O MAGO DOS TRANSISTORES



A Tarde – Coluna Ultraleve
27/03/2002


Vejam vocês que, outro dia, num momento de tranqüila ociosidade, infelizmente tão rara nesses nossos tempos de aguerrida competitividade, deixei-me levar por um pensamento muito besta que se resume na seguinte indagação: qual era a pessoa mais importante que havia no bairro em que eu morava, durante a minha infância? Ou melhor: quem era a pessoa mais importante, do ponto de vista de sua utilidade social?

Para responder a esta pergunta, tentei reviver o menino que passou sua infância e adolescência na Itapuã dos anos 60 e 70. Voltei a povoar o lugar com seus antigos habitantes, muitos deles, hoje, mortos. Recoloquei, nos seus devidos lugares, as dunas alvas e os brejos que margeavam a Avenida Octávio Mangabeira, que se prolongava até o Aeroporto 2 de Julho, hoje ocupada por casas e lojas. Devolvi à sonoridade do bairro o ruído ancestral das ondas, do vento nos coqueiros, os cantos dos curiós e dos vendedores ambulantes, dos jegues e dos sagüis. Dei, enfim, um freio de arrumação no falso progresso que aterrou nossas lagoas e os nossos sonhos de vivermos em paz. Esmiucei momentos mágicos e procurei, lá no fundo do corredor luminoso da memória, a ilustre figura.

Quem era ela? Uma grande personalidade? Um sábio? Um profeta? Não tanto, mas, naqueles dias tranqüilos, nos quais o nosso maior medo era o de sermos capturados pelo papa-figo (um sujeito muito do malajambrado que colocava as crianças num saco e as levava para comer-lhes o fígado) e pela cavala (uma mulher que, por ter batido na mãe, foi amaldiçoada, transformando-se num estranho ser, misto de gente, cavalo e pássaro, que saía de um lugar misterioso das dunas do Abaeté, nas noites de sexta-feira 13, e sobrevoava o bairro emitindo um grito horripilante), a pessoa mais importante para mim era, nada mais nada menos que o... técnico de televisão.

O leitor está decepcionado? Sim, já posso até ver o seu sorriso de mofa e desdém. Mas veja: ele, o nosso então muito prezado seu Menezes, era o único técnico disponível, durante muitos anos, naquela era pé-informatizada; era o nosso grande salvador da pátria. Vale lembrar que as TVs eram então grandes caixotes insubmissos cujas imagens, em preto-e-branco, eram afetadas por toda espécie de interferências: chuviscos, raios, linhas, faixas horizontais e verticais que tinham a extrema petulância de se intrometerem na frente dos nossos heróis preferidos (Zorro, Batmasterson, Os Agentes da U.N.C.L.E., James West, Daniel Boone, os dois kids: Durango e National, bem como os seriados de aventura que terminavam, cada capítulo, numa situação de extremo suspense: o carro caindo no abismo, o herói amarrado junto a um paiol de dinamites que explodia etc. etc.). Elas, as TVs, eram geralmente acompanhadas por estabilizadores de voltagem barulhentos, que se esforçavam além dos seus limites para manter a imagem intacta durante as violentas quedas de energia, que aconteciam geralmente nos finais de tarde.

Agora, imaginem vocês como eu – telemaníaco inveterado, cuja fascinação pelos programas de TV só era igualada à que tinha pelas histórias em quadrinhos – ficava quando a nossa velha Telefunken sucumbia aos efeitos imponderáveis das quedas de energia? E pensem só na expectativa que eu sentia quando meu pai chamava seu Menezes; a nossa alegria quando, após torturante espera, ouvíamos o ruído da lambreta aproximando-se e o fascínio de vê-lo chegando, abrindo o televisor e mexendo na barafunda misteriosa e, para nós, extremamente perigosa, de fios e transistores.

Sim, meus amigos, ao contrário do que muitos pensam e dizem, a grande personalidade daqueles velhos tempos, na nossa Itapuã, não era Vinícius de Morais ou Dorival Caymmi; não era o médico, o delegado ou o grande proprietário de terras. Era, isto sim, o nosso mago dos transistores – único homem, no universo, que tinha o poder mágico e misterioso de devolver-nos o sonho e a aventura perdidos num horizonte deflagrado de faixas e chuviscos.