CONTO - O VELHO ESCRITOR


21/09/01




Não sabia de onde vinha, exatamente, aquela sensação de orgulho e superioridade, que procurou disfarçar de si mesmo, quando apertou a mão do velho escritor. Então era ele? Sim, ali estava, diante de Mário, alto, magro, mas de uma magreza rija, o velho escritor de cabelos brancos, de face sulcada como a terra mesma de onde ele viera, no sertão da Bahia. O escritor conhecido e respeitado por sua integridade ética, por suas posições políticas, por sua defesa incondicional dos lavradores, dos sem-terra, dos despossuídos, dos retirantes da seca, que ele retratava em romances e contos ásperos. Mas era também o escritor desdenhado pela crítica, esquecido pela Academia, criticado pelos que não viam nos seus textos o toque da contemporaneidade tão caro aos autores modernos, ou pós-modernos, ou sabe-se lá como os queiram chamar. Lá estava ele, parado, em pé, em frente à sala da qual Mário saía, ao lado do poeta Alberto Rezende, após terem assistido a uma palestra do escritor Moacir C. Lopes, na Feira Internacional do Livro.

Foi Alberto quem o apresentou a ele, e, após alguns segundos ali parados, sem saberem exatamente o que dizer, seguiram, caminhando, juntos, até a Praça de Alimentação do Centro de Convenções. Percebendo que ele estava sozinho e que não havia se entrosado com outros autores, presentes à palestra, que logo se dispersaram, Alberto convidou-o a almoçar com eles. Mário não achou que seria uma boa idéia, mas procurou adequar-se às conveniências do momento, e, embora lamentando não estar com outros autores mais prestigiados, que acabavam de sair do seu ângulo de visão, tomou a iniciativa de escolher a mesa, à qual se sentaram.

Mário se esforçava por demonstrar admiração pelo autor de Os Ossos e o Pão e de Os Retirantes do Pó, mas, no seu íntimo, lamentava o fato de estar perdendo tempo, ali, com alguém que, infelizmente, ou felizmente, já dera tudo o que tinha a dar - e que, a bem da verdade, não acrescentara muito à literatura baiana, embora sua obra pudesse ter algum valor, digamos, sociológico.

A conversa principiou tímida. Perguntou-lhe, convencionalmente, sobre seus novos planos literários, se tinha um novo romance em vista, sobre qual, dentre seus livros, o agradava mais; mentiu-lhe ao declarar que apreciava seu estilo despojado, imune aos experimentalismos que grassavam, como praga, nos textos das novas gerações; elogiou a consistência de seus personagens, homens e mulheres de carne e osso e não meros arremedos, declarando que invejava dele, sobretudo, a capacidade de torná-los visíveis, ao leitor, como se fossem pessoas reais.

- Talvez seja essa “virtude”, à qual você se refere, a razão pela qual os críticos vejam os meus livros como velhos, ultrapassados; livros que ficariam em melhor situação se tivessem sido escritos no século XIX - declarou.
- Isto é ridículo! - exclamou, indignado, por um momento acreditando em suas palavras. - É por esse tipo de coisas que já não temos, hoje em dia, escritores de maior porte, capazes de representar a vida como ela é, em suas obras. - E, batendo o dedo indicador na mesa, acrescentou: “É a literatura como a sua que irá permanecer!”

Olhou para o rosto do homem, esperando ver, nele, um traço qualquer de admiração ou reconhecimento, mas ele permaneceu impassível. Por frações de segundos, duvidou da sua performance, examinou seus termos, seus gestos, qualquer mínima expressão que desmascarasse sua atitude. E esperou que ele se manifestasse.
Alberto, que permanecera em silêncio, até aquele momento, interferiu.
- O que me parece que diferencia bastante a nova geração de escritores, pelo menos aqui no Estado, das anteriores, é o seu profundo individualismo. Desconhece-se completamente, hoje em dia, as idéias estéticas e o posicionamento político desses autores. Ninguém se manifesta mais para e sobre coisa alguma... Todo mundo quer estar bem com todo mundo, fogem da polêmica como o diabo da cruz. Críticas, somente à socapa, como se dizia antigamente.

O homem voltou-se para Alberto com súbito interesse.
- Sim, você está certo, mas não são apenas os novos autores. A realidade é que, hoje, aqui, praticamente nenhum intelectual manifesta suas opiniões, se é que as têm, para nada. Fingem ignorar que vivemos num sistema opressivo e repressor. Não representam os interesses reais da sua comunidade. Nesse sentido, vivemos hoje em um mar de covardia, comodismo e omissão.

- Veja - disse, olhando ao redor, e os olhos deles acompanharam o olhar dele. - Tudo parece estar em perfeita normalidade, à nossa volta, mas existe algo no ar, uma sombra pairando sobre a nossa cabeça, misteriosa e insondável. Algo como uma espada prestes a cair sobre aquele que não se unir, dócil e respeitosamente, ao rebanho. A verdade, meus jovens amigos, é que, com raras, raríssimas exceções, este Estado é, hoje, uma terra de ovelhinhas medrosas...
– O senhor não acha que está sendo um pouco severo demais? Nós temos uma tradição de luta, que vem desde as batalhas pela independência, ou, antes mesmo disso, das lutas contra os holandeses, até a resistência à ditadura militar de 1964...

- Sim, mas a verdade é que os mesmos homens e mulheres que arriscaram a vida na luta contra o regime militar calam-se, hoje, borrados de medo de perder o emprego, de perder o cargo, de perder o lugarzinho sob os holofotes e os patrocínios oficiais. Os mais conscientes e íntegros preferem isolar-se, silenciosamente refugiados entre seus livros, descrentes de tudo e de todos. Quanto à nova geração... mas que nova geração?...

Nesse momento, algumas pessoas juntaram-se a eles, à mesa, o almoço foi servido e a conversa mudou de rumo. As palavras do homem ficaram ecoando na cabeça de Mário; a resposta entalada na sua garganta. Quem aquele escritor atrasado, completamente superado, pensava que era? Mais tarde, ao se despedirem, ele os convidou para assistirem à mesa-redonda da qual participaria, logo mais, à noite, no Café Literário. Mário garantiu que estaria presente e, quando apertou-lhe a mão, fez um esforço, que lhe pareceu um tanto patético, para dizer-lhe:

- O senhor não está certo.

- Quanto ao quê?

- A nós. Não somos ovelhinhas medrosas.

O velho escritor limitou-se a sorrir. Era a primeira vez que sorria desde que o encontraram.