CONTO - ERA UMA VEZ NO NORDESTE
(Para
Glaubuñueisenstein)
05/07/02
Corisco deu um passo à frente e, após um segundo
de hesitação, reconheceu o inseto que, no verão
passado, roubara-lhe seu grande amor.
Tanto tempo, pensou, e isto.
Sim, o tempo é chegado.
Ele vinha voando sobre a caatinga, ao entardecer.
Será este o último dia de todos os tempos?, pareceu
adivinhar, roçando a mão na sua matadeira, enquanto
o sol se punha para lá das sombras tristes dos xiquexiques.
Além do baú enferrujado,
herança de uma tia velha pernambucana, que o abandonou
na agonia da fuga, naqueles tempos negros que viriam, ele podia
ver os cumes secos do Azerbaijão. (Ou Asdzerbaijão?
Ou Asdjerbaijão? Ou...)
Oh! Os desertos medonhos do Oriente onde um dia vaguei sob o sol
inclemente.
Rilhou os dentes. Segurou firme
a coronha da arma, mais uma vez.
A última?
Desça! – gritou,
desesperado, enquanto as pupilas derretiam-se e um gato deslizava
como sombra na lua sobre os telhados de Cocorobó.
Corisco girou, girou, girou (como
no filme de Gláuber) e atirou. O cano cuspiu fogo na rua
deserta. O inseto rugiu entre as asas negras do crepúsculo.
Dinossauros ganiram, em agonia, nas marquises.
(Marquises?)
A garota de tranças soltou-se
das mãos do avô, que, num gesto desesperado e inútil
tentou deter o avanço das locomotivas.
(Locomotivas?)
Louco! Você não entende? Um tiro, apenas, e o universo
desfaz-se!
A menina abraçou o inseto que viu subitamente escorrer,
no seu peito, um fio escarlate.
Tombou, em silêncio.
A menina voltou-se e olhou Corisco, nos olhos, com um grande pesar.
Ele era tudo o que eu tinha. Foi a mim que você matou –
pareceu dizer no momento/sempre que desde então passou
a existir. Mas ela nada falou. Apenas uma lágrima rolou,
na sua face, e partiu-se como um cristal.
O avô estendeu a mão
à menina, inutilmente. Um abismo os separava. Ela era uma
mulher.
Corisco desceu a escada de Odessa, segurando sua arma e sentindo
que algo fora-se, para sempre, como o sol daquele distante ano
de mil novecentos e lá vai fumaça.
(Enquanto isso, o Imperador da Bahia olha seu império do
sol poente, pela janela do apartamento, masca chiclete e dá
beliscões na bunda do neto. E trama alguma, talvez, no
momento em que a Seleção chega do Japão e
o Olodum toca, toca, toca seus tambores, num final de tarde de
sexta-feira, avivando nossas ilusões).