CONTO - O PLANO SECRETO
26/04/02
O homem tomou o táxi, em frente ao Sanatório São
Paulo, no Aquidabã. Não cumprimentou o motorista,
limitando-se a dizer secamente.
–
Barra, por favor. Rápido.
Olhou a pedra que levava numa pasta preta. Pensou que era bom
ter com o que se defender, com tantos loucos varridos andando
aí pelas ruas.
– Por onde o senhor quer ir? – perguntou o motorista,
que tinha o mau hábito de mastigar um palito, jogando-o
para um lado e outro da boca.
Apontou em direção à Baixa dos Sapateiros.
Iriam pela Rua da Independência até a Joana Angélica,
desceriam a Ladeira da Fonte Nova, contornariam o Dique, seguiriam
pela Vasco da Gama, retornariam pelo Rio Vermelho, passariam por
Ondina, pegariam a Centenário e...
–
Bem... o patrão é quem manda – disse o motorista.
– Rápido. O tempo ruge – disse o homem, olhando-o
de relance. Estranhou a cor pálida do taxista, os cabelos
escorridos, o bigode preto – que lhe pareceu falso –,
os óculos escuros. Desviou os olhos para fora. Observou
as pessoas que passavam. Chamou-lhe a atenção um
entregador de pizzas, de cor estranhamente esbranquiçada,
magro, de gestos bruscos, esquisitos. Dirigia uma moto, que desapareceu
numa esquina. – Estranho – murmurou, quase como se
falasse consigo próprio. – Poderia jurar que era
o Jackson.
– Jackson?
– Sim, o Michael. Ficou
uns segundos em silêncio, como se matutasse alguma coisa
muito séria, e acrescentou.
– Mas que coisa mais esquisita: Michael Jackson entregando
pizzas, aqui, em Salvador...
– É... bota esquisito nisso – disse o motorista
sorrindo para ele, que se manteve, no entanto, sério. Melhor
dizendo: compenetrado.
O carro parou numa sinaleira. Uma babá morena, alta, de
pernas esguias, passou, pela faixa de pedestres, empurrando o
carrinho de bebê.
– Você viu?
– O quê?
– Aquela mulher. Que Bush lance um míssil sobre a
minha cabeça se não era a Roberts.
– Roberts?
– Júlia. Ora, não se faça de desentendido.
O motorista pigarreou. Engrenou a primeira. Passavam no Largo
de Santana quando o homem exclamou, agora visivelmente excitado.
– Pelas barbas do mulá se aquele não é
o Jagger!
– Quem?
– Mick Jagger. Você não sabe? O pai do filho
da Luciana Gimenez. Ali, dirigindo o caminhão da Brasilgás.
O motorista, um pouco nervoso, virou a cabeça, mas o caminhão
já havia desaparecido em direção ao Politeama.
– Mas... você... ele... – o motorista não
sabia o que dizer.
O passageiro estava visivelmente agitado. Alguma coisa muito estranha
está acontecendo aqui – pensou ele, tentando lembrar
de onde conhecia o motorista, que evitava, agora, encará-lo.
O que poderia fazer com que todas aquelas celebridades estivessem
ali, disfarçadas, como pessoas comuns? Lembrou ter ouvido
algo a respeito das ameaças feitas, por sobreviventes da
Al Qaeda, a artistas proeminentes da Europa e dos Estados Unidos.
“Alá os transformará em pó!”,
teria dito, se não lhe falta a memória, o próprio
Bin Laden, em carne e osso e barba. Teria havido, desde então,
uma migração em massa dos astros para os chamados
“países periféricos”, adotando nova
identidade – identidades que não despertassem nenhuma
suspeita.
–
Hum.
– O que foi?
– Então é isso! – disse ele, olhando
o motorista, que apertou os lábios e franziu o nariz. Havia
um leve nervosismo nas mãos dele. Observou que acelerava
mais o carro, ansioso para chegar ao destino. Mas não o
deixaria escapar, não sem que antes ele confessasse.
– E então? Você vai ou não vai confessar?
– Confessar o que, meu amigo, pelo amor de Jesus Cristo?
– Que você é o McCartney.
– Você está doido!
–
Querendo me enganar, hein? Confesse, McCartney, que você
veio pra cá por causa do Bin Laden. Tirou a pedra da pasta.
– Confesse, ou eu explodo sua cabeça com o meu tomahawk!