CONTO - ESSE ENTARDECER
16/11/01
A mesa estendeu-se, espichou-se quando, do outro lado dela, o médico
estendeu a mão e entregou-me o envelope com o resultado do
exame. Nem precisava, pensei, repassando na minha cabeça
o jeito como me recebeu quando entrei na sala, a forma insistentemente
alegre como falou: “Boa-tarde, Mário!”, aquelas
palavras positivas, aquele abraço cordial, que pareciam querer
dizer-me que, sem sombra de dúvida, a vida é digna
de ser vivida, que não existem dificuldades que não
possam ser removidas e que ele estaria sempre ali, ao meu lado,
para o que desse e viesse.
Claro que ele não falou assim, com esses termos. Eu o conhecia
há muitos anos, ele odiava qualquer espécie de lugar-comum
afetivo, palavras semelhantes a abraços inconvenientes
que pretendem agradar mas que só provocam aversão
e repugnância. Perguntou sobre o meu trabalho, no escritório,
alertou-me contra as surpresas - “Cuidado com os envelopes,
heim!”, disse, com riso moleque, que os bigodes, já
grisalhos, procuravam esconder -, comentou que, de fato, ninguém
suportava mais aquele bolodório todo sobre terrorismo,
sobre pozinhos brancos espalhados aqui e ali e toda aquela paranóia
infernal - “Mas olhe lá! Cuidado com os envelopes!”
- e sentou-se no outro lado da mesa, estendendo a conversa, mas
os meus olhos, acho que ele percebeu isto, já haviam pousado
no envelope, do qual se desgrudaram, pousando nos olhos do homem,
e novamente no envelope e assim sucessivamente, enquanto ele falava,
até que, notando talvez minha ansiedade, estendeu a mão,
com o envelope branco, sobre a mesa, que se estendeu, espichou-se,
de forma que ele ficou distante, pequeno, como no final de um
longo corredor, sumindo, sumindo...
- Mário, disse a voz, arrancando-me a subjetividade. Olhei,
novamente, nos olhos castanhos do meu amigo, nos olhos brilhantes
e saudáveis do meu amigo de ginásio, o sempre bem
sucedido Alberto, doutor Alberto, que dizia agora alguma coisa
sobre coragem, persistência, não lembro. Lembro,
sim, do corredor, na saída - eu não estava cabisbaixo,
eu não estava triste? Não sei ao certo -, das pessoas
todas que me olhavam, diante do elevador, como se soubessem de
tudo, como se, de repente, fossem estender ali, diante de mim,
o maldito tapete da piedade; lembro-me do ruído vivo, intenso
da porta abrindo-se, das pequenas setas luminosas, para cima,
para baixo, para cima, para baixo e, lá fora, a claridade
suave da Rua Chile, dos prédios antigos que me sussurravam,
aos ouvidos: “Nós sobreviveremos a você.”
Segui, lentamente, pela rua, pensando no que poderia fazer com
todas as lembranças que subitamente me afloravam à
mente e que iriam, tão certo como estoura uma bomba, neste
exato momento, em algum lugar do mundo, perder-se. Apenas isto
me incomodava. O meu desaparecimento físico pareceu-me,
naquele momento, algo banal, quase, poderia dizer, necessário.
Estava dentro da ordem natural das coisas, como uma folha que
despenca do caule, apodrece, some, desaparece, substituída
por outras e outras. Mas uma folha não tem lembranças!
Uma folha não é habitada por sombras e sussurros;
por gestos e canções. Na folha que se decompõe
não moram pores-de-sol, como o daquela distante tarde em
Jericoacoara, que vi do alto de uma casa abandonada, enquanto
a lua cheia nascia no lado oposto, sobre as dunas e as marés
cambiantes; tantos e inúmeros pores-do-sol que, subitamente,
inexoravelmente, escaparão pelos meus dedos.
Não, eu não sou uma folha que o vento leva, impunemente,
pensei, cobrando-me, intimamente, o que poderia fazer por aquela
multidão de pessoas que me habitavam: minha mãe,
meu pai, irmãos, amigos, namoradas, mulher, filho, personagens
reais e fictícios, sombras tristes, solitárias,
alegres, gentis e mesmo pessoas insignificantes, como o mendigo
parado numa esquina da Joana Angélica, em 1973; frases
soltas, gritos esparsos, tonalidades perdidas de azul e verde,
no mar...
A que recanto de sombras e silêncio se recolherão
imagens tão fundamente enraizadas na memória? A
volta do baba, numa noite chuvosa de 1975; o vento nos coqueiros,
o mar cinzento ao fundo, baleias ao longe, em 64; os corredores
estreitos nos quais espreitava o velho lobo, num pesadelo, em
62; o cachimbo da velha tia, as bolas de fumaça, subindo,
sumindo; o medo da onça que fugiu do zoológico e
vagava, solitária, pelos telhados, num dia qualquer dos
anos 70; a Mulher de Sete Metros, que enchia as ruas de Salvador
com passos desesperados; a canção de McCartney ecoando
aos meus ouvidos no velho corcel azul do meu irmão, enquanto
o tempo passava lá fora a 150 quilômetros por hora!
Senti, subitamente, meus amigos, senti absurdamente cada metro
daquele asfalto, as pedras e o barro que o antecederam; as paredes
das igrejas, dos sobrados; as sombras nos pátios e varandas;
os ruídos de tantas gerações; e cada
murmúrio da cidade. Era uma sexta-feira e anoitecia já,
quando, na Praça Municipal, estendi meu olhar sobre as
águas da Baía de Todos os Santos. Anoitecia, é
verdade, mas, naquele momento, o mundo ainda era todo meu.