CONTO - COMO NUM NEVOEIRO


06/07/01



Marcos ficou surpreso quando viu Marília atravessando a rua. Ele a encontrara pela última vez há quase 10 anos, ainda nos tempos da faculdade, e acreditara mesmo que jamais tornaria a encontrá-la, desde que ela havia se casado e partido com a família para a Itália. Naquele momento, parado em frente ao Palácio Rio Branco, onde se abrigara da chuva agora fina, que caía, veio-lhe à mente a imagem de Marília na casa de praia: deitada de bruços sobre a cama, sorria com as suas gaiatices.

– Você é um palhaço – dizia ela, sorrindo, e este, aliás, era o objetivo principal das suas brincadeiras. Deliciava-o vê-la relaxada e, por isso, mais receptiva.

– Eu sei – disse ele, ficando de repente sério. Deitou-se sobre ela, e continuou, sussurrando-lhe no ouvido esquerdo. – Mas...

Ela ficou também séria; ele podia sentir suas coxas contraírem-se. Sorrindo intimamente, manteve o silêncio.

– ... o quê?

E disse:

– Precisamos falar.

Ela:

– Sobre nós?

Ele:

– Sim.

Levantou-se. Ela também. Caminhou até a frente do espelho, arrumou os cabelos. Ele enrolou uma toalha na cintura, sentou-se na cama, acendeu um cigarro (não porque gostasse de fumar, mas porque associava o cigarro a momentos solenes – mas aquele era um momento solene? Sim, aquele era um momento solene).

Continuou ali, parado, saboreando, com os olhos, o corpo dela. Gostava, mais do que tudo, da cor morena, do contraste da pele morena com a pele clara, uma fina linha deixada pelo biquíni. Gostava do jeito firme – não apenas do corpo dela, mas da sua expressão, do seu jeito de movimentar-se, do seu jeito de falar e, até mesmo, da sua forma de silenciar. Até mesmo da sua dúvida, da sua perplexidade.

– Por que isso, agora? Não podemos deixar para depois?
Ele soprou a fumaça que ficou suspensa, entre eles, a imagem dela meio perdida, como num nevoeiro.

Por quê? – pensou Marcos. A chuva diminuía de intensidade, e a imagem de Marília saía agora como que de dentro de um nevoeiro, enquanto ela atravessava a rua, aproximando-se dele, sem saber.

– Marília – disse ele, baixinho.

Ela parou. Olhou para o lado. Continuava linda, mais bonita agora porque mais madura, seus passos estavam mais firmes, a garota insegura transformara-se numa mulher, pensou Marcos antecipando algo, como um velho lobo-do-mar que se delicia com a idéia de novamente singrar águas já percorridas. Sim, ele também era senhor do seu ofício, e ela certamente traria algo mais na sua bagagem de viajante.

O olhar dela cruzou o dele. Ele esperou, com inesperada ansiedade, uma reação. Mas ela não demonstrou surpresa ao vê-lo.

– Tudo bem, Marília?

Ela sorriu, e ele respirou aliviado. Por instantes, chegou a pensar que não o reconheceria; e estranhou a súbita percepção de que pensara isso como alguém que não se considera digno de ser reconhecido. Ele associou esse pensamento à idéia absurda de que estava ficando velho, e isto o desagradou. Mas, manteve os olhos fixos nela, sem saber ainda se ela aceitaria uma reação mais efusiva, ou se a tomaria como uma ofensa. Afinal...

Estendeu a mão, e novamente a viu no quarto. Ela também acendera um cigarro, agora nervosa. Já havia vestido a roupa; olhava fixamente para um ponto qualquer do quarto.

– Você vai me deixar? – perguntou. Marcos já vira aquela cena muitas vezes antes, com muitas outras mulheres. Sabia que momentos como aquele eram necessários; o preço que precisava pagar pelos momentos que usufruíra. A reta final antes do desenlace, daquele momento mágico no qual se sentiria mais uma vez livre para novas investidas. O importante, pensou enquanto a olhava, o importante é fazer a coisa certa, evitar mágoas e ressentimentos, fazê-la crer que ele não tinha outra alternativa e que, para ele, era ainda mais doloroso.

– Você não mudou muito – disse ela, sorrindo, o rosto molhado. Ela também não mudara, pensou, mas havia algo novo e indefinível no seu olhar, uma alegria que o excluía. A ausência completa de ressentimento no olhar dela o incomodou. Sentia-se diminuído, esquecido e quase sentiu raiva.

– Podemos conversar?

Ela o olhou como se olha um irmão mais novo, como a um irmão caçula que não sabe o que diz. Mas ele já tinha 50 anos!

– Não posso. Tenho um compromisso importante agora. Tenho que ir. Adeus – disse ela, voltando-lhe as costas. Acenou para um táxi.

Ele insistiu.

– Não vai demorar. Cinco minutos, apenas; é pouco, não acha?, para quem não se vê há...

O táxi parou.

– Pensei muito em você nesses 10 anos – disse ele. Ela
abriu a porta. – Talvez você não acredite, mas... hoje eu sei que agi errado.

Marília entrou no carro. Ele segurou a porta.

– Marília... diga-me, então, onde posso encontrá-la, à noite talvez.

– Preciso ir – disse ela, com calma, mas com firmeza –, solte a porta, por favor.

– Eu não vou permitir que você se vá, mais uma vez.

O motorista olhou para a mulher. Ela acenou com a
cabeça. Ele arrastou o carro. Marcos tentou ainda contê-la, num gesto patético. Escorregou, mas conseguiu equilibrar-se, evitando a queda. O carro desapareceu numa esquina.