RESPOSTA A DONA FILOMENA



A Tarde – Coluna Ultraleve
6/2/2002


Recebo carta da leitora Filomena Santos – uma doce, mas também severa, senhora de 72 anos de idade, que diz ter lido, “várias vezes”, o conto de minha autoria, intitulado Nossa querida mãe, publicado na edição de Fim de Semana do dia 18 de janeiro. Trata-se, vale a pena lembrar, de uma história na qual o narrador – um homem insensível e egoísta – discorre sobre sua intenção de internar, num asilo para velhos, a sua progenitora, que vive no primeiro andar do mesmo prédio onde ele mora, em Amaralina.

Na carta, feita com uma caligrafia arredondada, bonita, como só se via antigamente, dona Filomena me dá alguns conselhos e faz algumas duras advertências. Diz que devo ter mais paciência com a minha mãe, pois é próprio da idade dela falar devagar. Diz que, se eu chegar até a idade dela, talvez seja ainda mais problemático, e, acrescenta, “o que irão fazer seus filhos? Vão lhe agüentar ou vão lhe jogar num asilo?”

Dona Filomena conta-me, ainda, algumas histórias de filhos ingratos e acrescenta, num tom profético: “Quando ela for para perto de Deus, ao passar pelo primeiro andar, o remorso vai ser tanto que é capaz de o senhor querer até mudar de prédio, pois o arrependimento de não tê-la visitado com mais freqüência e até o desejo de dar-lhe dois beijos no rosto, dar-lhe um abraço, dizer-lhe uma palavrinha, vai se tornar um verdadeiro pesadelo”. E conclui: “Aproveite enquanto é tempo. Mãe só tem uma, já pensou nisso? Quanto trabalho e preocupação ela não deve ter tido nessa vida”.

Dona Filomena, em primeiro lugar, quero agradecer-lhe os conselhos. Aliás, quero garantir que concordo plenamente com eles. Lamento apenas não poder colocá-los em prática, pois a minha mãe, a doce e querida dona Mira, morreu, há mais de 20 anos, em decorrência de uma cirurgia malsucedida que fez no COT do Canela. Morreu, relativamente jovem, cercada de profundo zelo, amor e carinho dos seus quatro filhos. Quanto ao meu pai, o saudoso Amadeu Alves Ribeiro, ex-professor de português e francês do Ginásio Lomanto Júnior – muito diferente, portanto, do pai referido pelo narrador do conto –, já havia falecido, em 1973, num acidente de carro em Amélia Rodrigues.

A verdade, dona Filomena, é que nunca morei em Amaralina, nunca tive casa na Ribeira e, diferentemente do narrador da história, não me chamo Alfredo. Aliás, se a senhora prestar bem atenção, verá que o conto é, ao contrário do que lhe pareceu, uma crítica à forma insensível com que as pessoas idosas são tratadas na nossa sociedade. Este, pelo menos, foi o seu objetivo.

Tomo, portanto, sua carta (bem como alguns e-mails e telefonemas que recebi sobre este conto, todos elogiando a “minha coragem” por assumir publicamente esse “meu problema” ou criticando a “minha insensibilidade”) como um elogio. Afinal, nada melhor para um autor que os seus personagens ganhem o status de realidade. Desde que, é claro, não se chegue ao extremo retratado pelo escritor Aramis Ribeiro Costa, que, em sua novela Episódio em Curicica, conta a história de um homem que se vê metido numa enrascada das maiores quando o conto que escreve sobre um crime, narrando-o na primeira pessoa, é tomado como uma confissão escrita desse mesmo crime. “Confissão” esta que o leva a ser preso, julgado e condenado à forca! Um absurdo, sem dúvida, digno de um romance de Franz Kafka, mas que expressa um equívoco comum a um grande número de leitores: o de confundir o personagem narrador de uma obra de ficção, com o autor dessa história.

Não pretendo me desculpar pelos meus personagens. Mas, se não foi possível ao personagem de Aramis escapar da forca, espero que eu possa, pelo menos, ser julgado com menos rigor pelos meus leitores. Principalmente pela senhora, dona Filomena. E que a minha pena seja mais leve.