CONTO - O SÍNDICO DO 1.406
Carlos Ribeiro
Não vem sendo muito incomum, nesses últimos anos,
algumas rusgas entre os moradores do 1.406. Elas acontecem, principalmente,
nas noites de sexta-feira, quando costumam levar os bichinhos
de estimação para passear. O problema é agravado
pelo fato de que ninguém considera seriamente a Convenção
do Condomínio. Afinal de contas, bem ou mal, ela estabelece
as mínimas regras necessárias para uma boa convivência.
Você quer um exemplo disto? Pois veja, então, o segundo
parágrafo do artigo 10, que proibia o transporte de felinos
de maior porte no elevador social. A proibição se
deu após um destes animais – acho que um leão,
pertencente ao ex-proprietário de um circo, residente no
910 – ter engolido, num momento de descuido, o bebê
do casal do 708. O acontecimento causou um certo estremecimento
entre os condôminos, e um processo que, embora tenha causado
uma certa agitação, não foi muito longe.
O proprietário tinha lá suas relações
com uma rede complexa de influências, envolvendo um deputado
do PFL e um ex-senador da república, e a coisa terminou
em pizza. Isto sem falar na pressão exercida pelos militantes
da Sociedade Protetora dos Leões (SPL-Ba), responsáveis
por uma ruidosa manifestação na rua em frente, ao
verem noticiada, no jornal das oito, a intenção
de se entregar o animal a um zoológico. Atitude esta que
implicaria, segundo especialistas na matéria, na revisão
de uma complicada malha de leis e direitos adquiridos, o que iria
ferir a própria Constituição, com resultados
negativos para a imagem do país no exterior. Foi mais fácil
– e aqui devemos louvar a engenhosidade dos nossos legisladores
– acrescentar um inciso à Convenção,
exigindo-se das mães e babás o transporte de crianças
menores de 40 centímetros exclusivamente no elevador de
serviço – saída, de resto, bastante razoável
para o impasse. Problema mais complexo, entretanto, é o
provocado pelo morador do 506, infeliz proprietário de
um elefante asiático. Embora mais dócil, silencioso
e menos volumoso que os similares africanos, estes paquidermes
ultrapassam o peso máximo permitido nos elevadores. A situação
é agravada pelo costume do proprietário de levá-lo
duas vezes ao dia para passear na rua, em horários nos
quais os moradores mais conscientes evitam transitar pela escada,
sob pena de, na melhor das hipóteses, ter que retornar
todo o trajeto (para cima ou para baixo, conforme o caso), evitando-se
assim o risco de ser amassado pelo animal. Eu mesmo deixei de
circular pelo prédio nesses momentos, após ter lido
no dicionário que “o mamífero, de tromba preênsil
e com os orifícios nasais abertos na extremidade desta”
possuem “patas reunidas num maciço volumoso e amparados
atrás por uma almofada elástica” que sustentam
um peso médio de três toneladas – o que pode
causar um considerável estrago naqueles sobre os quais
pisem, com ou sem má intenção. Esta me parece
ser a questão principal, embora os demais moradores reclamem
mais do mau cheiro dos excrementos largados no caminho pelo animal.
(Devo abrir aqui um parêntesis para fazer justiça
ao proprietário que, inicialmente, levou sacos para recolher
o cocô do elefante, tarefa, entretanto, inviável,
devido ao fato da indústria de plásticos ainda não
ter fabricado sacos suficientemente grandes para tal fim. Ele
admite a legitimidade das reclamações, solicitando
apenas não fazê-las diante do pobre animal, que padece
de um profundo complexo de rejeição). Algum morador
mais insensível – desconhecendo, certamente, os laços
de afeto que unem os homens aos seus bichinhos de estimação
– chegou a sugerir a troca do elefante por outro animal
menor. Deu, como exemplo, o mico-leão dourado do 728. O
macaquinho, que foi considerado, durante algum tempo, o modelo
ideal de animal doméstico, causou um certo frisson no prédio,
até o dia em que arrancou, com uma dentada certeira, o
dedo mindinho do filho do general, do 815, fato justificável
pela maneira inconveniente e insistente com que o menino futucava
o seu (lá dele) focinho. Tais argumentos não foram,
entretanto, suficientes para aplacar a fúria do militar
e evitar uma certa agitação nos quartéis.
O incidente poderia ter conseqüências funestas para
o dono do primata, não fosse este um diplomata graduado
do governo norte-americano. Este detalhe, e a intervenção
do próprio Chefe da Casa Militar da Presidência da
República, levou o general a admitir que o dedo mindinho
do filho não era um problema suficientemente grande para
justificar um confronto com o Pentágono, mesmo porque o
problema acontecera logo após os atentados de 11 de setembro,
quando os ânimos estavam bastante exaltados. Bem... a verdade
é que é difícil, meus amigos, para o síndico
do edifício, conciliar tantos interesses conflitantes.
Imagine que, um dia desses, o proprietário do 316 insistiu
na abertura de um buraco no teto do seu apartamento, para que
sua girafa não ficasse com problemas de torcicolo, proposta
rechaçada veementemente pelo morador do 416, que alegava
invasão de privacidade – mesmo porque o buraco (e
a cabeça da girafa) invadiria exatamente o seu quarto.
A questão, que ganhou algum espaço nos principais
meios de comunicação do País, foi parar nas
barras dos tribunais. Houve até quem propusesse encurtar
o pescoço do animal, através de procedimentos cirúrgicos,
provocando uma grande polêmica na classe médica quanto
aos fundamentos éticos de tal procedimento. Confesso que
tem sido difícil, para mim, administrar os problemas do
Condomínio. Corri até o risco de ser linchado, quando
sugeri a criação de um espaço exclusivo para
os bichinhos – uma espécie de SPA, no qual pudéssemos
colocá-los, com segurança e conforto, livres das
neuroses urbanas dos moradores do 1406. Chegaram mesmo a sugerir,
nos jornais, que eu estava querendo criar guetos; imaginem! chamaram-me
até de nazista! Vejam só até onde vai a incompreensão
humana. Mas, tudo certo, mesmo porque, pensando bem, não
sei a quem poderia confiar o casal de tubarões-martelo
que crio (em sigilo) nos reservatórios de água do
prédio. Ninguém pode saber disso, ou logo vai aparecer
uma comissão reclamando da qualidade da água e não
sei mais o quê. Sim, meus amigos, a vida é mesmo
muito difícil para o síndico do 1.406.