CONTO - REVELAÇÃO


09/03/01



Precisava sair urgentemente daquele deserto. À sua volta, só podia ver pedras abrasadas, areia ardente, cactos perfurantes. Paisagem desolada. Sertão. Entrara nele, aprofundara-se nele, perdera-se nele, com as próprias pernas, com os próprios passos, pela própria vontade, que, entretanto, minguara no caminho e quase desaparecera, completamente, como fio d’água numa vereda seca. Como semente jogada num solo estéril – pensou, censurando a imagem que achou excessivamente banal.

“Mas, nem mesmo numa hora como essa me permito parecer ridículo?”, pensou. (Um amigo já lhe prevenira contra as comparações. “Precisamos banir o como da nossa linguagem. Não existe nada como, tudo é o que é, e ponto final!”, dissera-lhe com aquele ar desvairado, como...), mas, oh, meu Deus, como dizer que se perdera pela própria vontade, se esta fora arrebatada... como uma folha ao vento?, pensou, mais uma vez, com amargura, censurando a expressão, mas sem encontrar outra melhor para dizer o que se passava com ele. Seu espírito encontrava-se, agora, mergulhado num pleno lugar-comum.

Ali estava, pois, no final da tarde de uma sexta-feira, sentado num banco de praça, de frente para o Dique do Tororó, buscando um jeito de tirá-la da cabeça. Aquela Capitu, pensou com raiva. Achou forçado associá-la à personagem de Machado, mas, que outra imagem poderia representar melhor sua perdição do que a dos “olhos de ressaca”? A verdade, caro leitor, é que ele fora, total e irremediavelmente, arrastado por aquele olhar, para o meio do mar tenebroso, onde se encontrava, agora, nadando em círculos, sobre a massa d’água escura, repleta de monstros que, a qualquer momento, subirão à superfície para devorá-lo.

Mas ainda lhe restava um sopro de ânimo, um restinho de forças. Suficientes, queria acreditar, para ficar de pé, dar alguns passos até o telefone e ligar. E definir. Esta é a palavra certa: definir. O que ele significa para ela? O que significou o olhar que ela plantara nele, naquele momento em que seus olhos encontraram-se e que ele pôde, pela primeira vez na vida, sentir que existia, que era alguém? O olhar dela o colocara, por alguns segundos, no centro do mundo, como algo mais que um emaranhado de pensamentos, emoções e sensações. O olhar dela atribuíra-lhe o sentido do ser (gostou da expressão, que dava um toque filosófico, nobre, à sua miserável condição). Mas foi tudo muito rápido, e havia muita gente em volta, e havia muitas vozes e risos soando na sala, e logo todos se levantaram e saíram, e ele ficou parado, sozinho, no centro do mundo, agora, já, perdido na periferia de si mesmo.

Olhou o céu sobre sua cabeça – no deserto, no oceano, no rio, na praça, numa montanha, no olho de um furacão –, e lembrou o poema de Poe: “Olhai! A Morte edificou seu trono/ numa estranha cidade solitária/ por entre as sombras do longínquo oeste”. Era onde se encontrava, agora, largado, como cão sem dono, naquele “longínquo oeste”, olhando os olhos frios daquela Senhora de longas vestes, que o olhava do fundo de seu desamparo. Pesou-lhe no espírito a idéia de que aqueles dois olhares, tão profundamente diversos, o da Musa e o da Morte, eram o mesmo olhar: amorte – amor e morte, faces opostas e complementares de uma mesma esfinge.

Tudo o que precisaria fazer seria caminhar até o telefone, discar um número, falar com ela, marcar um encontro e – poderia ser ali, no Farol da Barra, ou no Farol de Itapuã, sobre o Morro da Vigia, ou na Ponta de Humaitá, ou no Solar do Unhão, ou em qualquer um dos pontos que essa cidade oferece aos amantes, aos desvalidos – dizer-lhe, simplesmente, que a amava/odiava, porque ela o fizera, pela primeira vez em sua vida, perceber que nada sabia.

Pegou o telefone, retirou-o do gancho, discou os números, pensou melhor, colocou-o novamente no gancho. E lembrou, mais uma vez, o autor do Tamerlão: “Oh, amor humano! Tu, que dás, no mundo,/ O que esperamos vir do céu profundo;/ Que cais na alma qual chuva abençoada,/ Sobre a planície adusta e calcinada;/ E, não podendo dar ventura, fazes/ Do coração, deserto sem oásis;/ Tu, idéia que toda a vida encerra/ Em música de sons tão singulares/ E belos, que na selva têm seus lares, Adeus! Adeus! Pois conquistei a Terra!”

Aquelas palavras iluminaram sua alma. Então era isto?! Ali estava o verdadeiro significado daquele olhar. Ele também havia conquistado a Terra! Agora já não lhe importava morrer, pois já não tinha algo, fora de si, que o deixasse ou que ele pudesse deixar. Agora, pensou ele, cedendo a um último impulso de grandiloqüência: “agora, estou pronto para viver”.

E foi-se, pensativo, pela orla do Dique, pelas ruas tortuosas de Salvador, numa sexta-feira com cheiro de azeite e gosto de penumbra, finalmente pacificado.