CONTO - NO SILÊNCIO DA NOITE
09/08/02
Márcio
Rodrigues está deitado, sozinho, em seu quarto. São
dez horas e trinta minutos de uma noite de sexta-feira. O apartamento
está deserto e ele percebe, com uma vaga estranheza, que,
sem os ruídos e movimentos familiares de sua mulher e filhos,
as coisas à sua volta parecem existir de uma outra forma.
É como se deixassem de ser objetos para tornar-se algo diferente.
Como enigmas. O próprio espaço entre um objeto e outro
ganha nova consistência. Torna-se quase material. Sim, um
estranho mistério emana das coisas à volta de Márcio.
Não é a primeira vez que ele tem esta sensação.
Isto acontece sempre que Marília e as crianças viajam.
Sempre que ele fica sozinho. É como está, agora, ali,
em seu apartamento, na Anthenor Tupinambá - estreita e movimentada
rua situada entre as avenidas Magalhães Neto e a Paulo VI,
na Pituba.
Márcio fixa o olhar na Naissance de Vénus, de Cabanel,
na parede do quarto, à sua frente. É quando percebe,
subitamente, nos prédios em torno, ruídos aos quais
nunca havia antes prestado atenção. Risinhos no Proteu.
Uma voz de criança, que pede insistentemente alguma coisa
(não sabe exatamente o quê) no Alpes. Um gemido um
pouco mais longe. A Pavana, de Ravel, que vem do segundo andar do
Tairu, dolente e melancólica, atravessa a varanda, circula
pelos corredores, desliza suavemente no playground e ganha a noite,
misturando-se ao latido dos cachorros. E ao ruído de um e
outro carro, que passa.
Outros sons, de outros apartamentos, de outros prédios, ganham
nitidez: um homem discute com uma mulher, na Carmen Miranda. Alguém
sussurra palavras indecentes na Rubem Berta. Uma mulher geme em
algum lugar da Amazonas. Um homem mente na Alameda das Algarobas.
Dezenas, centenas de televisores gritam, em uníssono, em
todas as ruas. Os sons do bairro, de cada casa e apartamento do
bairro, o alarido das ruas, as vozes nos pontos de ônibus,
nas padarias, restaurantes e boates multiplicam-se. E ampliam-se
para todas as casas, ruas e lojas da cidade. Salvador é,
agora, uma grande e interminável fonte emissora de sons,
que Márcio, entre surpreso e atemorizado, acessa ao seu bel-prazer.
Aos poucos, não sem relutância, ele aprende a sintonizar
os sons que mais lhe chamam a atenção. Questiona-se:
teria o direito de invadir assim a privacidade das pessoas? Pensa
em desistir, mas que mal pode haver em deixar sua mente flutuar
no espaço/tempo? Quem poderá acusá-lo do que
quer que seja, se ele nada mais faz do que ficar ali, deitado em
sua cama, na solidão do seu quarto, de olhos fechados?
Ouve, então, mais e mais vozes, como se todas as pessoas
da cidade estivessem no seu quarto. Ouve palavras de afeto e de
advertência; ouve xingamentos, confissões (algumas
embaraçosas) e ameaças; ouve lamentações
e gritos de alegria, de gozo, de pavor, até que já
não consegue captar apenas vozes, mas também leves,
sucintas, rarefeitas vibrações de pensamentos...
São como os sinais que ouvia, no pequeno rádio de
pilha do pai, nos distantes anos 70, quando tentava sintonizar emissoras
de outros países: vozes em línguas desconhecidas que
surgiam e desapareciam, a um mínimo toque no sintonizador,
em meio a chiados, até serem novamente recuperadas, numa
luta que se prolongava noite adentro.
Meu Deus!, pensa Márcio, receoso de vir a ser inundado por
tantos pensamentos. Lá está, por exemplo, a mulher,
metida num barraco miserável, na Avenida Suburbana, pensando
no que vai dar de comer aos filhos, ao amanhecer; o rapaz que, após
ser arrancado de casa e fuzilado por “justiceiros”,
morre à míngua, lentamente, na noite escura; o jovem
que pensa matar-se e que (felizmente) desiste do ato desesperado;
homens poderosos que planejam um crime. E, do fundo silencioso da
noite, a mente que o observa. A mente que vê o pensamento
de Márcio e que já sabe quem ele é.
Márcio abre os olhos. Tem medo. Muito, muito medo. Teria
sido um sonho? Oh, a noite escura - e os passos no hall...