QUESTÕES DE CAMA E MESA
Carlos Ribeiro
Ainda estão a nos dever, os estudiosos das artes e da psicanálise, um
estudo profundo sobre a relação do homem com a mesa, que sempre esteve
em desvantagem em relação à cama. Falta-nos um Freud da culinária, que
possa desvendar quanta neurose exista numa simples mordida em um sanduíche. Cama
e mesa são elementos indispensáveis e, quase sempre, inseparáveis seja lá no
que você pense em fazer. Pode-se dizer, exagerando apenas um pouquinho, que 99,9%
do cérebro humano ocupam-se diuturnamente com esses dois pólos da existência
que, nas mentes mais refinadas, ganham disfarces sofisticados, como a Teoria da
Relatividade e dos Campos Morfogenéticos.
Para outros, a exemplo da seleta classe dos alto-executivos,
os dois
campos muitas vezes se confundem, basta ver o êxtase erótico que sentem quando
se sentam à mesa de negociações, que, dizem, não poucas vezes é uma... cama. Nesse
sentido, é lugar comum a idéia machista de que a contratação das grandes
estrelas do cinema e da tv passa pelo "teste do sofá", injúria das maiores,
vamos convir.
Mas, como ia dizendo, a Mesa (agora com maiúscula) vem, pouco a pouco,
ganhando o espaço que merece em nossas Letras: à famosa madeleine de Proust já se somam, embora bem mais modestamente, os filés de São Francisco, as
lagostas de Acapulco e o salmão com molho dourado do Troigros em Roane, na
França, dos quais se ocupa Luís Fernando Veríssimo em suas crônicas de
viagem e comida de A mesa voadora. (Um livro para se ler com um
babador.)
Se, em Proust, o paladar é o ponto de partida para três mil páginas de
memória, em A mesa voadora, as memórias são ponto de partida para a
comida, já que, como frisa Jaguar, nas orelhas, é um livro que "se lê com água
na boca". Pelo estilo, também, claro.
E, por falar em memória - e estilo -, não podemos esquecer Rubem Braga,
que na crônica "Almoço mineiro" assim definiu um lombo de porco com tutu de
feijão:
"O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primeiro
dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da
espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável".
E, mais adiante:
"A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra
no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco
leitoso e doce que tem certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera".
Se a cama atravessa páginas e páginas da história e da literatura
universal, impulsionando romances e tragédias, a mesa parece ocupar
posição bem menos dotada de grandeza e glamour. Geralmente é mais lembrada pela
ausência do que nela se ponha, como mostram páginas dramáticas de Victor Hugo
(Os
miseráveis), de O Quinze de Rachel de Queiroz ou de uma das mais
tocantes reportagens literárias já escritas, O povo do abismo, de Jack
London, sobre as populações miseráveis do East End londrino, no início do
século XX. Aqui, em vez de romance e tragédia, encontram-se, em retratos
dolorosos da fome, as sementes da guerra e das revoluções.
O leitor atento certamente denunciará minha ignorância por não lembrar páginas
memoráveis em que o alimento marca presença, a começar por O Banquete de
Platão (no qual, entretanto, o tema central é o Amor!), pela Santa Ceia (o
alimento como representação do amor divino e da transcendência) ou pelos Paraísos
artificiais de Charles Baudelaire que tem no vinho um dos seus pilares.
Mas, oh, aqui está, também, o amor, sempre ele, proporcionado agora pela
embriaguez dos sentidos. E aqui mesmo, bem próximo de nós, os livros do nosso
mais importante romancista, Jorge Amado, em cujas páginas a culinária baiana
reina em todo o seu esplendor com uma grande carga de... sensualidade.
Rendamo-nos, pois, a essa tentativa de separação. Talvez seja o caso de
admitir que "cama" e "mesa" sejam máscaras de uma mesma coisa: a necessidade de
sobrevivência, do indivíduo e da espécie, impulsionado pelo Grande Motor da
História: o prazer. Físico ou espiritual.
Carlos
Ribeiro é jornalista e escritor