GUIDO GUERRA: AUTO-RETRATO AOS 60

Livro-coletânea a ser lançado na quinta-feira traz mostra da produção literária do manso escritor que escandalizava as elites com crônicas irreverentes semeadas de palavrões
Jornal A Tarde - 19/07/03

Aos 60 anos de idade, completados em janeiro deste ano, o jornalista e escritor Guido Guerra, nascido na cidade de Santa Luz-BA, em 1943, já transcendeu, há muito tempo, os rótulos que lhe pregaram no passado. Mais do que o Papagaio Devasso ou o Língua de Trapo, que se fazia temido, aos vinte e poucos anos de idade, por suas crônicas e matérias irreverentes e desabusadas, publicadas nas páginas do
Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia e do Diário de Notícias, ele é mais conhecido hoje pela qualidade da sua produção literária, que somam 11 títulos, incluindo três volumes de contos, um de crônicas, dois de novelas, quatro romances e um ensaio-reportagem sobre Vicente Celestino. (Veja quadro).

A esta produção soma-se agora a antologia Auto-Retrato, que registra, de forma exemplar, quatro décadas de vida do escritor, dedicadas à literatura e ao jornalismo. E não apenas baianos, diga-se de passagem, mas brasileiros, considerando-se que grande parte de sua obra foi lançada em nível nacional, por editoras como a Civilização Brasileira e a Record. Vale lembrar ainda que o autor de Lili Passeata publicou, durante alguns anos, resenhas literárias semanais no jornal O Estado de São Paulo – resenhas valorizadas e, ao contrário do que costuma acontecer por essas plagas, muito bem remuneradas.

COLETÂNEA – O livro, que será lançado na próxima quinta-feira (24), das 18 às 22 horas, na Grandes Autores Shopping Cultural, em Ondina, reúne uma caprichada seleção, feita pelo próprio autor, de crônicas, contos, ensaios, duas grandes entrevistas, com Jorge Amado e Vicente Celestino, e trechos de novelas e romances, além de uma iconografia (caderno de fotos) de Guerra ao lado de figuras como Jorge Amado (seu maior incentivador no início da carreira), Ariosvaldo Matos (seu grande mestre no jornalismo); de ex-colegas das lides na imprensa, tais como Othon Jambeiro, que atuou com ele no semanário Folha da Bahia, empastelado pelo Governo Militar; de escritores antigos e novos, como Vasconcelos Maia e Aramis Ribeiro Costa.

Dos amigos fiéis, estão lá: James Amado, Calazans Neto, Sante Scaldaferri, Florisvaldo Mattos, Vera Pessoa e Ruy Espinheira Filho – sem falar, é claro, de Céli e Isadora Guerra, mulher e filha, respectivamente, e nos companheiros de infância, representados aqui pelos desdentados Pituca e Moleque Bololó, que mais parecem ter saído das páginas do ficcionista.

Trata-se de uma edição cultural – de grande importância por tornar acessível à nova geração de leitores uma fração da obra deste escritor –, mas também, segundo o próprio Guido, uma iniciativa afetiva dos amigos James Amado, responsável pela concepção e projeto editorial; Cid Seixas, pela editoração, capa e planejamento gráfico; e Ruy Espinheira Filho, pelo apoio técnico. A edição conta com patrocínio da Fundação Gregório de Mattos e de Carlos Eduardo Vilares Barral.

O resultado desse tour de force é expresso por Espinheira no texto intitulado “Guido Guerra por ele mesmo”, que consta na contracapa do livro: “– Aqui está um escritor em alguns momentos exemplares de sua arte. Uma arte que esplende de mil maneiras – no jornalismo, na crônica, no conto, no ensaio, na crítica, no romance. São textos, diz Espinheira, que “nos falam do homem em suas grandezas e vilezas, amores e desamores, luminosidades e trevas, generosidades e mesquinharias. (...) Arte feita com vigor, caráter, emoção, pulsante de vida”.

RETROVISOR – Como toda boa antologia, Auto-Retrato pode servir como incentivo para o conhecimento de obras que marcaram época, como As Aparições de Dr. Salu – recriação da lenda de um médico que atuava na região de Cipó, salvando vidas, o que, segundo o povo da região, continuou fazendo mesmo depois de morto. (Aqui, segundo Guido, uma abordagem da “mistificação de um povo através da alienação religiosa”). Ou como o romance O Último Salão Grená, enfocando a noite baiana nos anos 60, reconstruindo a atmosfera de casas noturnas e tipos populares de Salvador, num período anterior ao das avenidas de vale. Ou ainda a trilogia Lili Passeata, Quatro Estrelas no Pijama e Percegonho Céu Azul do Sol Poente, que têm como ponto de ligação a temática política – num “momento que era essencialmente político”, talvez no pior sentido que se possa esperar dessa palavra.

Vale lembrar que quando Lili Passeata foi publicado pela Civilização Brasileira, em 1978, fazia pouco tempo que o famigerado Comando de Caça aos Comunistas (CCC), havia explodido um depósito da editora (além de várias bancas de revistas que ousavam vender publicações então consideradas “subversivas”).

Sobre este livro, disse Guido em depoimento ao projeto Com a Palavra o Escritor, em 1995: “Jorge Amado foi quem primeiro leu a versão original de Lili Passeata. Por mais tolerante que fosse com jovens autores – sobretudo com os que protegia, como era o meu caso e o de João Ubaldo – se vexou e temeu pela minha segurança. Botou a mão na cabeça e falou, com um riso entre compreensivo e irônico: “Quer botar todos nós na cadeia, o Calá, que vai fazer as ilustrações, o James, o Ariosvaldo, que já esteve várias vezes na cadeia, eu, todo mundo?”

MATURIDADE – O franzino rapaz, de nariz adunco e basta cabeleira, não só não hesitava em arriscar meter a si próprio e a todos os seus amigos na cadeia, como em escandalizar a sociedade provinciana, através da utilização, em suas crônicas e reportagens, de gírias, palavrões e personagens populares considerados “indecentes” pelos leitores. Segundo Guido, “a coluna do Diário de Notícias escandalizou a Bahia porque colocava prostitutas como personagens do cotidiano e usava expressões que não eram usadas”.

– A imprensa da Bahia era muito reacionária. Imagine que quando pronunciei as palavras “porreta” e “retado”, na TV Itapoan, o apresentador Sérgio Bittencourt foi chamado à Polícia Federal. E quando Danuza Leão esteve na Bahia e pronunciou “porreta”, o auditório gritou: “É Guido Guerra!”. Então eles associaram a mim uma palavra que era do falar baiano – mas que não podia ser dita nas TVs e nos jornais. Hoje eu não escandalizaria mais ninguém - recorda.

De fato, até a Academia de Letras da Bahia, no passado reduto do conservadorismo político e cultural, abriu suas portas (não sem resistência, com 15 votos contra cinco) para Guido, em 2001. Mudou Guido ou a Academia? Talvez ambos. “Isto foi idéia de amigos, mas é evidente que não tenho nenhum espírito acadêmico. Disseram, inclusive, que eu não tinha perfil acadêmico: andava de chinelo, camisa aberta ao peito, como ainda ando; falava e falo palavrões. Outros diziam que eu era o que nunca fui: comunista. A minha entrada na Academia foi isso: resultado de uma união de afetos. Mas não entrei como se conquistasse um prêmio. Entrei para estar mais próximo dos meus amigos”, sublinha.

Guido Guerra vive um momento bom da sua vida, após ter passado por uma fase difícil em função de um câncer de pulmão. “Estou bem, não tenho mais nenhuma restrição à alimentação; como gordura, como tudo”, diz ele. Deixou de fumar, o que fazia há 45 anos, nos últimos 20 anos três carteiras por dia, mas não largou outro dos seus hábitos - o cafezinho -, que oferece, invariavelmente, a todas as pessoas que o visitam em seu apartamento, no Candeal de Brotas.

Responsável, nos últimos nos últimos dois anos, por um projeto editorial – o selo Edições Cidades da Bahia - através do qual já publicou 15 títulos de autores baianos, entre poesia, contos e ensaios, Guido vem se dedicando pouco à literatura. Tem, entretanto, na gaveta, um livro de ensaios inéditos sobre a opressão à mulher, e algumas idéias na cabeça. “São idéias para romances, para contos, alguma coisa iniciada no computador, mas muito precariamente. Posso publicar dois ou três livros, ou nenhum”, afirma.

Indagado sobre a razão de não atuar mais como cronista nos jornais de Salvador (sua última experiência foi no extinto jornal Bahia Hoje, no início dos anos 90), responde que os jornais já não têm mais interesses por cronistas, muito menos pelos que, como ele, são considerados caros. Mas vê com bons olhos o rumo da imprensa – que hoje deixa de se apegar aos fatos para tornar-se mais analítica.

Quanto à literatura baiana, a voz é otimista. “Têm surgido bons autores, como Állex Leilla e os nomes aparecidos na Coleção dos Novos, dentre os quais eu destacaria Orlando Pereira dos Santos, Roberval Pereyr e o próprio Aleilton Fonseca, além de Aramis Ribeiro Costa que talvez tenha descoberto que seu verdadeiro caminho é mais o conto que a poesia. Destaca ainda Gerana Damulakis, como uma “ensaísta de recursos analíticos”, e o poeta José Inácio Vieira de Melo, da nova geração. “Não será por falta de vocações que a Bahia vai prover o Brasil de autores de qualidade”, conclui.