CONTO - DÊ
DRIMI iS ÔVER, BRÓDER
10/08/01
(Ao
Dia Nacional do Arrastão, in memoriam)
Aconteceu. Eu vinha andando pela rua deserta, parecia até
feriado!, quando a turma do isso-é-meu chegou, no susto.
Apareceu como chuva de verão, no de-repente, e foi tomando
posse de tudo, ganhando os esquecidos, os não-tidos. A rua
virou uma festa. Não pra mim, quero deixar claro. Pra mim,
posso garantir que não foi, pois reconheço que sou
um tanto frouxo, e que logo-logo o medo se criou e botou os pés
no meu peito - e correu fundo, dentro de mim. O meu medo tinha olhos
grandes, que chega se entumesciam, saltando pra fora. Mas havia
a tentação - ah, havia! - e não era pra menos:
de repente, as coisas se davam, se ofereciam. E só faltavam
gritar: me pegue! Me tenha! Me leve! E quem não ia levar?
Você? Ah, meu amigo, você não pode imaginar o
que aconteceu ali, tá ouvindo?, quando, pela primeira vez
na vida, o mundo abriu as pernas pra nós, se oferecendo.
E era tudo assim: as coisas ganhavam vida, eram como a bicharada
que, na infância, corria na nossa frente, na roça.
E eram mais ou menos como aqueles bichos que elas se apresentavam
pra nós, mas sem aquela diferença, sabe?, entre o
que-se-pode e o que-não-se-pode; entre o que-se-deve e o
que não-se-deve. Talvez por aí, deixa eu meditar um
pouco... Talvez por aí, tivessem mesmo essa parecença.
Mas eles, os não-tidos, não piavam, nem relinchavam,
nem cantavam, apenas se exibiam. E era mesmo como se saltassem nos
braços das pessoas - braços que pareciam tão
poucos, mas que se multiplicavam, milagrosamente, enquanto as bocas
acudiam: pega esse aí! Agarra aquele ali! Segura aquele lá!
- e era mesmo uma festa do ter-de-repente, que, no fundo, era um
de-repente-ser. Mas os não-tidos eram tantos, meu amigo,
que muito custou levar, todos eles (televisores, geladeiras, mesas,
sofás, cadeiras, aparelhos de som), naquela incrível
procissão que se estendeu pelas ladeiras e ruas estreitas,
e juntar todos eles nos terreiros. E eu ali, olhando, sem saber
se ia pegar o meu, tá entendendo?, ou se ficava ali mesmo,
na moita, bastando-me no ver. O desejo tem dedos longos, meu amigo,
e unhas compridas, de forma que foi com muito custo que me mantive
ali no-quieto, já quase me arrependendo, mas que foi minha
valença, pois logo-logo eles foram chegando, você sabe
quem, não é?, os não-esperados, e, tal e qual,
o tempo fechou. Baixaram como aparição, dessas que
ninguém chama, mas que, quando menos se espera, olha ela
aí. E apareceram assim, com sete mil braços, e, em
cada braço, cinco mãos, e, em cada mão, 10
porretes, e 20 revólveres, e um nem-sei-lá-mais-o-quê.
E quem teve tempo pra explicar que não era nada daquilo que
eles estavam pensando, e coisa e tal, e isso e aquilo outro? Quem
teve tempo pra dizer que eles, os não-tidos, tinham saltado
por conta própria na frente deles, se oferecendo? E foi assim,
seu moço, que vi o couro comer bonitinho - eu que, por pouco,
por pouquinho mesmo, quase não fui também um daqueles
infelizes que conheceram o gosto quente da madeira, aquele que-não-se-esquece.
E os que ainda conseguiram escapar com um ou outro desses não-tidos,
pra depois ficar por aí com pose de grã-fino, na ilusão
do isso-é-meu, depois tiveram foi que passar aquela vergonha
de ver os homens, os outros, que tavam no-quieto, voltando e chegando
e perguntando: Onde você comprou isso?, hein? Onde você
comprou aquilo?, hum? E cadê as notas, ahn? E eta que foi
um samba de foi-assim e foi-assado, que não se explicou coisa
com coisa, de forma que foi mesmo no ver-o-sol-nascer-quadrado que
essa história toda acabou. Ou, como disse aquele gringo branquelo
e lambido: que o sonho acabou.
E, sabe de uma coisa? Ele tem razão, quando diz, em sua língua
enrolada: Dê drimi is ôver, bróder. Dê
drimi, realmente, is ôver.