CONTO - QUARTO
DE INFÂNCIA
04/05/01
A
música tocava longe. Parecia com o ruído do mar, lembra-se?
Era um mar noturno aquele, que vinha de longe, da escuridão
profunda, como um grito que se arrebenta em brancas espumas na beira
da praia. Você podia ouvi-la muito bem, deitado com sua mãe
no quarto, que era o quarto da infância, num bairro à
beira-mar que ainda permanece vivo na sua lembrança, enquanto
você segura com força as grades do portão deste
imenso hospital que se estende daqui para o passado. Veja: você
está com sua mãe, deitado na cama, olhando o telhado
de telhas vãs e as paredes feitas com óleo de baleia.
Sua mãe canta uma canção qualquer de ninar,
enquanto você pensa: onde está meu pai? Onde está
o meu irmão? E teme por eles, porque já aprendeu que
a vida é como um grande menino que brinca com a gente como
se fôssemos bolinhas de gude que, às vezes, se perdem,
rolando pelos bueiros, despencando pelos canos escuros do subterrâneo
e perdendo-se para sempre do nosso olhar. Não foi assim que
aconteceu com aquele seu amigo que simplesmente deixou, de uma hora
para outra, de aparecer? Disseram-lhe apenas que ele morreu, mas
esta palavra não explicava nada, porque ninguém sabia
dizer para onde ele foi, de forma que ele permanecia presente, todo
o tempo, talvez mais do que nunca, como se estivesse atrás
do muro, ou do poste, ou no quartinho do fundo, e fosse aparecer
a qualquer momento. E isto era absurdo, porque ele nunca aparecia,
e você corria e olhava como se pudesse flagrá-lo na
sua absurda capacidade de não-estar. Mas você nunca
se decidia se ele nunca estava lá, ou se ele sempre estava
lá. E para onde iam todos os mortos? Para onde iam todos
os mortos do mundo? Haveria muros e quartos suficientes para todos
eles se esconderem? Você pensava isto ali, deitado na cama,
abraçado com sua mãe. Mas você era tão
pequeno ainda, e alguém poderia dizer: Não, ele não
poderia ter um pensamento desse, porque ele era tão criança.
Mas, enquanto seu pai e seu irmão não apareciam, o
mundo era um monstro disfarçado que ria do seu medo, e entre
você e ele havia apenas a sua mãe, que contava histórias
de um tempo muito antigo. Às vezes, você duvidava até
mesmo dela e pensava (com terror) que ela voltaria o rosto para
você e você veria que o rosto dela era o de um monstro,
ou mesmo do próprio diabo, e você fechava os olhos
para não ter de enfrentar a realidade de uma transformação
assim tão irremediavelmente triste, porque não haveria
mais salvação. E tudo se transformava – o quarto,
o silêncio do quarto, a voz dela, as ondas longe, o vento
nos coqueiros – numa goela medonha, que se abria para devorá-lo.
Você desejaria correr pelos corredores escuros, abrindo portas
e fugindo e correndo pela noite adentro até não pensar,
porque era apenas isto o que você queria, e você atravessaria
todas as noites da sua vida e sentiria todos os medos, e veria todos
os monstros, e sentiria na pele o ataque maciço dos monstros,
como naquela noite em que acordou gritando, desesperado, porque
formigas e aranhas subiam pelas suas pernas, pela sua barriga, pelos
seus braços, e você gritava, e seus pais acendiam a
luz e sacudiam-lhe, e acariciavam-lhe, e diziam-lhe: veja, meu filho,
não tem nenhuma aranha aqui, e você ainda as veria
por frações de segundo até se desintegrarem,
como milagre, e soluçava muito, meu pequeno menino, e todos
os seus medos resolviam-se assim, com aquele “clic”
mágico do interruptor, com a luz que lhe revelava os rostos
familiares dos seus pais, que eram Deus com o seu tremendo poder
de aniquilar, de um só golpe, todos os males do mundo. Não
era exatamente isto que acontecia agora, com o seu pai chegando
com o seu irmão e acendendo a luz da sala, que clareava o
quarto suavemente, inundando a casa com suas vozes quentes, e você
abria os olhos e via que era mesmo a sua mãe que estava ali,
ao seu lado, e você se envergonharia de ter pensado mal dela,
e sentiria vontade de dizer:
- Mãe, você me perdoa?
E ela perguntaria:
- Por que, meu filho?
E você não teria coragem de dizer:
- Porque eu pensei que você era o diabo.
E diria apenas:
- Por que tive medo de você.
E apagaria logo todas essas bobagens da sua cabeça, porque
alguém ligaria a TV, a TV antiga, a TV ancestral, a TV pré-diluviana,
que tinha o poder de dissolver todos os fantasmas do mundo. E sua
mãe se levantaria e iria à cozinha, e prepararia o
jantar e você sentaria à mesa, com sua família,
como quem senta diante dos deuses. E tudo era como devia ser naquele
distante ano de 1962, que você lembra agora, meu velho amigo,
sozinho, nesta melancólica noite de sexta-feira, segurando
com força as grades do portão deste imenso hospital
que se estende daqui para nunca mais.