CONTO - O NATAL DE FELICIDADE


21/12/01



O repórter chegou à invasão Recanto da Felicidade, localizada na Avenida Jorge Amado, no Imbuí, quando as sombras das árvores e dos arbustos já começavam a alongar-se sobre a terra amarela. Era a semana que antecedia ao Natal de 2001, e ele sentiu um profundo pesar ao ver o presente que estava sendo dado, pelo poder público, às 850 famílias que viviam no local. Olhou em volta o que lhe pareceu ser o cenário de uma guerra: cerca de cem barracos derrubados, pedaços de madeira, compensado, papelão, cacos de telhas, barro, colchões, fronhas, canecos, objetos espalhados por todos os lados.

O quadro era desolador: funcionários da Conder circulavam e, apoiados por policiais militares, recolhiam os pertences dos moradores, colocando-os num caminhão. O repórter conversou com o comandante da operação. Quis saber se havia um mandato, uma ordem judicial. Não havia. A ilegalidade, atribuída aos “invasores”, era também praticada, ali, pelo poder público. Mais do que ilegalidade, um grave erro: ou não é absurdo retirar os últimos miseráveis bens de pessoas que já quase não têm mais nada a perder? Retirar e não dar nada em troca. Nenhuma alternativa digna!

O comandante afastou-se. O repórter entrevistou alguns “invasores”, que alegavam não ter para onde ir. Tiveram suas casas invadidas por homens armados, que chegaram derrubando tudo sem dar sequer uma satisfação. Moradores de um condomínio próximo alegavam que a proximidade da favela desvalorizaria seus imóveis e tornava o lugar menos seguro, mas nada foi provado contra os moradores de Felicidade.

- Dizem que aqui tem marginais, mas nós tiramos os antecedentes criminais de todos os moradores, provando que todo mundo aqui é trabalhador. Existe um grande preconceito com o pobre, mas ninguém tem a coragem de vir aqui para ver a nossa realidade. A verdade, meu amigo, é que, se eu sair daqui, vou ter que morar debaixo de uma ponte - disse uma das moradoras.

O repórter ficou olhando a cena, refletindo sobre o que, de fato, acontecia ali. Não queria correr o risco de passar por inocente útil, mas o argumento da existência de “invasores profissionais” entre os moradores não justificava a atitude brutal contra pessoas sacrificadas no seu direito elementar de ter quatro paredes e um teto para abrigar-se. Há, também, a necessidade de organizar a posse da terra, de ordenar o uso do solo, afinal de contas, trata-se de um problema de ordem pública. Mas que “ordem pública” pode ser criada com a produção de uma legião de deserdados? De seres humanos espoliados dos seus mais elementares direitos?

Se considerarmos o argumento de que a terra não lhes pertence, como admitir então a existência das chamadas invasões do “colarinho branco”? Seguindo essa mesma lógica, não deveria o Estado, também, colocá-las abaixo, à força dos fuzis e das metralhadoras? Agora, imagine a polícia invadindo as casas de jornalistas, médicos, advogados; empurrando homens, mulheres e crianças para fora, como gado, prendendo, agredindo, destruindo. Que escândalo seria! Certamente, não faltaria quem a comparasse à SS nazista. Mas, aqui, pondo abaixo os casebres dos miseráveis, ela é apenas a nossa honrada PM, responsável por manter a segurança pública. Mas, segurança de quem?

O repórter ouviu, em silêncio, a derrubada de mais alguns barracos - e, além disso, a voz que havia por trás daquela atitude. “De onde parte a ordem que move este crime? De que honrado gabinete parte a palavra que destrói, impiedosamente, tantas vidas? De que asséptica reunião de homens notáveis parte a ordem do Herodes que, na grande cidade invisível, empurra homens, mulheres e crianças para a degradação, como entulhos, como lixo, como escória?

Esse é o presente de Natal que a cidade dá aos seus filhos mais pobres. Pensativo, diante da sua consciência, o repórter quase pôde ouvir, naquele momento, entre os sinos de Belém, o ruído de dezenas de barracos sendo destruídos, o gemido das crianças e o silêncio vergonhoso da sociedade que se omitia.