WATERLOO


Antônio das Mortes tinha um olhar sombrio naquele duro inverno de 1815, quando os canhões do General Wellington cuspiram fogo sobre os regimentos de Napoleão. Os abutres pousavam na terra coalhada de cadáveres.

Assustou-se quando, da névoa cerrada, surgiu um homem alto, magro e amarelo, que lhe falou dos mistérios da verdadeira ciência que iria assombrar o mundo dali a precisamente 130 anos.

- As bombas – gritava ele, agitado, correndo como louco sobre os corpos agonizantes no crepúsculo solene. – Elas serão a cura, a cura, a cura...

E falou de guerras nas quais se verão apenas luzes e cores riscando o céu. O Anjo da Morte será uma bela estátua de mármore que nos olhará, com generosidade, do alto das torres das mais altas catedrais.
O homem ria, ofegante, tropeçando nos corpos dilacerados na azinhaga d’Ohain.

- E mais – dizia ele apontando para as bandas do leste onde, falava-se a boca miúda, o intrépido general francês encontrava, agora, o muro sombrio da derrota. – Construiremos máquinas maravilhosas. Esmagaremos os inimigos como insetos. Nós os confinaremos em campos cinzentos, como a uma peste. E aos rebentos das pragas que infestam o mundo transformaremos em pó.

- Nós corrigiremos a Criação! – gritava, mergulhando as botas na lama, enquanto uma luz leitosa banhava o sangue derramado de sessenta mil homens.

Antônio das Mortes prosseguiu, cruzando o campo de batalha, a passos largos, com seu chapéu de abas largas, com sua capa cinzenta e seu inseparável fuzil.

- Nós corrigiremos a Criação! – gritou mais uma vez o homem que se dissipava, como uma abominação, entre os fétidos gases que os corpos exalavam em Waterloo.

Seguiu pelos charcos da Bolívia, enquanto tombava o último herói das Américas. Uma ilha pequena lançava sua sombra sobre o Império. Os Senhores do Apocalipse brandiam seus raios como deuses sem glória. A sombra projetava-se sobre todos os olhos do mundo. Cantavam sobre os telhados, sob a chuva. Os cães passavam e Brigite Bardot ainda não os notava naquelas tardes claras dos 60.

Um muro dividia o mundo. O mundo se estilhaçava. Nuvens alvas e claras passavam no mundo. Antônio das Mortes passava na mente de um jovem rebelde de cabelos revoltos que se consumiu em seus sonhos como um vento feroz. Atiravam sobre edifícios. Bombas explodiam cristãos e muçulmanos. E aquele homem nos campos pestilentos da França, larva crepuscular, rebento das trevas, urubu dos infernos, ele também estava lá!

Tratores espedaçam crânios. Vampiros fuzilam crianças na calada do terror e chamam a si mesmos justiceiros – abantesmas! Demônios esfaimados abrem bocarras sedentas para o céu, espojam-se nas entranhas, recolhem-se às sombras onde se oculta a malignidade.
O Mal não está nos corpos empilhados, na pornografia, nas combinações secretas tramadas à sombra do poder, em Auschwitz, no veneno das palavras, nos hospitais, nas prisões, nos campos, nas marquises escuras onde batalhões caminham à noite uivando para o céu, nos rituais de magia negra, naquele sentimento que você entreviu e negou, na obscuridade indefinível...

Todas essas coisas são sintomas de algo ainda mais aterrador. O homem na multidão. Ele não fala. Apenas observa e observa e observa...

Antônio das Mortes caminha na ilusão do ontem. Um anjo pousa na torre mais alta do mundo. Suas asas são negras como as faltas do mundo. Suas asas são brancas como as faltas do mundo. Suas asas não têm cor.

Antônio das Mortes é o Anjo Mau/Bom que estende a mão para si mesmo. Apenas estende a mão. E tudo é como deve ser.