guido Guerra. Como
foi sua eleição?
CR – Minha
eleição não me surpreendeu. Há alguns
anos havia o movimento de pessoas que espontaneamente indicavam o
meu nome. Eu nunca busquei isso e nem fiz política para isso,
mas também não lutei contra, porque seria uma atitude
infantil refutar a iniciativa de pessoas de alto gabarito pelas quais
tenho uma grande consideração e, sem dúvida,
me honram com esse reconhecimento.
ML
– Como foi sua convivência com Guido Guerra?
CR – Desde
o início da minha atividade literária eu já conhecia
Guido. Ele fazia parte da comissão editorial da Coleção
dos Novos, uma iniciativa da Fundação Cultural do Estado,
no início dos anos 80, através da qual publiquei meu
primeiro livro. Faziam parte da comissão, além de Guido,
Ruy Espinheira Filho, Claudius Portugal e José Carlos Capinam.
Fui trabalhar na Fundação Cultural e eu tinha um convívio
próximo com ele. Foi uma pessoa que sempre me incentivou. E
eu reconheci nele um homem com uma nobreza de espírito. Guido
sempre foi uma das referências culturais importantes em nosso
estado.
ML
– Você chegou a publicar algo pelo selo dele?
CR – Ele
chegou a me pedir uma vez uns originais. Estavam lá, mas terminou
não saindo, pelo selo Edições Cidade da Bahia.
O falecimento dele foi uma surpresa, embora já estivesse muito
doente e que eu posso dizer é que espero estar à altura
da Cadeira número 5, que ocupo na Academia e que foi ocupada
anteriormente por ele e por outras personalidades importantes da cultura
e da ciência em nosso estado, tais como Carlos Chiacchio e José
Silveira.
ML
– No seu site há fotos e textos sobre o período
em que você atuou no jornalismo ambiental. Isso soa um pouco
distante da sua identidade de escritor e de jornalista literário.
Como surgiu essa experiência que inclusive te levou às
expedições para a Amazônia e a Antártida?
CR
– A fonte comum de inspiração para as minhas atividades
literária e jornalística foi o bairro de Itapuã.
Lá, passei a infância e quando mudei para lá,
ainda pequeno, era um lugar de uma magia extraordinária e que
tinha uma ligação muito profunda entre cultura e natureza.
Cultura de pescadores, das ganhadeiras e lavadeiras, um universo instigante
e ao mesmo tempo ligado à natureza. Foi um privilégio
passar a infância lá. Infelizmente, o lugar foi devastado
e degradado por uma política de desenvolvimento equivocada
e perversa e o aspecto da natureza e da perda dos recursos naturais
e culturais me tocaram profundamente. Isso está como semente
na minha atividade literária, mesmo a que não se refere
diretamente ao bairro e que tem, hoje, uma vertente urbana muito forte.
Há também o lado que lutou contra essa perda, que é
o lado do militante ecológico. Fui um dos diretores da Associação
de Moradores de Itapuã, que teve, nos anos 80, uma ação
forte e foi uma das organizações pioneiras na área
de meio-ambiente na Bahia. A partir dessa experiência, tive
contato com o fotógrafo de natureza do Rio de Janeiro, Luiz
Cláudio Marigo, e começamos a fazer uma série
de reportagens. Começamos com cultura popular, artesanato,
depois começamos a fazer a documentação de regiões
naturais e aí eu fui me especializando. Fui o primeiro jornalista
ecológico do estado, ou seja, o primeiro que tinha um rótulo
especifico nessa área, porque, na verdade, ecologia já
existia misturada com outras coisas. Essa foi uma das experiências
mais ricas e marcantes da minha vida profissional, porque, embora
ganhasse pouco ou quase nada, tive experiências em diversas
regiões naturais, como o Parque Nacional de Abrolhos e a grande
vantagem é que enquanto as pessoas chegavam para visitar e
iam embora, a gente ficava no lugar. Para você conhecer realmente
um lugar tem que ficar e conviver. Então, passei uma semana
no Parque de Abrolhos. Estive no Parque Nacional da Chapada Diamantina,
e, no de Monte Pascoal, fiquei dentro do parque e acompanhei o conflito
dos índios Pataxós, na época, com o Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, que hoje é o Ibama.
Fui aos Lençóis Maranhenses, ao Parque Nacional das
Emas, uma experiência maravilhosa. Uma experiência excepcional
foi a da Antártida, em 1986, quando trabalhava no Museu de
Ciência e Tecnologia. Tivemos a experiência mais diversificada,
porque lá os cientistas vão para o refúgio, que
é um container que fica numa ilha, ou para o navio ou para
a estação científica Comandante Ferraz e fomos
os únicos que ficaram no navio Barão de Tefé,
na estação científica e no refúgio. Fui
também à Amazônia, para a Estação
Ecológica do Mamirauá onde é desenvolvido um
projeto de preservação dos mais avançados do
País. Temos agora um projeto de um livro sobre a Natureza da
Bahia, relacionando a ecologia e os ecossistemas com o os diversos
ciclos econômicos e históricos do Estado. Pensamos alto
para esse projeto, que é antigo, mas estamos esperançosos
de podermos executá-lo e aí, finalmente, voltarei para
a minha atividade de jornalista ambiental.