CONTO - TARDES
05/01/01
O cansaço me fecha os olhos. O país de outubro fica
logo ali. Um baú velho, uma coleção de revistas
em quadrinhos, uma tarde longa que nunca parecia terminar: X 9,
Raio Negro, Jim das Selvas, Couro de Cobra, Shazam, Tex Willer,
o corredor, a noite chegando nos fios, tirando a luz dos azulejos,
dos terraços, das antenas de TV entre emaranhados de fios,
palco de imensa solidão. Ainda estou lá, naquelas
tardes, mesmo depois de ter andado todos esses caminhos, de ter
fruído todos esses desencontros, de estar aqui, só,
numa sala vazia. Lá fora, a cidade fervilha de ausências.
Multidões de nada habitam pontinhos de luz. Olho à
minha volta e vejo também uma multidão de sombras
que se esgueiram pela casa grande do tempo que passou. Fantasmas
sorriem. Gestos se refazem/desfazem. Que posso fazer para você
poder perceber esse meu estar? Todos os livros que li já
não podem me salvar. Naufrago como um rochedo no pântano,
nas charnecas escuras de Yorkshire. O tempo, este espaço
que me cerca, este nada que me dá a ilusão da distância.
É hora de morrer nas charnecas de Yorkshire. É hora
de morrer.
Mas
há tantas formas de morrer, meu amigo. Há tantas
formas de morrer. Esquecer é uma delas, e nisto eu morro
todos os dias um pouco mais. O esquecimento é um velho
baú, antigo como o mundo, que se enche de cenas, de imagens,
de palavras, de sonhos, de sorrisos, de latidos, de crepúsculos,
de cantigas, de noites e lares. É este baú que carrego,
arrastando-o pelo tempo afora, sem jamais tornar a ver o que nele
despejo. Nada mais posso dizer dele, além de que ele sou
eu; de que ele é mais eu do que eu mesmo sou. Eu sou um
milionésimo do eu que ele é. E, enquanto ele se
agiganta, eu me diminuo, até me tornar apenas uma partícula
de poeira esquecida no tempo. Até que eu desapareça
completamente, como aquele incrível homem que encolheu.
Então, eu serei ele, serei o todo esquecido que se encontra
consigo mesmo na zona da memória: e me recordarei. Juntarei,
então, pacientemente, todos os cacos de uma vida; todos
os cacos de muitas vidas, e diante de mim, como a um deus, renascerão
milhões de pores-de-sol, milhões de nuvens esgarçadas
no horizonte, espelhos partidos tornarão a unir-se numa
sucessão de imagens dentro de imagens. Você me sorrirá
em algumas delas, você me matará em outras e em tantas
outras caminharemos juntos, navegaremos juntos, escalaremos montanhas,
enfrentaremos tigres e leões da montanha, dispararemos
canhões, lutaremos com os dentes em savanas, abriremos
portões, acenderemos fogueiras, derrubaremos reinados,
lideraremos multidões e morreremos juntos, lado a lado,
em batalhas vãs. Caminho por todas as terras, por todas
as estradas para te encontrar agora no início deste caminho.
Sim, eu tenho que morrer para me encontrar no esquecimento: eu
tenho que me esquecer de mim para me encontrar na plenitude da
recordação. Mas não é justo morrer
assim nessas horas mortas que se arrastam, nesta sala onde um
relógio caminha lentamente pela eternidade, nestes espaços
trilhados por formigas, nos caibros tomados pelo cupim, nesses
sonhos que nunca parecem terminar. O mundo gira inaudível.
Eu preciso escutar o mundo! mas o silêncio é grande
e posso ouvi-lo em toda a sua grandeza, em toda a sua espantosa
intensidade; posso ouvir todos os ruídos que vivem no silêncio
e é como se tivesse de repente todo o mundo em meus braços:
e todos os tempos do mundo estão nos meus braços.
Você me diz que “o grande mundo está crescendo
todos os dias, entre o fogo e o amor”, e que, “então,
o meu coração também pode crescer”.
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