CONTO -
O GRANDE IRMÃO


30/03/01


Foi no inverno de 1963, disse o pai ao menino. Foi no inverno de 63 que o vi pela primeira vez. Eu tinha cinco anos de idade. Descia a ladeira do Pelourinho, à noite, de mãos dadas com meu pai. Ventava muito, o largo estava deserto, a janela de um sobrado batia intermitentemente. Pude perceber o vulto dele, recostado na parede lateral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Vestia um casaco marrom surrado, como os daqueles sujeitos mal-encarados que perambulavam pelo Centro Histórico, no século passado. Mergulhado na sombra, olhava enviesado para um ponto indefinido do casario cinza e triste ou para além das torres da Igreja do Passo, que se erguem acima dos sobrados. Voltei o rosto, para vê-lo melhor, mas meu pai mandou que eu olhasse para a frente, e o perdi de vista.

No ano seguinte, comecei a estudar na escola Santa Tereza, da professora Almerinda, no Carmo. Era uma manhã chuvosa aquela em que, segurando a mão da minha prima Lurdes, eu atravessava o largo, em direção à escola, enfrentando as rajadas fortes do vento, como um explorador que luta contra as intempéries em direção ao Pólo Sul. A praça parecia deserta, mas pude ver, através da cortina d’água, que me empapava o casaquinho de estudante, o homem, agora mais gordo, na janela de um dos sobrados. Quis mostrá-lo à minha prima, mas, no momento exato em que pensei isto, a janela fechou-se. Ainda fiquei alguns segundos com os olhos suspensos, mastigando minha curiosidade, em segredo.

Por volta de 65, mudamo-nos do apartamento, no Taboão, localizado na rua Silva Jardim, 34, no segundo andar de um prédio antigo, em frente ao edifício conhecido como “A bola verde”, para Itapuã, então um sossegado bairro de veraneio. Era uma tarde fria de agosto, quando o vi pela terceira vez, parado, ao lado da antiga casa de pedra, localizada na praia de Armação...

- Casa de pedra?

- Sim. Ela era usada pelos pescadores para guardar mantimentos. A casa ainda está lá, mas quase niguém repara nela, hoje.

Mas, enfim, o homem falava com alguém, que não pude ver. Gesticulava muito, como se estivesse zangado. O vento, como se lhe acompanhasse o humor, soprava forte sobre os coqueiros, varria as dunas, que se estendiam por toda a região, sacudindo as palhas como grandes cabeleiras. Olhei-o de longe, pela janela do ônibus, que deslizava, lentamente, na avenida beira-mar. Fiquei em pé, no banco, mirando-o, com um olhar comprido, até que a imagem dissolveu-se no ar impregnado de maresia.

Antes que entrasse pela adolescência, deixando para trás, derrotados, como num campo de batalha, os meus últimos sonhos infantis, pude vê-lo mais uma vez. Eu brincava de picula, com alguns amigos, no areal localizado em frente à minha casa, na avenida Octavio Mangabeira, em Itapuã. Havia, naquela época, poucas construções no local: meia dúzia de casas sobre dunas e brejos, cercadas de coqueiros, cajueiros, mangabeiras e pitangueiras. Pude vê-lo, do galho mais alto do cajueiro, sobre a duna, elevando minha cabeça acima da copa da árvore sacudida pelo vento. Ele atravessou a estrada e entrou num aero willys azul, que estava parado no posto de gasolina da Nova Conquista, na época também conhecida como Cuba. Não pude saber o que fazia ali, mas, de longe, seu olhar pareceu-me duro, ou triste, não sei, quando um último raio de sol daquela tarde iluminou-lhe o rosto.

Em 68, quando a ditadura militar eliminava pessoas, nas paisagens sépias do Brasil sitiado, vi-o, de relance, num automóvel preto que cruzou com o DKW do meu pai, na Bahia-Feira. Foi rápido. Um militar ía ao volante. Tive a impressão que ele sorria, mas era um sorriso de escárnio. No ano seguinte, quando meu irmão servia ao Exército, no 19-BC do Cabula, e Lamarca aterrorizava os quartéis com seus assaltos-relâmpagos, cruzei com ele, na Praça Castro Alves. Meu pai me levara para assistir a uma comédia de Jerry Lewis, no cine Guarani. Na saída do cinema, ao passarmos em frente ao prédio de A TARDE, vi-o parado, próximo à estátua do poeta, estendendo o olhar sobre as águas azuis da Baía de Todos os Santos. Por alguns segundos, pela primeira vez, pareceu-me que eu podia vislumbrar seu pensamento. Foi quando tive, por um rápido momento, a impressão que ele também me via. Assustado, indaguei se alguém percebia sua existência, mas foi inútil. Todos o ignoravam, ou fingiam ignorá-lo.

Os anos 70 escorreram-se, em meio aos acordes carnavalescos de Armandinho e Moraes Moreira; nas noitadas no bar Quintal do Raso da Catarina; nos encontros na Literarte; nas passeatas no Campo Grande; nas canções de Diana Pequeno, Taiguara e Ednardo; nos momentos mágicos passados nos cines Tupy, Bahia, Liceu, Capri, Popular, Excélsior e Politeama onde assisti, fascinado, a filmes como Aeroporto, O Ovo da Serpente, Um Dia de Cão, Maratona da Morte e O Homem Que Queria Ser Rei, entre tantos outros; nas danças psicodélicas dos coqueiros em Berlinque; nos duelos (quase fatais) na academia de Hap-Ki-Do, de Jung Duck Lim, na Carlos Gomes; nas competições de atletismo, sob a batuta do grande Bento, na Fonte Nova. Vez ou outra o via, sempre ao longe, de relance, como a um fantasma, sem jamais poder fixá-lo ou alcançá-lo. E, assim, ele entrou, pelos anos 80 e 90, pairando, cada dia mais, sobre a Bahia, como um sol enganador, apertando seus tentáculos, como aquele grande polvo das 20.000 Léguas Submarinas, lembra-se?

- Lembro.

- Como um fantasma que todos, isto é, quase todos, temiam, e do qual ninguém, isto é, quase niguém, queria falar...

O menino, mergulhado debaixo dos lençóis, arriscou mais uma pergunta.

- Ele era o diabo?

- Não - disse o pai, rindo. E, vendo que o filho estava assustado, ajuntou - Ele não era o diabo. Era, apenas, o nosso Grande Irmão. Mas nada dura para sempre. Um dia, ele sumiu. Percebi isso há muitos anos, numa tarde de sexta-feira, em que, ao passar em frente ao elevador Lacerda, na Praça Municipal, senti, pela primeira vez, que ele, finalmente, desaparecera. O ar estava mais limpo, havia uma estranha fragrância no ar. Eram seis horas da tarde quando ouvi um ruído estranho, como se os sinos das igrejas e os atabaques dos terreiros tocassem ao mesmo tempo. Mas, nada mais havia, ao meu redor, que o costumeiro ruído dos carros, das buzinas, dos murmúrios das pessoas. Naquele momento, pareceu-me ouvir alguém, longe, bem longe, cantando o hino do Senhor do Bonfim. E tudo acabou.