UMA CURTA HISTÓRIA


24/01/03


Eu quero falar sobre você, diz o homem, sentado numa pedra, diante do farol. E antes que a mulher possa reagir (ela parece querer também dizer alguma coisa), ele fecha seus lábios com um delicado toque da ponta do dedo indicador. E fala: É uma história curta. É a sua história. Ouça: seus pais eram nossos inquilinos, lembra-se? Faz muitos anos, nós morávamos em Itapuã, próximo a Nova Brasília. Seus pais eram um casal avançado para os nossos padrões naquela época. Não sei, talvez porque deixassem claro para todos que se amavam, e que se desejavam (os casais eram tão assexuados, naquele tempo). Sua mãe, lembro-me bem, era uma mulher forte, de quadris largos, meio despachada, como se diz, falava o que ia à cabeça. Parecia gostar de viver. Seu pai era um homem alto, musculoso, tinha cabelos grandes e um longo cavanhaque. Como o grande carneiro do Ártico, do filme A Grande Planície, de Walt Disney, que assisti, lá se vão tantos anos, no Cine Tamoio. Tinha uma masculinidade agressiva, explícita demais, talvez.

– E eu?

Você era a filha única do casal: magra, espigada, metida a saber das coisas e muito, muito levada. Vestia shorts curtinhos, blusas curtinhas, mostrava a barriguinha toda e podíamos ver, se olhássemos de perto, os pelinhos dourados nas coxas. Subia no grande pé de cajá que havia no quintal, com desenvoltura. Um dia chegou até a galha mais alta, aquela que até nós, os meninos, não ousávamos ir. Corria descalça no meio das galinhas, comia goiaba brincando de amarelinha e, vejam só, jogava até futebol com os moleques. Tinha os lábios grossos que saboreavam tudo o que lhe chegava às mãos, os cabelos castanhos derramados nos ombros, pernas compridas, finas e seios empinados. Tinha a mania de ficar me provocando. Pedia todas as frutas que eu comia para morder e as devolvia, úmidas, me olhando nos olhos. Pedia para entrar comigo no sótão da casa, meu refúgio secreto e ficava lá, encolhida, como se tivesse com frio. Vez em quando trazia a sobremesa (o doce de tamarindo que sabia que eu gostava e que me dava já lambido), e não aceitava recusa. Você era assim, cheia repentes, como uma velha canção sertaneja, e, às vezes, com um tom suave e triste, como noturno de Chopin. Você ocupava os espaços dos meus pensamentos, naquele tempo: o quintal, o brejo, as árvores, as dunas em frente à casa, o quarto silencioso, a frestas das telhas por onde entrava o sol. Talvez eu a tenha decepcionado. Eu não sabia que anos depois você iria padecer por meses a fio, sobre uma cama, diante dos olhos aflitos da sua mãe.

– Sim...

Oh! O tempo passa rápido, eu sei, mas deixe-me voltar um pouco ao passado e ao seu futuro. Você cresceu, tomou formas, suas coxas engrossaram, seus lábios ficaram ainda mais cheios e havia muito tempo que havia se entregue a um homem quando o carro em que viajava com o namorado se espatifou a cem quilômetros por hora num poste. Seu namorado, segundo eu soube depois, não teve quase nenhum ferimento. Você fraturou alguns ossos no tórax, nas pernas e na bacia. Visitei-a, semanas depois do acidente, e te vi, magra e pálida, engessada do pescoço até as coxas, gritando e chorando, sobre uma cama. Sua mãe, que se separara anos antes do marido, parecia ter, agora, o dobro da idade. Senti-me completamente inútil e percebi que a minha presença te incomodava. Não era agradável para você ser vista por seu antigo amor de adolescência naquelas condições. Entendi e fui embora. Nunca mais voltei e nunca mais tive notícias suas, mas não foi por mal, está me entendendo?

– Sim, eu entendo, mas o que você dizia mesmo? – pergunta ela, despertando de sua profunda introspecção, sentada, agora, sobre a pedra, diante do mar e do farol de Itapuã.

– Não é bom construir prisões no passado – diz o homem, melancolicamente, levantando-se, ao lado da mulher, que desperta de sua profunda introspecção. Ela levanta-se, também, da pedra e pensa, finalmente, que já é tempo de parar de sonhar. Precisa parar com aquela mania de querer ser algo que o tempo engoliu, irremediavelmente. Ela é, agora, uma mulher madura, com responsabilidades, e a sua bela cidade é, de fato, sua verdadeira face, fragmentária e multifacetada, tudo o que lhe resta do passado, esse mar, esse mar imenso... o farol branco de listas vermelhas, ou vermelho de listas brancas, resplandece ao sol do fim da tarde; o Morro da Vigia impõe-se, sereno, e, do alto dele, ela pode ver, agora, a longa avenida margeada de coqueiros, os telhados coloridos das casas, as areias e o mar que já não cabe em si.