CONTO - DIÁRIO DE UM CLONE


27/02/03



Querido diário: hoje, mais do que nunca, tenho plena consciência de que ninguém tem um pai como o meu. É verdade que ele tem lá suas esquisitices, mas, quem não as tem?

O que importa mesmo é que ele é um homem muito especial, poderia mesmo dizer, sem qualquer sombra de dúvida, que é um gênio.

Não isso que se convencionou chamar de “gênio”, esses Einsteins e Stephen Hawkings quaisquer da vida, mas um gênio legítimo, desses que só aparecem de mil em mil anos sobre a face da Terra.

É claro que nem todo mundo reconhece o valor dele, o que, certamente, o entristece. Como, aqui entre nós, a minha mãe, que vive queixando-se, a portas fechadas, das suas experiências.

Outro dia, vejam só, ficou horrorizada só porque ele disse, citando um conhecido filósofo, que a sua missão na vida era curar a Terra, tirando da sua pele essa doença que se chama homem.

Para isto, precisaria descobrir o mistério mais profundo da natureza; enfiar suas mãos lá onde ninguém jamais ousou sequer olhar. “Para desvendar esse mistério, eu me fiz ao mar; e vi a verdade nua, realmente! Descalça até o pescoço”, disse ele. Oh, meu pai é um super-homem!

Meu pai? Bem, a falar a verdade, não sei se ele é realmente o meu pai - isto é, o que se convenciona chamar de “pai natural” - ou se da outra, embora isto não tenha lá tanta importância: afinal de contas, esse conceito de naturalidade já não é completamente superado?

A verdade, meus amigos, é que ele havia clonado sua única filha. Durante cinco anos viveu no melhor dos mundos, com as duas filhas, que eram na verdade uma só; ou com a única filha, que eram duas (nunca chegou a uma conclusão quanto a isto), até que uma delas, num infeliz acidente no laboratório, passou pelo desintegrador de átomos e...

Bem, o fato é que, quando a reintegrou, ela ressurgiu no formato de uma muriçoca gigante, com orelhas e sobrancelhas (o que o intrigou por um bom tempo. Afinal, por que as sobrancelhas e não, por exemplo, o nariz? Mas havia também alguns resquícios das belas madeixas loiras da minha irmãzinha no inseto, que foi mantido por alguns meses, preso no sótão, até que resolveram sacrificá-lo. Você sabe: papai sempre foi um humanista).

Ele pensava que isso só poderia ocorrer em filmes B americanos, mas depois não pensou mais no caso, afinal de contas, havia novas experiências a realizar.

É claro que fiquei com uma certa crise de identidade, pois não sei, afinal, se sou a cópia ou a original, mas isso não importa muito, não é mesmo? Devo admitir que me incomoda um pouco essa mania que o meu pai tem de ficar me olhando fixamente.
No início, eu pensava que era uma demonstração de carinho um tanto exagerada, mas, depois, percebi que se tratava de um exame clínico para ver se encontrava em mim alguma anomalia.

Como ele é um pai dedicado, não é mesmo? Mas, graças a Deus, nada foi encontrado de anormal, fora este calombo que vem crescendo, ultimamente, nas minhas costas e um estranho enrugamento da minha pele.

Mas, o que importa é que, nos últimos anos, meu pai tem avançado bastante nas suas pesquisas. Sua grande e nobre missão, segundo me confessou, certa feita, é a de corrigir algumas imperfeições da natureza.

Sempre o indignou, por exemplo, que pessoas de raças e classes sociais diferentes tenham a mesma estrutura genética - um verdadeiro ultraje, uma grande falha no processo evolutivo. Diante disso, empenhou-se, de corpo e alma, e com imenso sacrifício pessoal, em corrigir esse defeito da Criação.

Um grande avanço nesse sentido foi obtido com a nossa velha empregada, Raimunda, que, após algumas experiências intrincadas (e, até mesmo, um tanto dolorosas) de implantes, ressurgiu, gloriosamente, com dois braços sobressalentes, muito úteis para carregar as compras quando minha mãe chega do supermercado.

A pobrezinha chorou muito, pois preferia ficar na sua limitadíssima condição anterior, o que entristeceu muito papai, que ainda não se acostumou com a ingratidão das pessoas.

A mesma coisa aconteceu com a minha mãe, que, em função de algumas modificações genéticas - que ele preferiu manter em sigilo, afinal de contas, os casais têm direito à sua privacidade -, vive se lamentando, pelos cantos da casa, recriminando-o, chamando-o de monstro e de outras barbaridades.

Oh, papai, como é pesado o fardo de estar além do seu tempo!

Mas nada disso jamais o deterá. Basta ver o número crescente de experiências que vem realizando aqui em casa - a essa altura, um febril e extraordinário laboratório. Mais do que isso: um espantoso ensaio do que será o mundo no futuro.

Como eu gostaria de viver o suficiente para testemunhar sua glória, pai, mas, oh, essas dores que sinto em algum ponto de mim que não sei especificar... E estas mãos, que começam a encolher...