VELHO LOBO FAMINTO
13/09/02
Recostada no parapeito da janela do apartamento, no Cabula, Heloísa
pensa, com uma ponta de desgosto, no ex-marido, Armando. Ele havia
ligado novamente, como fazia todas as sextas-feiras, há exatos
três anos, sete meses e 25 dias. Estava, mais uma vez, de
porre. Insistiu que precisava vê-la. Chegou a uivar de tristeza
ao telefone. Disse, como de costume, que ela era uma ingrata. Uma
desalmada. Então era assim? Ignorar todo o passado? Depois
de 45 anos de felicidade conjugal, destruir, sem mais nem menos,
tudo o que construíram juntos?
Heloísa levantou as sobrancelhas. Pobre Armando. A solidão
o faz delirar. Reclama que o filho não quer mais vê-lo,
que o despreza. A ele, seu próprio pai! E chega sempre à
mesma conclusão: você é a única culpada,
Heloísa! A única culpada!
Mas foram mesmo 45 anos?, ela pensa. “Deixa ver... Eu era
quase criança quando nos conhecemos. Tinha 15 anos. Ele,
20. Pediu minha mão, ao meu pai, com a voz empostada de locutor
de rádio. Parecia o Newton Spínola Cardoso, nos velhos
tempos da Rádio Cultura, no Campo Grande. Conquistou minha
mãe com flores; minha avó, com toalhas de tricô.
Revirou meio mundo e não descansou até conseguir me
botar sob seus cuidados.
Foram bons aqueles tempos? Sim, admite Heloísa. Já
havia esgotado os últimos dias de inocência, na companhia
dos pais (era filha única), numa tranqüila rua do Bonfim,
onde o tempo havia parado. Depois do casamento, na Igreja dos Órfãos
de São Joaquim, mudou-se para o Barbalho. Era o início
dos anos 50. Armando tinha os cabelos pretos, lisos, penteados para
trás e um bigode fino. Tinha a elegância e a suavidade
que, durante anos, a encantaram, mas que hoje, olhando retrospectivamente,
possuíamum não-sei-o-quê de vigarice.
Heloísa mergulha, sem perceber, numa penumbra cada vez mais
densa. A atmosfera ao redor dela fica mais carregada. Recorda que,
durante muitos anos, tomara como um gesto de amor aquela insistência
dele em não deixá-la estudar. E sempre que falava
em trabalhar, ele dizia: “Para que, meu bem? Esta cabecinha
não foi feita por Deus para se gastar com esforços
inúteis”.
Heloísa levanta as sobrancelhas, move a boca e o rosto, como
se estivesse, frente a frente, com Armando. “Lembra-se do
que você disse quando, anos depois, comuniquei a intenção
de fazer o vestibular? “Só se for para pilotar fogão!”.
Já havíamos entrado na fase das piadinhas. Eu havia
engordado um pouco. Já tinha varizes, celulite, algumas rugas.
Os filhos estavam grandes. Foi nessa época que você
deu para trabalhar, como um condenado. Chegava tarde, dormia fora.
Tantos compromissos! Até que não pôde mais negar
seu envolvimento com Dayse. Ou era Joyce? Ou Evelyn? Não
lembro. Sei apenas que tinha um ipsilone no meio. E que ela tinha
16 anos quando engravidou. Foi quando você declarou que não
podia trair seu coração. Será possível
que eu não podia entender uma coisa tão simples?”
“Sim, eu entendo, claro. Mas querer ficar com a casa. Querer
me botar no olho da rua. Me ameaçar com um revólver.
Querer me bater - ao ponto do nosso filho, já então
um homem, lhe agarrar pelo pescoço e lhe ameaçar,
que não ousasse mais nunca tocar as mãos em mim?”
“Coitado. Você não imagina como ele sofreu com
isto. Por ser obrigado a ameaçar o próprio pai. Você
ainda quis tomar a casa na Justiça, mas perdeu, mais uma
vez. Teve que alugar um quarto-e-sala na Piedade, até que,
há exatamente três anos, sete meses e 25 dias, a menina
o trocou por um neurolingüista. Foi aí que você
deu pra ficar rondando os bares, como um velho lobo faminto, assombrando
a vizinhança com seus uivos, a me telefonar no meio das noites
de sexta-feira dizendo que eu sou a culpada. E querendo voltar...”
“Mas voltar para onde, Armando? Não existe lugar para
onde voltar. Sabe aquela frase do Millôr Fernandes? ‘As
pessoas que se separam por incompatibilidades na vida conjugal,
mais cedo ou mais tarde descobrem que são incompatíveis
sozinhas’. Acho que somos assim”.
Tudo bem, dona Heloísa. Como disse o velho poeta Carlos Anísio
Melhor, essa terra São ossos, em flores transformadas. São
luzes gritando em pura, Solene solidão. E tudo, flores ou
ossos, termina voltando ao pó, não é mesmo?
E ao silêncio maior do esquecimento.