CONTO - NOSSA QUERIDA MÃE
18/01/02
Minha mãe mora no primeiro andar de um prédio antigo,
localizado próximo ao Largo de Amaralina - um edifício
de um amarelo pálido, desbotado, de onde se podia ver, em
tempos idos, as baleias passarem, empurradas pelas correntes geladas
do Sul. Ali também, no andar de cima, eu, Alfredo, segundo
dos seus cinco filhos, vivo - melhor seria dizer, sobrevivo -, com
minha mulher, quatro filhos e um cachorro poodle. Estranho pensar
que já faz algumas semanas, talvez meses, que não
a vejo. É verdade que penso sempre em visitá-la. Chego
mesmo a parar, de manhã cedo, quando saio para o trabalho,
em frente à porta do seu apartamento. Chego a estender a
mão para tocar a campainha. Mas, quando olho o relógio,
vejo que estou sempre muito atrasado. E, à noite, quando
volto para casa, estou sempre tão cansado...
O problema não é que eu não queira vê-la.
Afinal de contas, ela é a minha mãe, e, devo reconhecer,
sempre foi uma boa mãe. O problema é o tempo, esse
fator misterioso, abstrato, escorregadio, que não cessa de
passar e no qual todas as tarefas da vida derramam-se, precipitam-se,
exigindo atitudes, exigindo soluções. Sei que poderia
apenas tocar a campainha e, quando ela abrisse a porta, sapecar-lhe
dois beijos no rosto, dar-lhe um abraço, dizer-lhe duas palavras,
que fosse. Falaria qualquer coisa e, antes mesmo que ela tivesse
tempo de reagir, subiria a escada, a passos largos, com a sensação
do dever cumprido.
Mas sei que isso não seria possível. Ela me seguraria
a mão, insistiria para que eu entrasse, suplicaria, com
aqueles seus olhinhos aguados, para que eu ficasse mais um minutinho
só. E seria impossível fazê-la entender que
havia um trabalho urgente a realizar, que precisaria dar alguns
telefonemas, selar alguns compromissos, atender a voraz necessidade
de atenção da mulher, dos filhos, do cachorro, do
diabo.
Oh, desculpe-me esta linguagem grosseira, mas sempre fico assim,
agitado, quando percebo a incompreensão das pessoas. Isso
costuma irritar-me um pouco. Mas, veja: se pelo menos ela não
alongasse tanto os assuntos; se não ruminasse tantas idéias,
mastigando palavra por palavra, com um raciocínio lento,
com pausas intermináveis, queixando-se porque os filhos
não aparecem, porque eu não apareço. Ela
parece não perceber que a vida hoje é assim mesmo,
corrida, que a concorrência é desleal, que temos
que manter nossas conquistas, que temos milhões de coisas
importantes para fazer, que, enfim, não vivemos mais aquela
existência preguiçosa de um tempo que simplesmente
acabou.
Eu sei, as coisas eram mais simples quando papai era vivo. Ele
tinha a energia poderosa, a determinação inabalável
de manter a família reunida, mesmo quando crescemos e saímos
de casa. Exigia a presença de todos (filhos, genros, noras
e netos) aos domingos, para a feijoada que se estendia, com bebidas
e risos, até a noite. Foi assim, a vida toda, até
que vieram as complicações de saúde. E ele
secou, corroído, lentamente, pelo câncer (desculpe,
sei que você não quer que eu pronuncie esta palavra).
Morreu, pele e osso, na UTI do Hospital Português, resistindo
ao máximo, fazendo-nos jurar que tomaríamos conta
de você, mãe. E você, que jurou resistir, foi-se
entregando, e a casa - a nossa velha casa de infância, na
Ribeira - ficando cada dia maior: o quarto do casal, a sala espaçosa,
a varanda, o jardim, onde estavam suas flores, que você
insistia em regar, com essa mania absurda de querer segurar o
passado. Mas que foram murchando, como você mesma foi. E,
depois, a teimosia de não querer sair de lá, a dificuldade
de não entender que não era mais seguro ficar ali,
sozinha, com Ester, nossa velha empregada.
Quanto nos custou convencê-la a vender a casa, a trazê-la
para esse pequeno apartamento, que nós, seus filhos, freqüentamos,
durante algum tempo, com bastante assiduidade e, devo dizer, com
algum sacrifício, porque, depois, você pegou essa
mania de ficar falando, falando, falando indefinidamente. E, o
que é pior, falando mal dos próprios filhos, como
se fôssemos uns egoístas, insensíveis, ingratos,
até mesmo interesseiros.
Ah, minha velha, são tantas coisas pra resolver. E, aqui
pra nós, acho que você já não tem condições
de ficar o dia todo presa nesse apartamento. Já andei investigando
por aí um desses asilos modernos, que reúnem pessoas
da terceira idade, com programações interessantes:
passeios, bailes, brincadeiras. Você precisa conviver com
pessoas da sua idade. Claro que não temos dinheiro para
pagá-lo, mas podemos utilizar a sua pensão, que
papai deixou. Podemos economizar um dinheirinho despedindo Ester,
que, pra falar a verdade, anda um tanto imprestável. Talvez
possamos conseguir uma granazinha boa por esse apartamento. Não
é muita coisa, ele está meio decadente, mas certamente
nos permitirá saldar algumas dívidas mais urgentes.
Mas isso fica pra depois. O importante, agora, é que pensemos,
todos, no seu futuro, mãe. Sim, precisamos, todos, pensar
no futuro da nossa querida mãe.
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