BREVES MEMÓRIAS GASTRONÔMICAS

 

Carlos Ribeiro

Quando nasceu, às 19h25m, na casa antiga, construída com óleo de baleia, no bairro de Itapuã, havia, em todo o ambiente, um cheiro forte de farofa na manteiga e de ovos estrelados. Seu olfato de nenen, ainda virgem das delícias terrenas, não captou o aroma mais suave do "cozinhado" de abóbora com carne de sertão. E das bananas cozidas em calda dourada.

            Cresceu aprontando no quintal da casa - um brejo que abrigava, naqueles bons 60, sariguês, sagüis, calangros, jaracuçus e uma infinidade de pássaros. As brincadeiras eram intervalos entre o que mais importava: as galinhas ao molho pardo, preparadas por sua mãe; as pititingas torradas, feitas pela velha empregada Vitória; as fatias de parida (que anos mais tarde iria encontrar, idênticas às que sua mãe fazia, numa remota e gelada estação científica da Polônia, na Península Antártica), cafés fumegantes com broas de milho, os divinos cozidos, aos sábados, e, aos domingos, as feijoadas que comia, com os pais, irmãos, tias e primos, debaixo do frondoso cajueiro, temperadas com molhos de pimenta malagueta e refrescadas com garrafas de mirinda e grapetti.

            Enquanto isso havia, lá fora, um mundo inteiro a conquistar: as dunas virgens, com incontáveis pés de pitanga, mangaba e caju; os coqueirais que se estendiam pra lá das ruínas do hotel Stella Maris, com suas silhuetas móveis e suas imensas cabeleiras; os pés de tamarindeiro e mangueiras por toda a costa norte, que explorava com seu valente corcel: uma bicicleta caloi, e seus poderes de super-herói. E o farol branco com listas vermelhas, ou vermelho com listas brancas, iluminando o Mar Tenebroso, habitado por sedutoras sereias loiras e improváveis monstros azuis.

            O paraíso foi pouco a pouco conquistado e vencido - não por ele, mas pela especulação imobiliária. E, enquanto desapareciam as mangabas e os pés de pitanga, sob as rodas dos tratores e das caçambas, ainda havia alguns recantos que apresentava a belas visitantes. (Ele era, então, um convicto e não pouco convincente "guia turístico".)

Tomou gosto e não parou mais: enquanto desvendava futuros luminosos nos misteriosos hexagramas do I Ching, apresentava-lhes, com esmero, pratos exóticos, que elas pediam mais, claro, enquanto o seu corcel, dos primeiros tempos, enferrujava num canto qualquer do paraíso perdido. Entrou pelas noites adentro, misturando chope com acarajé, as batidas de coco de Deolindo, no Rio Vermelho, com o mocotó que vendiam, nas noites de sexta-feira, no Mercado das Sete Portas; os carurus, o feijão de leite e o arroz de Haussá...

E descobriu o Brasil: o feijão tropeiro com torresmo nas montanhas de Minas; o bode assado em Cocorobó, sertão da Bahia; os lambaris grelhados com batatas douradas na manteiga, em Guarapari; grostolis crocantes e picanhas com arroz de carreteiro, num lugar qualquer das serras gaúchas; fondues de queijos em Gramado; um fetuccini e uma pizza à moda Toscana num restaurante em São Paulo, e, ah, as caldeiradas, tacacás e açaís (morninhos com farofa grossa e amarela), em Belém do Pará.

Lembranças inesquecíveis: um tucunaré preparado, num forno subterrâneo, num final de tarde melancólico, às margens do rio Araguaia, por uma velha índia Karajá, nos anos 70; um filé macio, que cedia docemente à leve pressão de uma faca afiadíssima, numa churrascaria em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul; centollas, grandes crustáceos da Tierra del Fuego chilena, em Punta Arenas; um bacalhau assado na brasa, que o fez ganhar asas e sobrevoar a zona do Porto, num restaurante em Lisboa; o arroz integral com banchá, indelével, em sua fase macrobiótica, preparado numa fogueirinha, no interior da Igreja do povoado de Nossa Senhora do Guadalupe, que o abrigava do vento sul, na Ilha dos Frades; e a moqueca de marisco, alucinógena, no Maria de São Pedro, que, na força evocativa do dendê, o fez viajar, em deliciosas reminiscências, pelos caminhos de areia do bairro, que percorria quando menino, com sua bicicleta intergaláctica.

E o mundo todo era uma imensa paella, que o alimentava, para todo o sempre. Amém.

Carlos Ribeiro é jornalista e escritor