CONTO - FLOR-DO-MATO

Uma homenagem
08/03/02



Maria nasceu num acanhado e desconhecido distrito do sertão baiano, lá pras margens altas do Itapicuru. Dizem que, na hora H em que botou sua carinha no mundo, um passarim misterioso, que vivia naquelas brenhas, cantou no alto da gameleira: “Maria-da-roça, quem vai te querer?” Era sua avó, dona Nenzinha, quem contava o caso e jurava, beijando os dedos em cruz e olhando pro céu, que era a pura verdade. A velhinha, que tinha cabelos brancos e uma grossa sobrancelha negra, vivia contando pra Deus e o mundo essa história, que deixava Maria sorumbática que só, no seu vestidinho de chita, com os braços cruzados e as bochechas afofadas. E havia, pior!, aquela outra do dia em que resolveu fazer um bolo e, ao ler na receita que era para colocá-lo no forno em banho-maria, entendeu que era para colocar o bolo no forno enquanto tomava banho. “A bichinha pensou que a receita dizia pra ela: bote o bolo no forno e vá tomar banho, Maria”. Ah! Ah! Ah! Ah!, gargalhava a avó, gargalhavam todos, olhando pra ela. “E o pior foi que o bolo queimou!” Ah! Ah! Ah! Ah! Anos depois, no enterro da avó, Maria jurava que o cadáver da velhinha ainda sorria daquela história que ela tirou de sei lá que baú, olha só que mentira mais cabeluda.

Maria cresceu bebendo o leite da vaca, quentinho, no curral; comendo araçá nas matas; tomando banho nuinha no rio, o que lhe rendeu muitas alegrias e um Schistosoma, que quase a mandou para a terra dos pés juntos. Mas num é que a bichinha era mesmo uma renitente? Sobreviveu ao caracolzinho, e à mordida de cobra jararacuçu, e à picada de aranha-caranguejeira, e a febres de dar de penca, e a cada pereba que só vendo. Mas nada disto matou a formosura que florescia naquela flor-do-mato, e, na justa medida em que tomava forma, os olhos da meninada alevantavam-se sobre ela. “Intão era assim que o passarim dizia? Que ninguém ia me querê? Apois, você vai é vê”, pensava ela, lembrando sempre do sorriso da avó morta.

Assim viveu Maria Flor-do-Mato, seus primeiros anos, no meio da molecada, correndo no galinheiro atrás do galinho Quem-quem, ou subindo no galho mais alto da goiabeira, lá onde nenhum menino, nem os mais valentes, jamais se aventuravam a ir, e onde se pendurava de cabeça pra baixo, balançando prum lado e pro outro, gritando: “Vou cair! Vou cair!” - e rindo das caras que faziam. E nem se contam as vezes em que tomou umas boas palmadas pra aprender qual é o lugar de uma menina.
- Mas, eta menina danada de saliente essa! - reclamava a mãe. - Você está com a cebola quente, é, sua pinima?

E acho que foi por essa mania de ficarem chamando-a de saliente, hein, Maria, que você nem tinha completado seus 13 anos, e nem havia ainda largado aquele sabugo de milho que lhe fazia as vezes de boneca, e que você chamava de Maricotinha Qué Qué (mas qué qué o quê?), quando sua barriga foi ficando saliente. E você, que era muito da sonsinha, não esperava que seu pai, aquele homem com jeito manso de bugre, segurasse seu braço com a mão-de-ferro e descesse-lhe a correia com força no lombo, lá mesmo no meião da roça de milho – e eta que foi um tal de pular praqui e pracolá, feito uma cabrita braba, espalhando folha pra todo lado. E, depois, meu Deus, a expulsão de casa, que aqui é casa de gente honrada e não de vagabundinha de meia-pataca.

Que mundão, hein, Maria? Quanta estrada! Você nem imaginava que o mundo tinha tantas esquinas, e becos, e bocas, não é, minha flô? Outros homens vieram, e os filhos formaram essa escadinha que sobe pro céu, mas sem que nenhum deles lembrasse a cara de sua Maricotinha Qué Qué, que se perdeu no grande tempo pretérito! No irrecuperável passado das roças de milho.

Mas você resistiu – e sobreviveu. Hoje, com essa cara tristealegre, com todos seus filhos criados, você lembra da história de sua avó, e, tantos anos passados, faz pra si mesma a pergunta do passarim misterioso:

– Maria-da-roça, quem vai te querer?
Maria Formosa, o mundo é mesmo um desertão. E ainda te posso ver, dobrando, no final de tarde desta sexta-feira, mais uma esquina. Lá vai você, andando, Maria, sozinha, com toda a beleza que o mundo lhe deu.