ENTREVISTA CULTURAL: CARLOS RIBEIRO
A
Tarde Cultural – 26/4/1996
Jornalista diplomado
pela UFBA, e autor já de dois livros publicados, Carlos Ribeiro
nasceu no Centro Histórico de Salvador, mas sentiu, depois
que se mudou com a família para o bairro de Itapuã,
que ali encontrara um mundo de lirismo, beleza e encantamento naturais
em que embeberia três de seus pendores: o de ficcionista, de
militante da ecologia e o amor pelas viagens. Acaba de lançar
pela Editora BDA-Bahia seu mais recente livro, O homem e o labirinto,
reunindo 31 textos literários, entre os quais se incluem sete
contos que expressam, segundo ele, “um sentimento de solidão
e um certo desencanto” pelo que tem perdido de beleza, poesia
e mistério o mundo a seu redor – o mundo talvez de sua
infância e adolescência em Itapuã. Seu outro livro
editado é Já vai longe o tempo das baleias, 1981, também
de contos. Nesta entrevista – depoimento a A Tarde Cultural
anuncia mais três livros prontos para publicação,
e tem, em elaboração, um romance. No momento cumpre
Mestrado em Teoria da Literatura, no Instituto de Letras da UFBA,
tendo escolhido como tema de sua dissertação a obra
do cronista Rubem Braga. Adiante a comunicação com Carlos
Ribeiro.
A
TARDE CULTURAL – Está certo que o homem seja o centro
de interesse de quem se revela um amante da vida e atua como um defensor
da natureza, mas por que no título de seu livro a palavra labirinto,
que exerce grande magnetismo em relação a tantos escritores?
CARLOS
RIBEIRO – O livro revela um sentimento de solidão e um
certo desencanto do autor que vê o mundo ao seu redor perder
a beleza, a poesia e o mistério. Aí reside a motivação
principal.
A imagem do labirinto
é uma metáfora do sentimento de vazio e desesperança
do homem moderno; do homem urbano que se distancia da terra, dos bichos,
da água e do ar puros; dos mitos, das lendas e dos seus próprios
conteúdos inconscientes – o que, em seu sentido mais
radical, se configura numa espécie de alienação
e loucura, como se pode ver no conto “Porto Príncipe”
ou em “Vozes do Tempo”. Mas o livro exprime, também,
uma tentativa de “reencantamento do mundo” através
do reencantamento do olhar, como, aliás, está indicado
na epígrafe de Nancy Mangabeira Unger. Menos que histórias
com enredo, começo, meio e fim, o livro se constitui numa espécie
de inventário de sentimentos – dos sentimentos do menino
que cresceu e que já não sabe como encontrar a terra
mágica e misteriosa da sua infância.
ATC
– Você confessa que Itapuã tem uma presença
forte em muito do que você escreve. Como você conviveu
com o bairro e como é o antes e o depois de Itapuã?
CR
– Quando me mudei para lá, em 1964, Itapuã era
um aprazível bairro de veraneio, cujas habitações
eram pontos esparsos em meio a uma paisagem de dunas, mato, fontes
límpidas, praias, mar e caminhos desconhecidos. Ali captei
uma atmosfera de beleza e encantamento na qual natureza e cultura
(hábitos, lendas, histórias de pescadores e lavadeiras)
se uniram à minha própria vivência de menino,
moldando um sentimento do mundo que logo em seguida começaria
a perder seus referenciais com o processo de inchamento e de crescimento
desordenado do bairro, agravado nos anos 70 e 80. A descaracterização
natural e cultural de Itapuã, ocorrida de forma mais radical
durante a minha adolescência, imprimiu no meu espírito
um sentimento de desencanto ou de saudade, ou ainda, um sentimento
de impotência e de um certo pessimismo que apareceria mais tarde
na minha produção literária. Acredito que a minha
infância em Itapuã, o contato com a natureza e, posteriormente,
o testemunho da decadência do bairro, sejam os temas recorrentes
no meu trabalho, mesmo quando não haja nenhuma referência
específica ao bairro ou à minha vivência naquele
período.
ATC
– Nasceu um contista, quando?
CR
– Em 1977, ano em que iniciei o curso de Comunicação
na Universidade Federal da Bahia, escrevi os meus primeiros contos,
que foram publicados, em 78, no Concurso Permanente de Contos do Jornal
da Bahia, coordenado pelo escritor Adinoel Motta Maia. No ano seguinte
(79), publiquei mais dois trabalhos na revista Aqui Ficção,
também editada pelo Adinoel. Em 1981, aproveitando a chance
proporcionada por Myriam Fraga, que dirigia então o Departamento
de Literatura da Fundação Cultural da Bahia, publiquei
o livro de contos Já vai longe o tempo das baleias, na Coleção
dos Novos – uma iniciativa interessante, da qual participaram
escritores como Orlando Pereira dos Santos, Dalila Machado, Mirella
Márcia, Aleilton Fonseca, Lázaro Torres, Washington
Queiroz, Chico Muniz e Roberval Pereyr, entre outros.
ATC
– E o defensor das causas ecológicas?
CR
– Em 1982, após concluir o curso de jornalismo na UFBA,
passei a dedicar-me mais intensamente a atividades relacionadas à
área de meio ambiente. Nos anos seguintes, escrevi reportagens
para publicações nacionais, a exemplo da Revista Geográfica
Universal, Horizonte Geográfico, Ciência Hoje e Ecologia
e Desenvolvimento, e estrangeiras, Geomundo (EUA) e BBC Wildlife (Inglaterra),
enfocando regiões naturais, parques nacionais e reservas ecológicas,
que documentei em diversos estados do Brasil. Esse trabalho foi realizado
paralelamente às minhas atividades na Fundação
Cultural do Estado da Bahia, onde trabalho desde 1982.
Em 1986, como
assessor de imprensa do Museu de Ciência e Tecnologia, na época
ligado à Fundação Cultural, participei da quarta
expedição brasileira à Antártida, divulgando
as atividades científicas do Brasil naquele continente. Uma
série de reportagens foi publicada no jornal A Tarde, Revista
Geográfica Universal e Revista Interior, editada pelo Ministério
do Interior, em Brasília. Em 1993, estive na Estação
Ecológica de Mamirauá, no Amazonas, onde acompanhei
os trabalhos de cientistas brasileiros e ingleses sobre a ecologia
das florestas inundadas, além de documentar a vida dos caboclos
naquela região e as importantes ações sociais
e de preservação ali desenvolvidas pelo Projeto Mamirauá.
ATC
– O jornalismo tem convivido com a criação literária.
Então, o que se pode anunciar como atividade e produção
do escritor?
CR
– Em paralelo à atividade jornalística, continuei
escrevendo e, vez por outra, publicando em revistas literárias:
Exu, da Fundação Casa de Jorge Amado, Revista da Academia
de Letras da Bahia e A Tarde Cultural. Em 1988, ganhei o prêmio
da Academia de Letras da Bahia com sete contos reunidos com o título
de Vozes do Tempo. Mas só voltaria a publicar livro novamente
em 1995, com O homem e o labirinto, pela Editora BDA-Bahia. Tenho,
entretanto, prontos para publicar: uma novela de aventura sobre a
busca do Santo Graal, cujo título provisório é
O mistério do Abismo; um livro de contos, O visitante noturno;
um relato de viagens, Pássaro dourado, e, em elaboração,
um romance, Diário de um homem só.