DOCE FRANCISQUINHA


No inicio da noite cálida de uma terça-feira, há cerca de uns quatro meses, eu vinha batendo pernas por Itapuã, quando a vi: a querida velha senhora, na varanda da casa, na rua do Jenipapeiro, onde nasceu há 86 anos, mergulhada no que me pareceu ser uma longa e profunda meditação. Os cabelos brancos, a pele negra, as rugas...

– Dona Francisquinha? – perguntei, olhando a doce figura.

Mas que bons ventos me levaram, sem que eu mesmo percebesse, à porta da casa da nossa sábia mestra, Francisca Passos, criadora, com a saudosa dona Áurea e outras veneráveis senhoras itapuãzeiras, do grupo Mantendo a Tradição, memória viva de Itapuã? Ela levantou as vistas, mas não demonstrou nenhum entusiasmo ao ver a minha cara. Limitou-se a falar, com um misto de ternura e fastio.

– E aí, seu menino, andando por aí à toa, é? Não tem mais o que fazer não?

Ensaiou buscar uma cadeira. Apressei-me em dizer que não precisava, só estava passando, não ia demorar. Mas que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?

– É a vida. É a vida. Você acha pouco?

Mas, dona Francisquinha, a senhora não tem o direito de ficar triste! Assim também já é o fim do mundo! E por que esse desânimo?
Ela suspirou. E disse.

– São as maldade, meu filho. As maldade! A gente liga o rádio, ouve maldade; liga a televisão, vê maldade; abre o jornal, lê maldade. Você quer saber de uma coisa? Ainda bem que eu já estou perto de ir embora dessa vida. Eu tenho é muita pena desses meninos que estão nascendo. Essa turma miúda que anda por aí. Como é possível viver num mundo em que ninguém respeita mais ninguém? É filho gritando com pai, é pai batendo na mãe, é mãe largando filho por aí, à toa. Eu não sei não, viu, seu menino. Eu não sei não.

Não lembro o que falei em seguida. Devo ter dito algum lugar comum que sempre me vem à cabeça nesses momentos: que as coisas não estavam assim tão ruins, que o mundo hoje tem muitas coisas boas, que devemos pensar positivamente – e me despedi. Voltei a mergulhar na noite, nas ruas, nos meus pensamentos, carregando a vaga sensação de que o ânimo abatido de dona Francisquinha era, talvez, um sinal de alerta. Aquela mulher sempre fora, no bairro, referência constante de alegria, em sua luta incansável para manter a tradição dos reizados, dos sambas-de-roda, dos ritos e celebrações de aparições milagrosas, como a de São Thomé, que chegou mesmo a deixar a marca dos seus pés, em Piatã. Ela era o sal da terra. Tempero cada dia mais escasso em nossas horas cinzentas.

Ah, esse arraigado espírito romântico. Essa tendência de achar que o passado era sempre uma Pasárgada, quando, na verdade, nem tudo era assim tão azul. Como, vale lembrar, na Itapuã de há 30, 40 anos, onde o pau comia a torto e a direito. Havia brigas de turmas, as festas acabavam quase sempre com cadeiras e mesas voando, muita gritaria, turma do deixa-disso e muito álcool. Mas havia menos revólveres, não havia escopetas, fuzis e, convenhamos, era difícil alguém ir para a terra dos pés juntos por qualquer ui ui ui, ai ai ai. E podíamos andar de madrugada, pelas ruas, sem a morte na alma. Isso era alguma coisa, não era, meu velho?

Sim, meu velho, era alguma coisa. Mas, para não me alongar mais, pensei que devia ter pedido a dona Francisquinha que não ficasse assim triste. As maldades passam, como tudo sobre a Terra. Falei isto para ela, dias depois, ao telefone. Ela concordou.

– É, meu filho, você tem razão. Apesar de tudo, a vida hoje tá melhor. Hoje temos farmácia 24 horas. Muitas farmácias, tantas clínicas, tantos hospitais. Hoje a gente já tem onde cair morto. Isso é alguma coisa, não é? – disse ela, com sua habitual singeleza. Não tive outra alternativa senão concordar.

Mas eis que, de repente, na manhã da terça-feira passada, 4 de setembro, recebi a notícia de que dona Francisquinha havia morrido em conseqüência de problemas com uma úlcera. A notícia me trouxe, imediatamente, a lembrança da conversa que tive com ela, e a sua melancólica constatação: ao final de uma vida tão rica de bondade e generosidade, um dos mais belos seres humanos que tive a oportunidade de conhecer só tinha como consolo, num mundo repleto de tanta maldade, o fato de que dispunha de um lugar onde cair morta. Mas, com todo o respeito que a memória da minha querida mestra merece, ouso pela primeira vez discordar dela: Dona Francisquinha, a senhora estava enganada, pois a verdade é que a senhora continua viva, com sua presença radiante, na memória e no coração de todos nós que tivemos o grande privilégio de conhecê-la, com suas lembranças da Itapuã antiga, das baleias, dos pescadores, das ganhadeiras, das velhas lotações, das lagoas e dunas alvas, das fontes límpidas, dos reizados, da verdadeira lavagem da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (feita pelas baianas, no silêncio da madrugada, longe do alvoroço profano), enfim, de todo um tempo que não existe mais. Sim, dona Francisquinha, a senhora era o Sal que temperava a terra e curava as nossas feridas. Descanse em Paz, minha querida.