ÉPICO PÓS-MODERNO
Como
alçar um cidadão comum, sem navio e sem exércitos,
à condição de herói épico?
LUCIANO RODRIGUES LIMA
31/07/04
- A Tarde Cultural
Não
se pode mais narrar como nos tempos homéricos, por razões
diversas. O verdadeiro espírito do épico é
pagão. O herói (pós)moderno não mais
possui a autonomia de gerir o próprio destino (as religiões
monoteístas contemplam um destino, no plano divino, para
todos os seres humanos), tampouco existe consenso sobre o que
é nobre, o certo, o errado, o bem, o belo, etc.
A fragmentação
cultural da sociedade capitalista globalizada e a submissão
do cidadão comum às instituições retiram
qualquer possibilidade de realização de uma epopéia
(nos moldes homéricos), isto é, a narrativa de uma
série de feitos heróicos autônomos realizados
por um herói que representa as crenças e valores
de toda uma nação.
Carlos Ribeiro,
em Abismo, retoma a tradição épica para narrar
a saga de um jornalista, homem citadino comum, sujeito a dúvidas
e incertezas, mas ainda capaz de indignar-se com a falta de verdades
da sociedade consumista em que vivemos e de partir para a aventura
de sua vida: a demanda do Santo Graal.
Caracteriscamente
pós-moderno, o livro dialoga claramente com os grandes
épicos da humanidade, principalmente com Le Morte D’Arthur,
de Sir Thomas Mallory (não interessa se com a obra escrita
ou se a versão filmada com o título de Excalibur,
pois o narrador pós-moderno se reporta também a
outros meios virtuais de narrativa).
As marcas
desse texto fundador estão na fusão entre paganismo
e cristianismo, uma realidade cultural das ilhas britânicas
nos três últimos séculos do primeiro milênio.
O pós-moderno adota o processo de fusões estéticas,
neste caso entre a epopéia clássica e o romance
de cavalaria.
O enredo é
simples, porém revela a sutileza de um narrador experiente,
que parece conhecer a essência do épico. O herói
não planeja sua aventura: é levado pelas circunstâncias.
Também não pugna por nenhum interesse próprio,
mas por questão de justiça ou princípios.
Ao visitar uns tios, na região dos Aparados da Serra, entra
em contato com um certo professor Ricardo e sua filha Helena,
tão bela quanto a de Tróia.
O professor,
já impossibilitado de prosseguir em sua busca, entrega-lhe
um precioso mapa, com indicações iniciáticas
para descer aos abismos do canyon do Itaimbezinho, onde, através
de uma provação semelhante à de Édipo,
com a Esfinge, em um embate de astúcia com Abraxas, uma
divindade pagã, alcançaria um palácio e,
por fim, o Santo Graal. Além disso, também estaria
buscando o arqueoptérix, ave pré-histórica,
elo perdido entre os répteis e os pássaros.
O seu périplo
deveria ser levado a cabo sozinho, mas ele encontra Luís,
que o acompanha quase até o fim. No caminho, coisas muito
estranhas acontecem: passagem por mundos pré-históricos
onde adejam pterodáctilos, sátiros, anõezinhos,
os efeitos propiciatórios do chá de hoasca, a subversão
do tempo cronológico, tudo isso quando ele penetra no “circulo
mágico”, um mundo mítico onde tudo é
possível, principalmente à noite, quando, se instaura
o mundo de Ayik, na percepção jungiana.
Como transformar
o homem cotidiano em herói épico? E que valores
veicular através desse herói? A têmpera desse
herói é testada em diálogos como este, quando
a divindade pagã lhe fornece, insidiosamente, a senha para
a inscrição no panteão épico, ao falar
das fraquezas do homem comum: “Porque tens medo. O medo
dos que temem a lei. Não podes, porque é preciso
ter, antes de tudo, a disposição e a coragem necessárias
para ultrapassar os limites e penetrar na zona interdita, sendo
fiel apenas às tuas próprias leis”.
Eis aí
a receita da autonomia do verdadeiro herói épico.
Não aquela do amigo de Luís, que de tanto admirar
a liberdade dos loucos e tentar imitá-los, se transforma
em um deles, irreversivelmente, de fora para dentro, pois a sociedade
o estigmatizou.
O herói
épico nasce de dentro para fora, revela-se e recebe a convalidação
do seu povo. Seu atos são autônomos mas fazem sentido
para a sua gente, pois representam anseios coletivos de liberdade,
prosperidade, justiça, etc. Quanto à segunda pergunta,
o herói épico pós-moderno não tem
valores prontos e inquestionáveis para veicular: sua força
vem da disposição pela busca, aquilo que o Santo
Graal representa na obra.
O épico
pós-moderno não se desenrola mais nos mares nunca
d’antes navegados, em ÍItaca ou Tróia, mas
nos prosaicos sítios turísticos, aqueles poucos
espaços selvagens ainda preservados. Abismo se passa no
canyon do Itaimbezinho, no município gaúcho de Cambará
do Sul.
Ao invés
do porta-flechas de Ulisses, nosso herói leva nas costas
uma prosaica mochila. E note-se: o herói de Abismo difere
de Leopold Bloom, do Ulysses, de Joyce, o anti-épico moderno.
Aquele não possui sonhos, só desencanto; o de Carlos
Ribeiro, se não quer salvar o mundo, ao menos quer salvar-se.
Nos tempos pós-modernos, ninguém quer se dar mal.
Além
de dar conta de uma sucessão de fatos e episódios
justapostos, típicos da estrutura épica, Abismo
se reveste de uma rica dimensão simbólico-alegórica:
o arqueoptérix e o Santo Graal mostram-se como formas de
busca do conhecimento da ciência e do mito, não excludentes,
mas complementares. Decerto que o cálice sagrado também
significa purificação, para que o homem possa reaparecer
digno aos olhos de Deus. Mas, no livro, ele representa a reabilitação
em diversos planos: uma repactuação entre homem
e natureza, uma volta à idade da inocência, um novo
sentido para a vida, no plano individual, e a re-significação
da própria linguagem humana.
Carlos Ribeiro
se vale de uma linguagem sempre em elevação, um
tanto formal, como João Ubaldo, em Vila Real, ou Steinbeck,
em As vinhas da ira, às vezes na segunda pessoa do discurso,
produzindo um tom quase profético, ou bíblico. O
tom do discurso é sincero, construtivo, imbuído
de uma certa benevolência (mas sem ingenuidade) e, portanto,
afastado da ironia destrutiva ou do sarcasmo corrosivo em relação
ao futuro da raça humana. Tal forma narrativa favorece
o efeito da universalidade. Este estilo pertence, tradicionalmente,
à epopéia. No decorrer da trama, a oralidade e a
coloquialidade também comparecem, mas apenas nos diálogos.
O erótico também comparece, materializado nas coxas
e nas vestes diáfanas de Helena. O herói épico
tradicional participa normalmente de festas dionisíacas.
Poucas, porém, são as concessões ao pitoresco
ou ao humorístico. Prevalece o tom sério, impassível:
“Aproximei-me da porta com a firme intenção
de partir. Aquela conversa já me levara a muitos lugares
e a lugar nenhum. Tantos rodeios – e talvez o vinho –
tinham me deixado tonto e começavam a me cansar. Oh! Quantas
vezes eu dissera a mim mesmo que nunca mais iria beber.”
Um livro é
sempre formado de componentes diversos, que são aproveitados
do repertório do autor, suas vivências, suas leituras
e, sobretudo, sua imaginação. Em Abismo, pode-se
perceber a presença de diversos diálogos estéticos,
uns explicitados, outros não, com a Odisséia, de
Homero, as lendas arturianas, O inferno, de Dante, as Viagens
de Gulliver, de Swift, a Máquina do tempo, de H. G. Wells,
os contos góticos e de mistério ingleses, como A
pata do macaco, de W. W. Jacobs, as narrativas das viagens dos
exploradores como Darwin, Humboldt, Spruce, Burton e outros, os
contos de Poe, a série de TV O mundo perdido, as aventuras
de Indiana Jones, os contos subjetivos de J. L. Borges, impregnados
da essência e da linguagem do lírico. O épico
pós-moderno, portanto, funde-se com o lírico, e
tanto cuida do movimentação exterior – a viagem
– quanto da introspecção mais profunda, nos
subterrâneos do eu.
Abismo adentra
os umbrais do inconsciente jungiano, percorrendo a zona mítica,
sempre em relação com as forças da natureza.
O artifício narrativo que possibilita isso é a introdução
de um personagem-narrador: a narrativa em primeira pessoa facilita
a introspecção lírica. Ao mesmo tempo, esse
narrador nunca perde o fio da meada, e mesmo diante de Vampiros
e Demônios possui sangue frio para narrar de forma confiável.
E, então, é capaz de escrever “o livro de
sua vida”, pura metáfora para a vida do autor, pois
este nasce com a obra.
Se o nosso
herói encontra o Santo Graal? Certamente que não,
ao menos no plano material. Mesmo com a vantagem do “merecimento”,
o herói não encontra o Cálice Sagrado, no
sentido físico, mas encontra o seu significado (o inverso
seria desastroso) : reencantar o próprio olhar, que é
reencantar o mundo e, então, superar o espaço abissal
que interdita a percepção do verdadeiro sentido
da vida.
Luciano Rodrigues Lima é ensaísta e professor
adjunto da Ufba e da Uneb.