CONTO - VENTO SUL


08/06/01



Nada disto aqui mudou: o hall cinzento, as manchas nos ladrilhos, as baratas circulando no piso encardido, as flores de plástico amarelo erguidas no oratório, a mesma paisagem sem alma. Apenas se desacostumara desse ambiente sórdido, do entra-e-sai desses rostos amargos, dos gritos perdidos nesses corredores vazios. “Ai de mim, o vento Sul está soprando sobre todas as minhas perdas”.

O homem que assim pensa havia circulado, com vasta familiaridade, por todas as pensões baratas da cidade. Da Calçada, da Carlos Gomes, do Centro Histórico, das Sete Portas: arapucas, pardieiros, espeluncas, covis que jamais são conhecidos, em sua suja intimidade, pelos que se limitam a olhá-los de longe, por trás das janelas dos carros, das sacadas dos grandes prédios, na distância discreta da prudência e do esquecimento. “Eles não sabem que se gera aqui o seu futuro...”.

Longos anos de fria solidão. Palmilhara-os com pés
moídos, com olhos cansados, com a barriga vazia, mas com a mente alerta, sempre; com mãos que jamais podem negar-se. No vaivém de toda aquela escória, conseguira-se impor, com sorte, dançarino do abismo. “O homem bom nunca diz a verdade”, soprava-lhe, no ouvido, o demônio, que, como um super-homem nietzschiano estendia-lhe, à frente, “a longa desconfiança, a cruel negação”.

Por trás das cortinas encardidas, as mesmas mãos hábeis, que percorriam os corpos ofegantes das piranhas, trespassava com facas quem ousava opor-se à sua vontade. Lançava pelas escadas e janelas os inimigos. Por isso, talvez visse sempre o espaço livre à sua frente, quando passava, em linha reta, nas calçadas noturnas, com as mãos no bolso do casaco e o seu olhar prenhe de pesadelo.

“O vento Sul está soprando!”, gritava, feroz, uma voz que o convidava a lançar o barco sobre as águas. Mas só podia ver, à sua frente, o interminável esgoto que jorrava da cidade. Cidade oculta, cidade invisível, cidade triste por trás dos outdoors, da propaganda enganosa dos idiotas que ainda acreditam existir o Pai a lhes garantir todas as benesses.

“Hipócritas. Interesseiros. Bajuladores”, pensa ele, cuspindo na calçada. Farsantes que procuram ocultar, assim, a nossa verdadeira história, cujos rastros são como manchas de sangue de corpos arrastados e escondidos no armário. E, na grande festa dos que não querem arriscar seus privilégios, na esbórnia dos que expõem seus corpos sob os holofotes, no Carnaval dos vendidos, finge-se ignorá-lo, ele, o cadáver que não se consegue ocultar: monstro cujos tentáculos estendem-se dos cemitérios clandestinos dos subúrbios a essa fina flor do desejo da high society, a esse palco dos que se abrigam à intimidade do Poder.

“Então, eles, oh, zumbis, convivem comigo nos espaços gelados da noite caliente, no espaço quente desta imensa calota polar enfeitada de luz neon; espaço que precisarei reconquistar”, pensa o homem sem nome, o homem vazio, que penetra fundo suas antigas origens, como quem folheia um álbum de família esquecido no sótão de uma casa em ruínas: valores destroçados que se erguem diante dele pelo poder mágico de uma evocação; que vêm do fundo da noite do tempo como uma galera viking subitamente ressuscitada das profundezas do mar do Norte...
- Você acende esse cigarro? Por favor?

A luz do fósforo clareia, por um momento, a face amarela do cidadão, que esboça um sorriso sem dentes e desaparece no ruído compassado dos passos claudicantes, na sombra fina dos necessitados que atravessa a calçada de lado a lado. Este é um dos fantasmas!, pensa o homem, que fica. Este é um dos mortos-vivos para quem todas as janelas fecham-se e os portões trancam-se nos lares guardados por homens blindados, em seu estranho mutismo e seus imensos paletós.

O homem, que já tivera também um lar, sob o qual pensara ter enterrado todo esse passado, agora pressente que terá, mais uma vez, que lutar, mas que de nada lhe servirá suas armas. “O alcance da faca é curto. A grande luta...” – pensa ele, em pé, diante da padaria, no Politeama – “...A grande luta se desenrolará sob esse céu de África-Bahia, perante esse mar de tempos idos, no momento exato em que a fera romper a jaula, e todas as verdades se negarem, e todas as esperanças empalidecerem, como estrelas no céu da cidade”.

Olha para o céu negro.
- Está chegando a hora de plantar as cinzas.
É sexta-feira. Os bares estão todos cheios. O homem desaparece no ambiente sórdido e perde-se no entra-e-sai de rostos amargos, nos gritos perdidos dos corredores vazios.
Enquanto isso, o vento Sul sopra, sopra sobre toda a nossa Esperança.