CONTO - O VISITANTE INVISÍVEL



Escuta. Façamos de conta que você possa tornar-se invisível. E que possa fazer uma viagem no tempo. Você desce, agora, a ladeira do Pelourinho, vê? É um dia qualquer de 1963. O céu tem uma intensa luminosidade avermelhada. Uma menina, com um vestido amarelo, toca acordeom na janela de um sobrado. Um bêbado dorme na calçada próxima à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Os casarões são velhos e desbotados. Homens vestem roupas brancas. Sinos tocam nos ares finos da velha Salvador.

Você passa pela banca de revistas. Desce a Rua Silva Jardim, no Taboão. Chega em frente ao Plano Inclinado do Pilar. Um homem, com um grande bigode grisalho, bebe grapetti com o filho no bar que fica no andar térreo do edifício Bola Verde. Ele compra doces e chocolates. É sábado e ninguém, senão você, carrega um passado que ainda não existe. Talvez por isso, você pensa, talvez por isso o ar pareça mais translúcido. Talvez por isso quase se possam ouvir sussurros nas varandas e nas sacadas dos casarios.

No outro lado da rua, o prédio de três andares, de janelas e portas verdes, o chama. Você entra nele, com a respiração presa. Sobe, lentamente, os degraus sujos da escada (há uma aranha-caranguejeira morta, num canto) e pára, por alguns segundos, em frente à porta do apartamento, no segundo andar. Há um silêncio demorado, até que alguém abre a porta, e, sem que se perceba sua presença, você entra.

Vê, à direita, a parede úmida com rachaduras? Vê, à esquerda, a antiga geladeira GE? Vê a mesa, os móveis grossos e pesados? Vê, à frente, o banheiro e a cozinha? Aí está o corredor, que você atravessa, pisando, com cuidado, os ladrilhos amarelos. Mais à frente, a sala com as duas janelas e os dois quartos laterais. Uma mulher arruma o quarto da esquerda. Um menino brinca no da direita. Você o olha e, naquele momento, sente-se tragado pelo pensamento do menino, que é como um mar de ressaca. Agora você sente, intensamente, com ele, a luz do final da tarde que espalha as sombras dos móveis sobre o piso; o reflexo levemente amarelado nas paredes; as nuvens lá fora, como passagens de um outro mundo. Os livros, a estante. O espaço povoa-se de presenças: fantasmas encontram-se, aqui e ali. Florestas úmidas, serpentes, colunas antigas e torres de marfim. Heróis, chuvas de lanças e flechas. Pássaros de aço, serpentes gigantes. Caravanas de camelos cruzam o deserto. Abismos. Há tigres e leões vagando pela sala, entre o sofá e a máquina de costura. O menino levanta os olhos e sente a presença do visitante invisível.

Anoitece. As sombras se entrecruzam no piso e nas paredes. Afastam-se umas das outras e tornam a encontrar-se. Adquirem novas formas e dissolvem-se, lentamente, numa mancha cinza, transformada depois numa única mancha negra. Tudo mergulha na imobilidade profunda, até que alguém acende a luz e tudo volta a se movimentar. O pai chega do trabalho, com ar cansado. O irmão chega da escola e liga a TV. A mãe chama-os para o jantar. Coloca travessas de farofa de ovo com manteiga, arroz, carne, leite, café e deliciosas fatias de parida, que o menino chama de “minha tia”. Todos riem. O menino pensa: o viajante invisível é um sonho engraçado. Mas ele está aqui! – olha em volta. Talvez encostado no grande aquário iluminado. Talvez sentado no sofá. Talvez descendo as escadas, indo embora para nunca mais. O irmão o chama para jogar botão. Ele lê a história da menina Rosinha, que o vento levou. Buzinas tocam lá fora. A TV é grande e tem frisos e botões dourados. Uma cigarra canta. Seus irmãos mais novos não nasceram. Uma estrela cadente risca o céu. Na radiola, seu pai ouve uma canção de Carlos Gonzaga.

Mais tarde, na cama, sob os lençóis, o menino tem a estranha sensação de que alguém pensa nele. Um cachorro passa, lentamente, diante do prédio e procura, no lixo, algum resto de comida. Uma mulher, que há muito morreu, chora, na esquina do prédio em frente. E, finalmente, quando o menino dorme, sonha com uma voz que, num futuro distante, diz para ele: Escuta. Façamos de conta que você possa tornar-se invisível. E que possa fazer uma viagem no tempo. Você desce, agora, a ladeira do Pelourinho, vê? É um dia qualquer de 1963...